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Cuidados com a saúde durante e após a pandemia deve ser multidisciplinar, envolvendo diferentes especialidades
Cuidados com a saúde durante e após a pandemia deve ser multidisciplinar, envolvendo diferentes especialidades. Crédito: Ipopba/ Adobe Stock

Covid-19: sequelas mostram que batalha vai além da cura

Já se sabe que a Covid-19 pode deixar sequelas físicas e emocionais. Estudos apontam que até 80% dos recuperados sentem ao menos um sintoma após a infecção, que mostrou que não é passageira

Publicado em 20/05/2021 às 19h15

A pandemia do novo coronavírus fez cada um olhar para dentro de si e rever seu estilo de vida. A saúde passou a ser prioridade, tanto para quem vivenciou o susto de se infectar com a doença, quanto para aqueles que conseguiram escapar dela até agora.

Já se sabe que a Covid-19 pode deixar sequelas físicas e emocionais. Estudos apontam que até 80% dos recuperados sentem ao menos um sintoma após a infecção, que mostrou que não é passageira.

Dores de cabeça, fadiga, perda de paladar e olfato, queda de cabelo, depressão, ansiedade estão entre as sequelas relatadas por pacientes. Portanto, a batalha vai além da cura.

E a estratégia para vencer essa guerra não é nenhum plano complicado. "Manter uma alimentação saudável, praticar atividades físicas e cuidar da saúde mental nos tornam fortes para enfrentar qualquer situação. É importante, também, procurar atendimento médico quando necessário e, dessa forma, evitar o diagnóstico tardio das doenças", explica o médico neurologista Rodrigo Braga Ferreira, do Hospital Santa Rita, em Vitória.

O colega dele no hospital, o oncologista Loureno Cezana concorda que essa ameaça levou as pessoas a darem mais valor à vida. "A vida de todos se tornou ameaçada. Isso fez com que muita gente passasse a valorizar pequenas coisas, retomar hábitos prazerosos, se atentar para o exercício físico, para a alimentação de qualidade, para a importância do convívio familiar", aponta o especialista.

Segundo o médico neurologista Rodrigo Braga Ferreira, é fundamental manter uma alimentação saudável, praticar atividades físicas e cuidar da saúde mental no dia a dia.
Segundo o médico neurologista Rodrigo Braga Ferreira, é fundamental manter uma alimentação saudável, praticar atividades físicas e cuidar da saúde mental no dia a dia. Crédito: Hospital Santa Rita/Divulgação

Mas não dá para se enganar. "Pessoas saudáveis viram que podem ter uma forma grave da Covid. Além disso, algumas enfermidades vão ocorrer independente dos nossos hábitos. Para reduzir esse risco, é preciso ter medidas como fazer atividade física, se alimentar bem, evitar cigarro e álcool, ter as vacinas em dia e fazer exames de rastreamento para diagnosticar as doenças de forma precoce", destaca Cezana.

É possível sim evitar complicações. "É fundamental conhecer o próprio corpo para poder observar qualquer mudança na rotina, como no hábito de evacuação ou no aspecto ou frequência da urina", exemplifica o médico.

MORTES POR OUTRAS DOENÇAS QUE PODERIAM SER EVITADAS

Se o confinamento durante a pandemia preservou muita gente do coronavírus, também fez outros tantos adoecerem e até morrerem de outros males que poderiam ter sido evitados com uma consulta médica de rotina ou uma ida ao pronto-socorro.

O cardiologista Renato Serpa chama a atenção para esse cenário: "Houve reflexos significativos na mortalidade por doenças cardiovasculares, pois as pessoas com sintomas perigosos, como a dor no peito, que pode ser causada por infarto do miocárdio, deixaram de ir ao serviço de emergência e, portanto, não receberam o tratamento adequado", pontua.

De acordo com o médico, há dados de Nova Iorque (EUA) de aumento de até oito vezes a morte súbita em domicílio no pico da pandemia, em 2020, naquela região, quando comparados com números do ano anterior.

"A procura aos prontos-socorros de pessoas com sintomas cardíacos reduziu em mais de 50%", cita ele.

Após o controle da infecção da Covid, o cardiologista Renato Serpa destaca que é indispensável fazer programa de reabilitação cardiopulmonar, que se torna mais importante quanto mais grave foi o quadro clínico.
Após o controle da infecção da Covid, o cardiologista Renato Serpa destaca que é indispensável fazer programa de reabilitação cardiopulmonar, que se torna mais importante quanto mais grave foi o quadro clínico. Crédito: Hospital Santa Rita/Divulgação

Também ocorreu uma redução das consultas ao cardiologista com consequente redução dos cuidados com as doenças do coração, assim como do uso correto das medicações. "É preciso entender que infarto do miocárdio não faz quarentena e permanece no topo das causas de morte no mundo, apesar do coronavírus", afirma Serpa.

Além disso, aponta ele, com as medidas de distanciamento social houve uma sensível redução da prática de exercício físico, que é um grande remédio que evita e ajuda a tratar doenças.

AUMENTO DA OBESIDADE PREOCUPA

Em seu site, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) cita estudos que apontam que a obesidade oferece 46% mais risco de se contrair Covid-19, 113% mais risco de apresentar internação hospitalar, 74% mais risco de o paciente precisar de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), 66% mais risco de utilizar ventilação mecânica invasiva e 48% mais risco de morte.

"Quem se manteve fisicamente ativo teve chance menor de apresentar quadros graves de Covid, assim como necessidade de hospitalização, ventilação mecânica e morte pela doença. Um estudo demonstrou que indivíduos sedentários que foram internados por Covid tiveram mortalidade quase seis vezes maior que aqueles fisicamente ativos. A doença tem íntima relação com coração. Pode causar inflamação do músculo cardíaco, arritmias, infarto, trombose e insuficiência cardíaca, entre outras manifestações", explica o especialista.

Com as medidas de distanciamento social houve uma sensível redução da prática de exercício físico, que é um grande remédio que evita e ajuda a tratar doenças.
Com as medidas de distanciamento social houve uma sensível redução da prática de exercício físico, que é um grande remédio que evita e ajuda a tratar doenças. Crédito: Freepik

AVC: MORTES SEM BUSCAR AJUDA

O medo da contaminação fez muita gente deixar de buscar um médico especializado e retardar o diagnóstico de outros problemas, como as doenças neurológicas. "Os grandes centros de Acidente Vascular Cerebral (AVC) do Brasil, por exemplo, tiveram uma redução no número de casos devido ao medo da população em procurar o serviço médico", frisa o neurologista Rodrigo Braga Ferreira.

Ele afirma que muita gente pode ter morrido em casa de AVC por não procurar ajuda diante dos primeiros sinais.

"O AVC pode ocorrer por uma redução do suprimento sanguíneo a uma parte do cérebro, que é o AVC isquêmico, ou por rompimento de um vaso cerebral, levando a uma hemorragia, o AVC hemorrágico. Os sintomas ocorrem subitamente. Devemos nos atentar à perda de força em um lado do corpo, alterações na fala, sonolência excessiva, dor de cabeça, perda visual e desequilíbrio."

Sem falar, diz o neurologista, nos danos provocados pela Covid no organismo: "A inflamação provocada pela Covid pode causar alterações nos vasos cerebrais, aumento da coagulação sanguínea e inflamação no tecido cardíaco. Tudo isso favorece o surgimento do AVC."

CÂNCER

Doenças como o câncer também não dão trégua por causa de uma pandemia. De acordo com o oncologista Loureno Cezana, o esvaziamento dos consultórios foi notório no início. "A orientação, no começo, era mesmo postergar a visita a consultas eletivas. Até porque os serviços estavam se organizando para lidar com a nova situação. Mas depois de junho de 2020, tudo ficou mais seguro e funcionando normalmente", ressalta.

Pesquisas de entidades médicas apontam que houve redução de 70% no número de cirurgias de câncer e queda de 50% a 90%, dependendo do serviço, das biópsias enviadas para análise de um médico patologista. Isso fez com que entre 50 mil e 90 mil brasileiros deixassem de receber o diagnóstico de câncer nos dois primeiros meses de pandemia.

 De acordo com o oncologista Loureno Cezana, o esvaziamento dos consultórios foi notório no início da pandemia. No entanto, é importante fazer o acompanhamento necessário, seguindo os protocolos de segurança.
De acordo com o oncologista Loureno Cezana, o esvaziamento dos consultórios foi notório no início da pandemia. No entanto, é importante fazer o acompanhamento necessário, seguindo os protocolos de segurança. Crédito: Hospital Santa Rita/Divulgação

VISITAS AO DENTISTA TAMBÉM FORAM CANCELADAS

Por causa das medidas de isolamento na pandemia muita gente também cancelou as visitas ao dentista. A ortodontista Daniela Feu sentiu o esvaziamento do consultório.

"Principalmente no primeiro período da pandemia, em 2020. Eu mesma fiquei dois meses sem trabalhar. Estávamos todos inseguros, sem saber como agir. Depois de muito estudo e alguns cursos retornei aos atendimentos, inicialmente apenas os urgentes. No segundo semestre voltei à rotina normal", conta.

Aos poucos, os pacientes passaram a se sentir mais seguros. "Eles viram no dia a dia nossas medidas de biossegurança e muitos relatam que se sentem mais seguros no consultório do que em qualquer outro lugar que frequentam. Somos muito criteriosos mesmo! Temos as desmarcações apenas das pessoas que estão com sintomas gripais ou que tiveram contato com alguém que está infectado. Sempre quando vamos confirmar a consulta perguntamos ao paciente se ele tem ou teve algum sintoma ou se esteve com alguém que apresentou sintomas e pedimos para que, em caso positivo, a consulta seja remarcada para 20 dias depois. Assim todos nós ficamos em segurança", relata Daniela.

Com a necessidade do isolamento social, caiu a procura pelos consultórios odontológicos. No entanto, pular a consulta do dentista pode piorar outros problemas bucais.
Com a necessidade do isolamento social, caiu a procura pelos consultórios odontológicos. No entanto, pular a consulta do dentista pode piorar outros problemas bucais. Crédito: Freepik

Ela cita dados de uma consulta feita pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO) com 40 mil dentistas no Brasil que apontou que 82% dos profissionais da área continuaram exercendo as suas atividades ao longo da pandemia. Houve, ainda, um baixo grau de contaminação no setor. "Os dentistas tiveram o menor índice de infectados entre todas as áreas de saúde. Em julho, quando a consulta foi realizada, eles representavam menos de 0,2% dos contaminados no país."

Segundo Daniela Feu, esta não é a primeira vez que uma pandemia muda a Odontologia. "Muitas medidas, como o uso regular de luvas e máscaras, começaram durante a epidemia de HIV/AIDS, na década de 1980. Agora, com as crescentes preocupações sobre a atual pandemia, estamos apenas redobrando os esforços para garantir a aplicação das diretrizes de controle de infecção adequadas. Com as medidas de biossegurança muito rígidas que adotamos, considero muito pequeno o risco de contaminação do consultório."

Sendo assim, pular a consulta do dentista pode piorar outros problemas bucais. "Com as devidas precauções, o risco de transmissão da Covid-19 durante as consultas é mínimo. Postergar cuidados odontológicos de rotina já é, por si só, uma grande preocupação de saúde que pode causar diversos outros problemas. Com as alterações alimentares durante a pandemia, estamos observando uma maior incidência de cáries nos dentes. Quanto antes tratamos a cárie, mais simples, barato e indolor é o tratamento", frisa Daniela.

DEPOIS DO COVID, ACOMPANHAMENTO MÉDICO DE PERTO

Muita gente que se recuperou do coronavírus não viu a saúde voltar a ser como antes. Uma simples caminhada se tornou uma maratona, tamanho o cansaço do corpo. Ler um livro inteiro virou tarefa penosa por causa da falta de concentração. É preciso um acompanhamento médico por um tempo depois para retomar o sabor pela vida, literalmente.

"Após a infecção pela Covid, os pacientes que mantiverem sintomas neurológicos, como dor de cabeça, déficit de concentração ou lentificação de raciocínio, devem procurar atendimento com especialista", destaca o neurologista Rodrigo Braga Ferreira.

O cardiologista Renato Serpa reforça a recomendação. "Algumas vezes, o acometimento cardíaco da Covid é significativo, porém silencioso. Dessa forma, é fundamental a avaliação do cardiologista após a infecção, principalmente antes de retornar à atividade física. Dependendo do caso, exames mais apurados são necessários para diagnosticar o comprometimento do coração."

Após o controle da doença, diz Serpa, é indispensável fazer programa de reabilitação cardiopulmonar, que se torna mais importante quanto mais grave foi o quadro clínico. "Pode-se acelerar a recuperação dos pacientes, melhorando seu bem-estar e qualidade de vida, tratar os sintomas persistentes e sequelares pós-Covid, retornar mais precocemente ao trabalho e reduzir custos assistenciais."

Pacientes relatam que depois da Covid, uma simples caminhada se tornou uma maratona. Acompanhamento médico é necessário para retomar rotina.
Pacientes relatam que depois da Covid, uma simples caminhada se tornou uma maratona. Acompanhamento médico é necessário para retomar rotina. Crédito: Freepik

É importante, por isso, estar sempre vigilante. Além de manter bons hábitos de vida, estar atento ao próprio corpo, como ressalta o oncologista Loureno Cezana.

"As pessoas devem escutar as orientações da rede pública de saúde e agir conforme o momento epidemiológico. É possível manter exames de rastreamento. Para mulheres com mais de 40 anos, o papanicolau e a mamografia. Há duas vacinas que podem prevenir o câncer, como a do HPV e da Hepatite B. Acima dos 50 anos, homens e mulheres devem fazer colonoscopia. E eles devem buscar um urologista depois dos 45.

Se há alguma mudança, um sintoma persistente, vá ao médico. "No caso do câncer, vale ficar atento a sinais como emagrecimento repentino, sangramentos, dor progressiva que não passa, gânglios em crescimento... A pessoa deve buscar o diagnóstico o quanto antes e começar o tratamento", finaliza Cezana.

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