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Theodorico Ferraço acumula derrotas em 2020 e perde influência no Sul do ES

Um dos políticos há mais tempo em atividade no Espírito Santo fica sem eleger aliados na região Sul, onde exerce influência desde 1967. Em Guarapari, na região metropolitana, no entanto, pode comemorar

Vitória
Publicado em 08/12/2020 às 04h30
Atualizado em 08/12/2020 às 04h30
Theodorico Ferraço, deputado estadual pelo DEM
Theodorico Ferraço, deputado estadual pelo DEM, durante sessão da Assembleia Legislativa. Crédito: Lissa de Paula/Ales

Ex-presidente da Assembleia Legislativa, que comandou por sete anos, e ex-prefeito de Cachoeiro de Itapemirim – por quatro mandatos –, o deputado estadual Theodorico Ferraço (DEM) não teve muitos motivos para comemorar nas eleições de 2020. É ele quem dá as cartas no DEM no Estado. O partido elegeu dois prefeitos entre 15 candidaturas ao Executivo lançadas no Espírito Santo: Ana Izabel Malacarne, em São Domingos do Norte; e Euclério Sampaio, vitorioso em Cariacica.

Embora sejam resultados consideráveis, é pouco se comparado com o pleito anterior, quando o DEM fez quatro prefeitos no Espírito Santo. Quando se olha para o passado recente, quando Ferraço foi a principal liderança política do Sul do Estado, a impressão que se tem é que o "ferracismo" começa a dar lugar a novas influências na Bacia do Itapemirim, outrora comandada pelo demista. 

É a segunda vez desde 1982, quando houve a redemocratização das eleições municipais com a volta do pluripartidarismo, que o partido de Ferraço (ele esteve no PDS, no PFL, no PTB e no DEM desde então) não elege nenhum prefeito no Sul do Espírito Santo. Na primeira vez que isso ocorreu, em 2016, o DEM elegeu prefeitos em municípios de outras regiões, como Venda Nova do ImigranteSanta TeresaMontanha e Água Doce do Norte.

A derrota mais dolorida no pleito deste ano foi a de sua esposa, a deputada federal Norma Ayub (DEM), que disputou a Prefeitura de Marataízes. Foi lá que o partido liderado por Ferraço injetou a maior parte de seus recursos, R$ 207 mil, que representa 59% do que a Executiva Estadual tinha a distribuir. Norma teve 23,05% dos votos válidos e ficou em terceiro lugar no pleito.

Na eleição anterior, em 2016, Norma tentou a eleição em Itapemirim, onde havia sido prefeita entre 2009 e 2012, mas também não teve sucesso. No entanto, com a eleição de Max Filho (PSDB) para a Prefeitura de Vila Velha naquele ano, ela assumiu como suplente na Câmara dos Deputados.

A outra aposta de Theodorico em 2020 foi o advogado Diego Libardi (DEM), que disputou a Prefeitura de Cachoeiro. Ele teve 17.299 votos (17,74%), um número expressivo para um novato, mas longe de conseguir a vitória em uma disputa com o atual prefeito da cidade, Victor Coelho (PSB), reeleito com 51.926 votos (53,25%).

"Sinto que você (Diego) tem tudo para ser o Ferraço dos velhos tempos", declarou Theodorico na convenção do DEM de Cachoeiro, ainda em setembro.

Libardi foi o segundo candidato do DEM com a maior transferência de recursos do partido, com uma injeção de R$ 100 mil em sua campanha. Além dele, a sigla pagou pela campanha de quatro candidatos a vereador também em Cachoeiro de Itapemirim. Dos candidatos que receberam recursos do diretório estadual, apenas Alexandre Maitan (DEM) conseguiu se eleger vereador em Cachoeiro.

Libardi é, inclusive, o presidente em exercício do DEM estadual. Norma, eleita para comandar a sigla até abril de 2022, licenciou-se do posto, dando lugar ao aliado, que é vice-presidente da legenda, até o próximo dia 31. 

Outro do clã Ferraço derrotado nas eleições foi o candidato a prefeito de Castelo Jair Ferraço (DEM), primo de Theodorico, que ficou em quinto lugar.

Quanto ao filho de Theodorico, Ricardo Ferraço, desde sua derrota eleitoral em 2018, quando perdeu a reeleição para o senador, o tucano anda sumido do cenário político eleitoral. Atualmente dedicado à iniciativa privada, Ricardo chegou a se movimentar nos bastidores pela pré-candidatura de Luiz Paulo Velloso Lucas (PSDB) à Prefeitura de Vitória, mas o voo do tucano não decolou.

VITÓRIA EM GUARAPARI

Em Guarapari, na Região Metropolitana da Grande Vitória, entretanto, Theodorico Ferraço pode celebrar a vitória de um aliado. O prefeito da cidade, Edson Magalhães (PSDB), foi reeleito com 36,76% dos votos.

Os dois estão lado a lado há tempos. Mesmo após Edson ser preso na Operação Derrama, caso que depois foi arquivado, ele ganhou espaço como chefe de gabinete do deputado na Assembleia. Apesar de não ser mais filiado ao DEM, a proximidade entre Edson Magalhães e Theodorico permanece.

Ferraço é um dos políticos capixabas há mais tempo em atividade
Ferraço é um dos políticos capixabas há mais tempo em atividade. Crédito: CPDOC FGV, Câmara dos Deputados e Arquivo Público do Espírito Santo

"TROCA DE GUARDA"

Aos 83 anos, Theodorico é um dos atores políticos ativos há mais tempo no Estado. Eleito pelo primeira vez em 1967, há 53 anos, deputado estadual pela Arena, Theodorico se alternou entre a Assembleia Legislativa, a Câmara dos Deputados e a Prefeitura de Cachoeiro de Itapemirim, onde se consolidou como principal liderança regional do Sul.

Para o cientista político Antônio Carlos de Medeiros, desde que saiu da presidência da Assembleia, o clã Ferraço – Theodorico Ferraço, Norma Ayub e Ricardo Ferraço – tem perdido força política, assim como seu partido no Espírito Santo. Regionalmente, o Sul, que sempre foi território hegemônico da família, tem sido ocupado por outras lideranças.

O PSB do governador Casagrande foi a sigla que mais elegeu prefeitos no Sul e conta como principal nome regional o prefeito de Cachoeiro, Victor Coelho.

"Vejo um processo de troca de guarda na região, uma transição que há alguns anos vem sendo coordenada por Casagrande em algumas regiões, incluindo o Sul. O Victor ocupou muito bem o espaço deixado pelo irmão dele, Glauber Coelho (deputado estadual pelo PSB morto em 2014 em um acidente de carro). É uma liderança jovem, com futuro promissor", analisa Medeiros.

Antônio Carlos de Medeiros

Cientista político

"No entanto, não dá para dizer que o ferracismo acabou. Theodorico é conhecido como uma ‘águia política’, aquele que enxerga no escuro e antecipa um movimento político que ninguém consegue ver. É assim que ele tem sobrevivido a tantos anos de vida pública"

De fato, Theodorico Ferraço conseguiu estar sempre ao lado de grupos políticos que estão em alta. Para analistas, Ferraço passou por “repaginações” ao longo de sua vida que lhe permitiram se manter atualizado. Eles citam pelo menos três momentos.

Deputado federal pela Arena, Ferraço teve papel de destaque no célebre comício da Candelária, em 1984, pela campanha das Diretas Já, criticando o então presidente da República João Figueiredo. Ele foi o único governista a defender o voto direto para presidente naquela época.

Anos depois, em 2000, já como prefeito de Cachoeiro, Ferraço fez oposição ferrenha ao então governador José Ignácio Ferreira (PSDB), que terminou o governo com desgastado com denúncias de corrupção. Foi Ferraço que denunciou que membros do primeiro escalão do governo mantinham esquema de cobrança de propina para liberar créditos de ICMS para empresas.

Mais recentemente, em 2017, Ferraço rompeu com o então governador Paulo Hartung (na época no PMDB), logo após ter deixado a presidência da Assembleia Legislativa. O parlamentar acusou Hartung de ter interferido no DEM.

"Ferraço tem essa marca de reposicionamento político desde a época da ditadura. Ele é um cacique não só do Sul como do Estado, está na origem das candidaturas de Hartung e do também governador Vitor Buaiz. Ainda que o peso dele esteja menor atualmente, ele ainda é um político de costuras por todo o Estado. Não se pode subestimar seu poder de alianças", afirma o cientista político Fernando Pignaton.

Em 2018, Ferraço foi o sétimo candidato a deputado estadual mais bem votado, com 30.576 votos, ficando em primeiro lugar nas cidades de Cachoeiro de Itapemirim, escolhidos por 17.350 eleitores do município, e Itapemirim, com 2.635 votos.

Deputado estadual Theodorico Ferraço
Deputado estadual Theodorico Ferraço. Crédito: Tati Beling/Ales

“MEU PRESTÍGIO NÃO FOI ABALADO”, DIZ THEODORICO FERRAÇO

Para Ferraço, não há o que reclamar dos resultados da eleição de 2020. Com dois eleitos das 15 candidaturas a prefeito que o partido lançou, ele considera que houve avanço, principalmente em Cachoeiro de Itapemirim, seu principal reduto.

"Foi uma revolução política, entramos com um candidato que aparecia nas pesquisas com menos de 1% e terminou com quase 20% (precisamente 17,74% dos votos válidos). Não há surpresa, o desenho estava feito. Os candidatos teriam que se unir e não se uniram. Do outro lado tinha a máquina pública funcionando. Não é momento para se reclamar. Foi um sucesso", define.

Ferraço pontua a vitória de outros aliados, além de seu partido, como de Lorenzo Pazolini (Republicanos), eleito em Vitória com o DEM na chapa; Enivaldo dos Anjos (PSD), eleito em Barra de São Francisco; Edson Magalhães (PSDB), em Guarapari; e Guerino Balestrassi (PSC), vitorioso em Colatina. Todos ex-colegas dele na Assembleia.

"Minha liderança é fruto de amizades que têm raízes profundas. Esse prestígio não foi abalado. Me sinto fortalecido para continuar participando da política e de projetos importantes para o Estado. Quero estar vivo para ver a renovação que o Estado vai passar, muito em breve o povo do Espírito Santo vai descobrir", diz Ferraço, em tom misterioso.

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