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Entenda como a Covid-19 pode causar trombose

Médicos explicam se é possível detectar o risco de obstrução em vasos sanguíneos nos pacientes com coronavírus

Publicado em 16/07/2021 às 15h30
Trombose
Segundo o cirurgião vascular Rodrigo de Paula França, a relação entre a infecção pelo novo coronavírus e a ocorrência de trombose ainda não é completamente compreendida. Crédito: Racool_studio/Freepik

A professora e graduanda em Psicologia Tatiana Bastos Guimarães, 40 anos, teve Covid-19 em março deste ano. Depois de alguns dias de sintomas, ela achou que estava, enfim, curada. Mas começou a sentir uma dor na perna que a assustou. A suspeita médica era de trombose, um problema circulatório grave que pode até levar à morte.

"Por causa do cansaço provocado pela Covid, fiquei uns sete dias praticamente deitada. Não tinha força para nada. Foi aí que uma das minhas pernas começou a doer. Primeiro achei que era devido ao repouso que eu estava fazendo. Mas aí deu inchaço, vermelhidão. A dor era muito grande. Eu não andava! Fui ao angiologista e fiz o ultrassom. Tomei anticoagulante e agora sigo acompanhando a cada semana com exames", relata a professora, moradora de Belo Horizonte (MG).

Felizmente, Tatiana não teve trombose. A sequela vem sendo uma das tantas relatadas por pacientes pós-Covid.

O cirurgião vascular Rodrigo de Paula França, que atua no Hospital Santa Rita, em Vitória, explica que a relação entre a infecção pelo novo coronavírus e a ocorrência de trombose ainda não é completamente compreendida. "A infecção pode causar variadas e complexas anormalidades no sistema de coagulação do organismo, criando um ambiente propício à formação de trombos, ou seja, de coágulos."

Segundo o cirurgião vascular Rodrigo de Paula França, a Covid-19 pode causar variadas e complexas anormalidades no sistema de coagulação do organismo, criando um ambiente propício à formação de coágulos.
Segundo o cirurgião vascular Rodrigo de Paula França, a Covid-19 pode causar variadas e complexas anormalidades no sistema de coagulação do organismo, criando um ambiente propício à formação de coágulos. Crédito: Hospital Santa Rita/Divulgação

Essa propensão à trombose, causada pela infecção, segundo o médico, pode ser melhor explicada por meio de três principais pontos: primeiro, uma agressão à parede do vaso sanguíneo. Depois, o que pode haver é uma uma lentidão no fluxo do sangue nos vasos, algo mais observado nos pacientes acamados. Outra teoria é de que ocorreria uma alteração em fatores sanguíneos que facilitam a coagulação do sangue e formação de trombos.

O QUE É

A trombose é a formação de coágulos no interior dos vasos sanguíneos, onde o sangue deve estar na forma líquida. "É muito importante diferenciar duas formas de trombose. A trombose venosa é a que acontece nas veias, que são vasos sanguíneos que promovem o retorno do sangue dos órgãos para o coração e pulmão. A trombose arterial acomete as artérias, que são vasos sanguíneos que promovem a nutrição sanguínea dos órgãos, após o sangue ter passado pelos pulmões e coração", observa França.

Essas duas situações, diz o cirurgião vascular, apresentam suas frequências aumentadas na infecção pelo novo coronavírus, sendo a segunda menos frequente do que a primeira. "Por mais que tenham denominações semelhantes, elas costumam ter repercussões clínicas diferentes e podem exigir tratamentos com algumas particularidades em cada caso."

De acordo com o médico, a gravidade da trombose estará relacionada ao órgão em que aconteceu e à sua extensão, ou seja, a quantidade de trombos formados. "No que diz respeito à trombose venosa, duas complicações geram maior preocupação: a embolia pulmonar, que é a migração do trombo, que, na maioria das vezes, se forma nas veias dos membros inferiores, para a circulação do pulmão. De acordo com a fragilidade clínica do paciente e quantidade de trombo, pode ser fatal. Tem também a isquemia, que é a falta de circulação de órgão, geralmente os órgãos abdominais, ou segmento do corpo, geralmente membros inferiores, quando há uma obstrução muito acentuada das veias nessas regiões pelos trombos", detalha.

A maioria dos casos, diz ele, quando adequadamente diagnosticados e tratados, não geram desfechos mais graves ou fatais. "Quando se trata da trombose arterial, ela pode acometer artérias em regiões muito nobres como o coração ou o sistema nervoso central. As consequências nesses territórios, como dito, dependerá da extensão do acometimento, da rapidez com que o diagnóstico foi feito e com que o tratamento foi implementado, podendo gerar quadros graves e/ou fatais como o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC). Não menos importantes são as tromboses arteriais nos membros que podem levar a isquemias acentuadas com risco de amputação parcial ou total."

SINTOMAS

Rodrigo França explica que nem sempre é possível prever um quadro agudo da doença. O que a medicina faz é analisar elementos que indiquem uma maior probabilidade de desenvolvimento da trombose.

"Temos os fatores de risco e alguns marcadores sanguíneos que auxiliam a definir os pacientes que possuem uma maior propensão a desenvolvê-la. A trombose venosa acontece com maior frequência nas veias dos membros inferiores. Geralmente está associada a dor no membro. Em casos com maior volume de trombos, também observamos inchaço desse membro", pontua.

No caso de trombose de veias de órgão do abdome, destaca o médico, o sintoma mais característico também será dor. "No caso da trombose arterial, os sintomas e sinais estão relacionados ao órgão acometido: no caso dos membros, dor, palidez e diminuição da temperatura; no coração, dor torácica e nos casos do sistema nervoso central, serão os sinais e sintomas de AVC, como desvio da boca, alteração na fala e perda súbita de força dos membros", cita.

No caso da trombose arterial, os fatores de risco se relacionam a hábitos ou doenças, como o tabagismo, por exemplo.
No caso da trombose arterial, os fatores de risco se relacionam a hábitos ou doenças, como o tabagismo, por exemplo. Crédito: Wirestock/Freepik

Ele mostra que os fatores de risco para o problema são vários. No caso da trombose venosa, a pessoa apresenta falta de mobilidade/restrição ao leito, cirurgias de maior porte recentes, trauma recente, obesidade, doenças cardíacas (infarto, insuficiência cardíaca), cânceres pregressos ou em atividade, dispositivos intravasculares (cateteres, por exemplo), história prévia pessoal ou familiar de trombose (neste último caso, familiar, geralmente se tratam de doenças herdadas, as trombofilias), reposição ou contracepção hormonal, dentre outros.

No caso da trombose arterial, os fatores de risco se relacionam a hábitos ou doenças, como o tabagismo, o diabetes, pessoas que têm a capacidade promover o depósito de gordura nas artérias (aterosclerose) ou doenças que geram inflamação nas artérias (arterites).

EXAMES

O cirurgião vascular afirma que a trombose, quando abordada como evento agudo, acontece de forma súbita. "Os exames apenas detectam quando ela estiver instalada", explica.

Nos casos de uma história e quadro clínicos compatíveis, diz Rodrigo França, do Hospital Santa Rita, a investigação será feita por meio do exame físico realizado pelo médico, que é fundamental, associado a exames complementares como os laboratoriais, como o Dímero-d, por exemplo, e os por métodos de imagem, como o ecodoppler vascular (ultrassonografia dos vasos sanguíneos).

De acordo com o radiologista intervencionista e angiorradiologista Bernardo Oliveira Pacheco, desde o início da pandemia houve um aumento na incidência dos casos de tromboembolismo, seja por trombose venosa ou arterial.
De acordo com o radiologista intervencionista e angiorradiologista Bernardo Oliveira Pacheco, desde o início da pandemia houve um aumento na incidência dos casos de tromboembolismo, seja por trombose venosa ou arterial. Crédito: Cremasco/Divulgação

Quando foi investigar a dor na perna, a professora Tatiana Guimarães fez o ultrassom. Ecodoppler, ultrassonografia com doppler ou simplesmente doppler é um método de exame de imagem que se faz a partir do aparelho de ultrassom.

De acordo com Bernardo Oliveira Pacheco, radiologista intervencionista e angiorradiologista do grupo Cremasco, o objetivo do ecodoppler é avaliar o fluxo sanguíneo vascular, nas artérias e veias do organismo, auxiliando da detecção de doenças, como obstruções ou tromboses, aneurismas vasculares, malformações arteriovenosas e até das varizes.

Pacheco afirma que, desde o início da pandemia de Covid-19, houve um aumento na incidência dos casos de tromboembolismo, seja por trombose venosa ou arterial. "Um artigo médico, que revisou 26 estudos de diversas partes do mundo, mostrou que 28% pacientes internados em UTI por Covid-19 apresentaram a complicação de trombose venosa", diz.

Segundo o radiologista, o doppler é um ótimo exame para acompanhamento de transplantados do rim ou fígado, por ser um dos primeiros parâmetros a apresentar alteração nestes pacientes. "Adicionalmente, é utilizado para avaliar varizes dos membros inferiores ou varizes pélvicas, para pacientes portadores de vasculites, diagnosticar trombose venosa profunda ou aneurismas, seguimento de nódulos e alterações na tireoide, diagnosticar causas de disfunção erétil, entre outros", cita ainda.

Outro exame solicitado para ajudar na detecção de trombose é a dosagem de Dímero-D. Com base em valores de referência, é possível saber se a pessoa tem alterações no processo de coagulação, o que pode representar risco de trombose. Nos casos de trombose venosa profunda e tromboembolismo pulmonar, esse marcador está aumentado.

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