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'Bravas' e 'nervosas': as palavras que ferem as mulheres no trabalho

Adjetivos têm como intuito desacreditar ou rotular as trabalhadoras dentro do ambiente corporativo; empresas precisam ter políticas internas que promovam a igualdade de gênero e o respeito

Tempo de leitura: 7min
Vitória
Publicado em 26/03/2022 às 19h46

Não importa a posição que ocupem dentro de uma empresa, as mulheres são comumente tachadas no mercado de trabalho como nervosas, bravas ou estressadas. Os adjetivos vêm atrelados a comentários ao período de Tensão Pré-Menstrual (TPM) ou à falta de sexo, por exemplo, com o intuito de desacreditar ou rotular as trabalhadoras dentro do ambiente corporativo.

Além de ter que lidar com o preconceito de certos pontos de vista, as mulheres ainda precisam ter que provar todos os dias que têm competência para ocupar seus cargos. Em uma recente pesquisa feita pela Discovery Brasil, 41,7% das entrevistadas disseram que outros homens de sua área não as enxergam no mesmo nível.

O estudo, chamado de “O Fenômeno de Impostora”, ouviu 1.250 mulheres no país e revela uma experiência vivida por aquelas que têm alto desempenho. De acordo com a análise, 53,7% das profissionais se lembram mais das críticas que recebem do que dos elogios.

Preconceito leva mulheres serem chamadas de bravas e nervosas no trabalho
Mulheres sofrem com comentários sexistas e preconceituosos. Crédito: Vasilenko Dmitriy/Freepik

O desrespeito ocorre nas mais diversas situações e ambientes. Um exemplo foi o que ocorreu durante uma sessão da CPI da Covid-19, em meados de setembro de 2021, quando o ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário, chamou a senadora Simone Tebet (MDB-MS) de "descontrolada". A fala de Rosário gerou tumulto entre os senadores, que foram em defesa da parlamentar e chamaram o ministro de "machista", o assunto invadiu as redes sociais.

“A senadora estava desempenhando o papel dela durante os depoimentos, que era o de questionar e investigar o que aconteceu durante o período da pandemia. Estava sendo firme em suas colocações. Essa é uma questão que reflete o que chamamos de estereótipo de gênero”, comenta a professora de Gestão de Pessoas Kátia Vasconcelos.

A procuradora do Ministério Público do Trabalho no Espírito Santo (MPT-ES) Keley Kristiane Vago Cristo complementa que comentários sexistas e preconceituosos são fruto de uma cultura machista e patriarcal, na qual a divisão do trabalho, historicamente, relegou as mulheres ao espaço privado e reprodutivo, ou seja, não remunerado e não valorizado, tais como a atividade doméstica, a criação de filhos e cuidados com familiares, ao passo de que, ao homem, estava reservado o trabalho produtivo, remunerado e socialmente valorizado, no espaço público.

Apesar das mudanças históricas e sociais que culminaram com maciça entrada da mulher no mercado de trabalho, a procuradora avalia que ainda há uma cultura que insiste em desvalorizar a trabalhadora, atribuindo-lhe estereótipos de gênero, buscando destituir sua palavra, desconstruir sua argumentação e invisibilizar sua atuação no espaço público.

Keley Kristiane Vago Cristo

Procuradora do Ministério Público do Trabalho no Espírito Santo (MPT-ES)

"Por esse viés machista, as mulheres são atribuídas a adjetivações que não são bem recebidas no mercado de trabalho, tais como: frágil, insegura, histérica, descontrolada, entre outras. Tais atribuições são naturalizadas como intrinsecamente femininas e visam impedir ou destituir as profissionais de um lugar de poder"

A CEO da Rhopen, Cátia Horsts, avalia que muitas mulheres são bem-sucedidas e responsáveis por liderar grandes equipes e trabalhos de alta notoriedade, mas que o uso recorrente desses termos pode afetar a autoestima delas, além de contribuir para o desenvolvimento da síndrome do impostor — quando o indivíduo constrói uma percepção de si mesmo de incompetência e insuficiência.

“Estudo realizado pela Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, apontou uma triste realidade entre executivas importantes: 70% das entrevistadas têm a percepção que são 'uma fraude'. Um sentimento reforçado quando se trata de um mercado de trabalho que está sempre colocando a mulher em prova”, destaca Cátia.

DESIGUALDADE ENTRE MULHER E HOMENS NA MESMA FUNÇÃO

O preconceito contra as mulheres no mercado de trabalho não fica apenas nos comentários. Elas recebem menos que os homens e não recebem as mesmas oportunidades de crescimento. A igualdade de gênero no mundo corporativo ainda tem um longo caminho a ser percorrido. No final de março, o Fórum Econômico Mundial divulgou os dados do novo Relatório Global de Gênero.

A análise, que compara a evolução da lacuna de gênero na economia, política, educação e saúde, constatou que o tempo necessário para alcançar a paridade passou de 99,5 para 135,6 anos nos últimos 12 meses. Essa deterioração pode ser atribuída à menor representação política das mulheres nas grandes economias e ao estancamento dos avanços econômicos.

O ranking conta com 156 países, sendo que o Brasil está em 93º lugar, caindo uma posição em relação ao levantamento de 2020.

“O relatório aponta que ainda somos um país muito distante do que se espera em termos de equidade de gênero. Quando nos deparamos na sociedade de maneira geral ainda há uma cultura machista muito forte. Diante deste fato, temos um alto desafio para mudar essa visão. No ambiente de trabalho não é diferente. Por mais que haja discussão sobre a importância da diversidade, as empresas precisam combater a desigualdade e proporcionar um ambiente mais inclusivo”, ressalta a professora de Gestão de Pessoas.

Kátia Vasconcelos comenta que um estudo de 2017 apontou que as mulheres são duas vezes mais interrompidas durante uma reunião no trabalho do que os homens, inclusive por outras mulheres.

De acordo com a procuradora do MPT-ES, Keley Kristiane Vago Cristo, é possível e necessário que as empresas tratem dessa temática, insiram normas pertinentes em seus manuais de conduta, ofereçam treinamento sobre questões de gênero e tenham políticas internas que promovam a igualdade de gênero e o respeito.

Para ela, é fundamental ter em vista que o desrespeito e o sexismo constituem violência de gênero no ambiente de trabalho e como tal, cabe ao empregador tomar todas as medidas necessárias para coibi-la.

Keley lembra ainda que o preconceito de gênero é extremamente danoso às carreiras das mulheres, já que não se trata apenas de atitudes de discriminação direta, mas, sobretudo, de atitudes comandadas por esquemas inconscientes, sendo que o machismo está profundamente instalado em nossa cultura patriarcal.

“A violência exercida por meio de mecanismos que invalidam, desvalorizam e subvertem o discurso das mulheres é extremamente danosa ao meio ambiente do trabalho e tem efeito de reproduzir e legitimar a violência contra a mulher”, comenta a procuradora.

COMO DENUNCIAR

A desigualdade de gênero pode ser denunciada ao MPT-ES, preferencialmente, pelo endereço eletrônico da Procuradoria Regional do Trabalho (PRT) da 17ª Região ou por intermédio do aplicativo MPT Pardal, disponível para Android e IOS.

Além da internet, as denúncias podem ser feitas diretamente nas sedes do MPT nos municípios de Vitória, Cachoeiro de Itapemirim, Colatina e São Mateus.

A denúncia pode ser anônima ou, quando solicitado, poderá ser mantido o sigilo dos dados do denunciante. Para mais informações, entre em contato pelo telefone (27) 2125-4500.

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