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EF 118: a ferrovia que pode mudar a rota do ES

EF 118: a ferrovia que pode mudar a rota do ES

Com potencial de movimentar 24 milhões de toneladas por ano, a ferrovia Rio–Vitória pode reduzir custos logísticos, conectar portos estratégicos e ampliar a capacidade exportadora do Espírito Santo

Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 15:11

A Estrada de Ferro Vitória-Rio (EF 118), que promete ligar a capital fluminense à Região Metropolitana capixaba, é um dos empreendimentos mais esperados da malha ferroviária nacional. Pensado como um eixo logístico estratégico do Sudeste, o empreendimento tem potencial para transformar o Espírito Santo em um dos principais hubs de exportação do país.

De acordo com o Ministério dos Transportes, a EF 118, também conhecida como Anel Ferroviário do Sudeste, é prioridade no plano de expansão ferroviária nacional. Com edital previsto para março de 2026, os estudos do projeto de concessão foram aprovadosem meados de dezembro pela diretoria da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

O projeto pretende integrar os centros produtores do Sudeste aos portos de Açu, Itaguaí, Ubu e Vitória, conectando-se ainda às redes da MRS Logística (RJ) e da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), da Vale, em territórios capixaba e mineiro. A nova linha férrea, com aproximadamente 575 km de extensão, será dedicada ao transporte de minérios, granéis sólidos e líquidos e cargas gerais, com capacidade estimada para movimentar 24 milhões de toneladas por ano.

Essa integração, explica o ministério, é fundamental para aumentar a eficiência do escoamento de cargas e reduzir custos logísticos, que limitam a competitividade brasileira no comércio internacional.“O projeto é estratégico para o desenvolvimento regional e para a consolidação de uma logística mais moderna, integrada e sustentável”, avalia a pasta.

relatório do Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) foi do diretor Felipe Queiroz, e seu plano de outorga foi aprovado por unanimidade na diretoria da agência. Na sua manifestação, aponta que o projeto tem limitações no âmbito econômico-financeiro. "Assim, para suprir o 'gap' de viabilidade, o Ministério dos Transportes se manifestou no sentido de utilizar recursos oriundos de investimentos cruzados, como MRS e Rumo Malha Paulista e valor de outorga livre da EFVM (Estrada de Ferro Vitória a Minas) se necessário", diz.

O subsecretário de Estado de Desenvolvimento, Celso Guerra, explica que o governo tem agendas constantes com as autoridades federais sobre o tema. “Estamos otimistas quanto ao desfecho da EF 118, que trará grande contribuição ao desenvolvimento do Sul capixaba.

Para Guerra, resolver os gargalos logísticos é essencial para ajudar o Espírito Santo a enfrentar os desafios da reforma tributária. “A consolidação da infraestrutura capixaba colocará o Estado em outro patamar de desenvolvimento e terá um impacto relevante na competitividade das exportações brasileiras”, acrescenta.

Acordos feito pelo governo federal — a partir de renovações antecipadas de trechos ferroviários, da MRS Logística, da Rumo Malha Paulista e da Vale — devem viabilizar R$ 4,1 bilhões para a construção. A informação foi confirmada pelo secretário do Ministério dos Transportes, George Santoro. Corredor Bioceânico Na avaliação da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), a EF 118, integrada a outras rotas e corredores, vai permitir a conexão da malha ferroviária aos portos capixabas, que estarão preparados para receber novos fluxos de cargas de diversas regiões do país.

O eixo estratégico cria condições para que o Estado participe de rotas internacionais, como o Corredor Bioceânico, que conecta o Atlântico ao Pacífico, ampliando a capacidade exportadora e fortalecendo a integração entre rodovias, ferrovias e portos. “O Espírito Santo tem uma vocação logística natural. Estamos a até 1.200 km de mais da metade do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, o que nos posiciona como um hub logístico nacional”, analisa o presidente da Findes, Paulo Baraona.

Segundo ele, o investimento em infraestrutura ferroviária é imprescindível para reduzir o Custo Brasil. Os estudos do Banco Mundial, complementa, indicam que esse modal é até 40% mais econômico que o rodoviário. “A EF 118 pode ser uma alternativa concreta para aliviar esse peso, oferecendo uma rota mais eficiente e sustentável para o escoamento de cargas entre Vitória, Rio e São Paulo”, observa.

Competitividade

Hoje, o Espírito Santo depende fortemente do modal rodoviário para o escoamento de cargas, o que encarece a operação e aumenta a pressão sobre as estradas.

A EF 118, ao conectar os portos do Arco Leste à malha nacional, permitiria o transporte mais eficiente de produtos agrícolas e contêineres de alta densidade, reduzindo o tempo de percurso e os custos de frete. Essa eficiência teria reflexos diretos na competitividade da indústria capixaba.

“Projetos como a EF 118 ampliam a capacidade de escoamento, reduzem custos e consolidam o Espírito Santo como um hub logístico”, avalia o presidente da Findes. Ele ainda reforça que a federação defende que os investimentos em infraestrutura devem ser prioridade nacional. Se concretizada, a EF 118 poderá redesenhar o mapa logístico do Sudeste e do país. O Estado ganharia relevância como ponto de convergência entre os fluxos de exportação e importação, tornando-se porta de entrada e saída de produtos de alto valor agregado.

O aumento da movimentação portuária também atrairia novos investimentos das indústrias e de infraestrutura. No cenário oposto, a demora na execução da ferrovia prolonga a dependência do modal rodoviário e mantém o Estado à margem das grandes rotas de exportação. Segundo Baraona, o Brasil investe apenas 2% do PIB em infraestrutura, metade do ideal para sustentar o crescimento econômico.

“Temos atuado para estimular e acelerar investimentos estratégicos, como a EF 118, e também apoiar autorizações ferroviárias privadas, como a EF 030/EF 456 (Petrocity) e a EF 352 (Macro Investimentos), que ampliam a capacidade de transporte e fortalecem a conexão com os portos de águas profundas capixabas”, informa o presidente da Findes.

O dirigente destaca que foi dado outro passo importante em 2025: a criação do Fórum InfraLeste, que reúne as Federações das Indústrias de seis Estados – Bahia, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. O objetivo é integrar agendas e promover uma visão conjunta de desenvolvimento logístico regional e nacional. “Essa é mais uma contribuição do setor produtivo para que o Brasil avance, de forma definitiva, em infraestrutura e competitividade.”

Enquanto o processo da EF 118 tramita entre agências e tribunais, o Espírito Santo continua esperando a chegada dos trilhos que prometem transformar sua economia. Quando concretizada, a ferrovia poderá ser o elo que faltava para integrar o Estado ao grande corredor logístico nacional e até ao caminho bioceânico que ligará o Brasil de ponta a ponta.

A ferrovia

A EF 118, também conhecida como Arco Ferroviário do Sudeste, é um projeto de 575 km, dividido em fase 1, considerada obrigatória, e fase 2, com investimento adicional. O trecho obrigatório vai de Santa Leopoldina, na Região Serrana do Espírito Santo, até São João da Barra, na região do Porto de Açu, no Rio de Janeiro. O traçado da ferrovia passa por portos do Espírito Santo e Rio e também será interligada à Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM).  

A construção do trecho 1, de 250 km, deve ser lastreada a partir de repasses de R$ 4,1 bilhões feitos pela MRS Logística, Rumo Malha Paulista e Vale, que tiveram seus atuais contratos renovados antecipadamente.

Do total previsto em repasses, R$ 2,8 bilhões virão do acordo firmado com a MRS, que, inclusive, já passou pelo Tribunal de Contas da União (TCU), lembra o subsecretário de Estado de Desenvolvimento, Celso Guerra. Segundo informações da Folha de S.Paulo, outros R$ 502,5 milhões sairão da renovação do contrato da Rumo Malha Paulista. Pela renovação da Estrada de Ferro Vitória a Minas, a Vale deve desembolsar R$ 826 milhões.

A Fase 1 do projeto chegou a ser dividida em dois trechos, um ligando Santa Leopoldina a Anchieta e outro indo de Anchieta a São João da Barra. A previsão no início do ano era de que o trecho até Anchieta, de 80 km, seria construído pela Vale, no âmbito da renovação antecipada da concessão da EFVM e da Estrada de Ferro Carajás (EFC). Mas, meses depois, a Vale e o governo federal não chegaram a um acordo sobre a alteração dos contratos das ferrovias, o que acabou interferindo no aporte previsto pela mineradora para a construção do novo trecho.

Sobre o caso, o diretor da ANTT explicou que o contrato poderia contemplar a construção do ramal de Anchieta com investimento adicional com direito a reequilíbrio econômico-financeiro, tendo o ministério expedido diretrizes determinando o acionamento do gatilho desse investimento.

"Ocorre que a ANTT expediu ofício que requereu complementos às diretrizes alertando existir expectativa de que o reequilíbrio superaria o valor da outorga. No mesmo instante, a Vale comunicou ao ministério que preferia não executar o ramal e pagar a outorga evitando adicionar a cláusula de reequilíbrio", disse Queiroz.

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