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Vereadoras são hostilizadas por colegas de plenário em Vitória e na Serra

Manifestações de outros vereadores tentavam desqualificar a fala das parlamentares, com declarações consideradas violência política de gênero por especialista

Tempo de leitura: 5min
Vitória
Publicado em 22/06/2022 às 22h26
As vereadoras Karla Coser (PT), de Vitória, e Raphaela Moraes (Rede), da Serra, durante sessões no dia 22 de junho
As vereadoras Karla Coser (PT), de Vitória, e Raphaela Moraes (Rede), da Serra, durante sessões no dia 22 de junho. Crédito: YouTube Câmara de Vitória e Câmara da Serra/Reprodução

Em cenas que se tornaram corriqueiras nos Legislativos municipais, a vereadora de Vitória Karla Coser (PT) e a vereadora da Serra Raphaela Moraes (Rede) foram hostilizadas por colegas do sexo masculino em plenário, nesta quarta-feira (22). Os episódios se somam a outros exemplos de violência política de gênero ocorridos contra mulheres no exercício dos seus mandatos.

Na Câmara de Vitória, a petista virou alvo do vereador Luiz Emanuel (Cidadania) e do presidente da Casa, Davi Esmael (PSD), após manifestar-se a respeito do caso envolvendo uma criança de 11 anos vítima de estupro, em Santa Catarina, que ficou grávida e foi impedida pela juíza que atuou no processo de fazer o aborto previsto na legislação penal em casos de violência sexual.

As manifestações dos vereadores não ficaram concentradas na divergência de opinião com a colega. Eles questionaram a legitimidade da vereadora para falar sobre o assunto e utilizaram, para isso, termos como “você é uma menina mimada”, “você é uma mulher que se faz de coitada” , “você não tem noção”, “quem é você, vereadora? Você não é mãe”.

Karla Coser usou as redes sociais para se manifestar sobre o episódio. “Aos insultos e desrespeitos que escutei hoje só tenho uma coisa a dizer: tô muito distante de me fazer de coitadinha. Não sou uma coitada e nunca vou deixar de usar o espaço que tenho em plenário pra denunciar os abusos e violências que acontecem com as mulheres”, publicou no Twitter.

Para a petista, quando a chamam de mimada “é porque não têm nenhum argumento para contrapor aos meus”. O termo foi usado por Luiz Emanuel enquanto a vereadora respondia ao presidente da Câmara sobre a sua legitimidade para se pronunciar sobre o assunto, como mulher, feminista e representante eleita pelos moradores da Capital capixaba.

“Homens costumam mesmo fazer isso. E eu seguirei firme, de cabeça erguida sabendo do tamanho da minha responsabilidade em construir uma sociedade mais justa pras mulheres”, declarou Karla Coser.

Na Câmara da Serra, a vereadora Raphaela foi chamada de "oportunista" e "hipócrita" pelo vereador Pablo Muribeca (Podemos) depois de relatar uma situação vivida em uma unidade de saúde do município, onde foi para se vacinar. 

"A vereadora usa de oportunismo para se promover e despromover uma profissional maravilhosa. Não vem contar mentira. Não vou aceitar injustiça e vou fazer uma nota de repúdio a Vossa Excelência. Você quer receber respeito, dá respeito. Agora quer chegar com arrogância e prepotência?", atacou Muribeca da tribuna da Casa.

Em seguida, o vereador Sergio Peixoto (Pros) subiu à tribuna da Câmara da Serra e gritou "se controla vereadora, pelo amor de Deus" e repetiu: "está descontrolada, vereadora”. 

A vereadora Elcimara Loureiro (PP) e o vereador Anderson Muniz (Podemos) reagiram. Enquanto a primeira denunciava a agressão à colega, Muniz se levantou e afirmou: “não vou admitir falta de respeito com as mulheres nessa Casa”.

Raphaela Moraes afirmou que toda essa situação a deixou muito chateada, principalmente por manter uma relação cordial com o vereador Muribeca. "São coisas que acontecem na vida que dão vontade até de desistir. Meu discurso era sobre o programa de castração do município. Eu fui vacinar em um bairro próximo da Câmara da Serra, uma pessoa me reconheceu e começou a fazer denúncia de que estava faltando água, não tinha álcool em gel, não tinha papel toalha. Sou vereadora e é minha função mostrar", sustentou.

"Eu só quis falar sobre o que ocorreu. A minha mãe estava descendo ao plenário e quando fui recebê-la o vereador ficou gritando 'descontrolada'. A gente sente até um pouco de medo de se pronunciar. Eu raramente vou às unidades de saúde, foco muito na pauta de proteção aos animais. Meu interesse era só tomar a vacina e acabei passando por todo esse transtorno. É como se fosse para a gente ter medo de usar a fala. Não quero passar por cima de ninguém. Violentaram o meu direito e quem cometeu violência é alguém que gosto", acrescentou a vereadora da Rede.

INVISIBILIDADE

"Como representantes eleitas, quando essas mulheres são silenciadas, muitas outras são silenciadas". A afirmação é da professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do programa de pós-graduação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Mayra Goulart, que pesquisa sobre violência política de gênero.

A professora ressalta que esse tipo de violência e silenciamento ocorrem de diversas formas para as mulheres que estão na política. A caracterização dos tipos e formas dessa violência faz parte das suas pesquisas, cujo objetivo é ajudar a distinguir e a identificar as situações em que isso ocorre de maneira mais clara, para que possam ser propostas regras e legislações específicas para combater a violência política de gênero.

"Isso ocorre de forma sistemática, seja invisibilizando quando elas falam, seja questionando a autoridade delas para falar, de maneira direta ou indireta, como por exemplo quando questiona se ela entende determinada regra", esclarece a cientista política.

Para a professora, situações como as ocorridas nas Câmaras de Vitória e da Serra nesta quarta-feira só agravam a dificuldade vivenciada pelas mulheres com mandato para conquistarem espaço nos parlamentos e reproduzem um formato em que se forma um bloco de homens contra mulheres.

"Mulheres ocupam menos espaços nas estruturas de poder, nos cargos de relatorias, de Mesa Diretora, nas Comissões de Constituição e Justiça, até mesmo em cargos de líderes de bancadas. Isso é uma forma de contornar o voto popular, pois mesmo quando as mulheres são eleitas, elas são distanciadas de espaços que possam dar mais visibilidade", destaca a professora.

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