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"Não tenho nada a ver com Bolsonaro, nem com Lula", diz Moro no ES

Em visita ao Estado, o pré-candidato à presidência da República e ex-juiz Sergio Moro tenta se descolar da imagem do atual presidente, de quem foi ministro, e se diz desapontado com o atual governo

Tempo de leitura: 6min
Vitória
Publicado em 11/02/2022 às 19h45
Sérgio Moro
O ex-juiz Sergio Moro fez uma análise do cenário político e econômico do país . Crédito: Carlos Alberto Silva

Ainda na fase de pré-candidatura, o ex-juiz Sergio Moro (Podemos) já começou a circular pelo país para dar visibilidade a seu nome e se credenciar para concorrer à presidência da República. No Espírito Santo nesta sexta-feira (11), Moro refletiu sobre o cenário político e econômico e ressaltou que não se parece com seus oponentes que, hoje, lideram as pesquisas de intenção de voto: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o atual mandatário Jair Bolsonaro (PL), de quem foi ministro da Justiça, mas rompeu a aliança em 2020. 

Na passagem pelo Estado, o pré-candidato visitou a Rede Gazeta, onde concedeu entrevista. Ele demonstrou uma tentativa de se descolar do vínculo que teve com o presidente, uma vez que adversários apontam que ele seria o "Bolsonarismo B".

Sergio Moro

Pré-candidato à presidência da República pelo Podemos 

"Acho isso engraçado porque não tenho nada a ver nem com Bolsonaro, nem com Lula; sou muito diferente"

Moro destacou que rompeu com o governo Bolsonaro há dois anos, quando ficou claro, para ele, que o projeto do presidente era muito diferente do projeto que havia prometido em 2018 durante as eleições, "inclusive de consolidar o combate à corrupção, que iria governar para o país, e não para a família dele."

"Sou muito diferente. Sempre afirmei a importância da democracia e das instituições, sempre entendi que precisamos, sim, ter crescimento econômico e que aquelas reformas não podiam ter sido abandonadas.  Penso diferente do Bolsonaro em vários aspectos. Estou longe, muito longe de ser qualquer versão relacionada ao presidente", sustentou. 

Lembrado que, mesmo antes de assumir a presidência, Bolsonaro já mostrava posicionamentos antidemocráticos e, apesar disso, o ex-juiz aceitou integrar o governo, Moro disse que sua decisão naquele momento era pelo desejo de contribuir para construir um país melhor.

"Não dá para julgar com os olhos de hoje. Muita gente acreditava que ele delegaria aos ministros considerados técnicos, como eu e o Paulo Guedes. Ele foi eleito afirmando que faria reformas para o Brasil voltar a crescer, que também iria combater à corrupção, foi eleito falando que era a favor da Lava Jato. Ele foi mudando, se é que um dia teve esse real compromisso. Então, eu me desapontei." 

POLARIZAÇÃO

Para Moro, a polarização que se estabeleceu no campo político, com Lula e Bolsonaro, é ruim para o país e, por essa razão, ele aceitou o convite para se candidatar. Questionado sobre qual dos dois oponentes seria mais difícil enfrentar, o ex-juiz foi evasivo. 

Sergio Moro

Pré-candidato à presidência da República pelo Podemos

"Não quero falar mal de ninguém aqui, mas, na verdade, os dois são muito parecidos. Eles acabam se retroalimentando porque flertam com esse extremismo. Flertar é até uma palavra bondosa"

Na avaliação de Moro, os adversários são representantes de gestões malsucedidas. Bolsonaro, segundo ele, de um governo que não está dando certo, em que a economia vai mal e está estagnada porque o governo abandonou a pauta de reformas modernizantes do país. Já Lula, também na opinião do ex-magistrado, é representante de um governo que já não deu certo, marcado por escândalos de corrupção e grande recessão. 

"A gente não pode insistir no erro, tem que buscar ideias novas, projetos novos. E é isso que a gente está fazendo percorrendo o país, e agora vindo para o Espírito Santo para conversar com as pessoas, ver o que têm a dizer, conhecer boas experiências", acrescentou. 

OBJETIVOS POLÍTICOS

Moro ganhou destaque no cenário nacional por ter comandado a Operação Lava Jato, de combate à corrupção, e levado muitos acusados para a prisão, inclusive o ex-presidente Lula - embora no ano passado as decisões referentes ao petista tenham sido anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e o ex-magistrado foi considerado parcial. 

Acusado por adversários de usar a Lava Jato com objetivos políticos, ele refutou a ideia. 

"Eu teria que ser um vidente porque em 2014, quando começou a Lava Jato, até 2018, enquanto eu permaneci, simplesmente cumpri meu dever. O Brasil tinha tradição de que nada acontecia a quem roubava. As coisas passaram a mudar, as pessoas passaram a ser jugadas e a pagar pelos seus crimes. Isso é um avanço civilizatório, é construir a ideia de país em que ninguém está acima da lei. Eu fiz isso a duras penas, com riscos para mim e minha família", pontuou. 

Perguntado, então, porque ingressou na política, uma vez que já havia feito declarações de que não entraria nesse universo, Moro justificou-se dizendo que o contexto mudou. 

"As circunstâncias mudaram. Eu acreditava que a gente tinha dado um impulso para o país mudar para melhor, um novo patamar de integridade no trato da coisa pública, mas eu vi que isso infelizmente não aconteceu. Eu confiava no mundo da política para fazer isso. Diante de tudo o que vimos na Lava Jato, era necessário fazer as reformas para que não acontecesse novamente, e eles fizeram exatamente o contrário: vemos hoje a volta do sistema em que ninguém que comete crime é responsabilizado", argumentou Moro. 

REFORMAS

Os projetos para a Presidência ainda estão sendo construídos por uma equipe técnica, mas, segundo Moro, vão contar também com a visão de pessoas com quem tem conversado, e experiências bem-sucedidas que tem conhecido em suas andanças pelo país.  Contudo, há aspectos dos quais o ex-ministro não abre mão: reformas, ajuste fiscal e políticas sociais para enfrentamento da fome e pobreza. 

"Precisamos retomar o crescimento econômico, mas tem que ser inclusivo. É preciso ter uma política de erradicação da pobreza e da fome de maneira urgente, mas também responsabilidade fiscal. Não adianta dar um cheque em branco para o governo gastar e dizer que, com isso, o Brasil vai voltar a crescer. Não vai. Precisamos do que os economistas chamam de âncora fiscal: estabilizar a relação entre dívida pública e o PIB para que não haja descontrole. Se há um descontrole, a inflação acelera, aumentam os juros e o país não cresce", advertiu. 

APOIO

Com o nome lançado há três meses como pré-candidato pelo Podemos, Moro ainda não avançou muito nas pesquisas. Os levantamentos de intenção de voto o colocam oscilando entre 7 e 9%, e bem distante de Bolsonaro e Lula. Ainda assim, o ex-juiz acredita que vai conseguir o apoio necessário ao longo dos meses até as eleições, em outubro. 

Sergio Moro

Pré-candidato à presidência da República pelo Podemos

"Nunca tinha colocado meu nome em pré-campanha e já estamos em terceiro lugar, acima de muita gente que está há 30, 40 anos na política. A gente está tratando desse dado com muita humildade, mas também com confiança crescente; tem muito espaço para crescer"

Informado que Paulo Hartung (sem partido) poderá se filiar ao PSD, partido que considera o nome ex-governador do Espírito Santo uma alternativa de chapa presidencial, e questionado se poderia chamá-lo para uma eventual composição, Moro ponderou que é prematuro fazer esse tipo de declaração porque não tem certeza se, de fato, Hartung vai se colocar na disputa. 

Moro afirmou que tem uma relação respeitosa com o ex-governador e, em sua opinião, todos têm direito a perseguir seus projetos.

Essencial, defendeu o ex-juiz, é que, em algum momento no decorrer do ano, os candidatos que não se colocam nos extremos do espectro político reflitam. "Para se ter união contra esses dois extremos (Lula e Bolsonaro) e evitar dividir esse espectro do centro político. Isso tudo deve vir no momento próprio. Enquanto isso, vamos deixar as pessoas perseguirem seus projetos."

Mesmo com Moro recém-filiado ao Podemos, o mercado político faz conjecturas sobre a possibilidade de troca de partido para disputar as eleições à presidência, mas o ex-juiz não admitiu estar debatendo essa proposta. 

"Estamos construindo alianças políticas e também alianças com a sociedade civil e com o setor privado a partir do Podemos. Eu me filiei e temos excelentes quadros. Mas, claro, nenhum projeto de pré-candidatura presidencial é um projeto relativo a uma pessoa, ou a um partido. Tem que trazer aliados tanto da sociedade civil quanto de outros partidos."

CASAGRANDE

Perguntado se busca apoio do governador Renato Casagrande (PSB), para ter um palanque no Espírito Santo, Moro contou que também tem uma relação respeitosa com o socialista, com quem passou a ter contato na época do ministério para o desenvolvimento de um projeto de enfrentamento à violência em Cariacica. Neste sábado, ambos se encontram, segundo o ex-juiz, para uma conversa cordial. 

"Vamos conversar sobre o Brasil. Quero ouvir a visão dele, e ele certamente vai querer ouvir sobre a minha", finalizou. 

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