As economias de mercado são normalmente orientadas e acionadas mais por expectativas do que pelas forças inerciais que as impulsionam. Essa lógica é válida tanto no sentido positivo, num embalo de trajetória de crescimento, quanto no sentido oposto. Em síntese, são as expectativas que ditam as escolhas no dia a dia e “calibram” o ritmo do crescimento. Assim, não são somente as “dores” do passado a provocar angústias e desassossegos, mas sim as que poderão estar por vir.
Com isso queremos dizer que o “espasmo” de crescimento que a economia brasileira apresentou em 2021 não projeta absolutamente nada de semelhante para 2022 ou mesmo para 2023. Ou seja, a economia de 2022 espelhará expectativas consensuadas na trajetória do tempo, mas já com marcos postados e colados no calendário eleitoral, com previsão de término em outubro. E, ao que nos parece, a perdurar o cenário atual de polarização entre Lula e Bolsonaro, como indicam as pesquisas, vamos estar submetidos a constantes estresses, e em patamares elevados.
Cruzando cenários econômicos e políticos, mais do que nunca imbrincados, e naturalmente num corte temporal do momento e supostamente mutáveis, já é possível percebermos que o tal “mercado” vem gradualmente ajustando-se a um possível desfecho da contenda eleitoral mais na direção de Lula. Obviamente, no momento, em contraponto a Bolsonaro. Mesmo assim, há quem ainda aposte numa possibilidade de terceira via. Porém, não é esse o quadro mostrado no momento.
Isso poderá estar indicando que o “mercado”, diante da armadilha de escolha que lhe é colocada, começa a equilibrar medos e “dores”, lado a lado. Mas percebe-se em crescimento um sentimento de que medos e “dores” já são maiores em relação a Bolsonaro. Trata-se do medo do que Bolsonaro poderá fazer até a eleição, mais até do que depois dela. Sua inconstância e instabilidade permanentes alimentam de forma crescente esse sentimento. Em linguagem de mercado, precificar Lula está se tornando mais fácil do que precificar Bolsonaro.
Tivemos um início de ano até tranquilo. Nada de novo no front político e, consequentemente, nem mesmo nos resultados das pesquisas. A Bolsa de Valores, o principal termômetro do mercado, avançou 6,5%; dólar em queda; inflação ainda alta, bem fora da curva desejada; reservatórios das hidrelétricas em alta, gerando alívio temporário; Covid em alta.
Porém, nada que aponte ou mesmo confirme que teremos um ano minimamente confortável. Ao contrário, o consenso é de um ano difícil e ao mesmo tempo decisivo. A taxa de crescimento do PIB provavelmente não passará de 0,5%. Medos e “dores” é que ditarão o ritmo. Isso até o pais conseguir sair da armadilha política da repetição do passado.