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MPES pede afastamento de 4 vereadores da Serra por suspeita de corrupção

MPES pede afastamento de 4 vereadores da Serra por suspeita de corrupção

De acordo com o órgão, Saulinho da Academia (PDT), Cleber Lima Pereira (MDB), Wellington Alemão (Rede) e Teilton Valim (PDT) teriam negociado vantagens indevidas para aprovar projeto

Publicado em 14 de agosto de 2025 às 16:51

Saulinho da Academia (PDT), Cleber Lima Pereira (MDB); Wellington Alemão (Rede) e Teilton Valim (PDT), vereadores da Serra denunciados pelo MPES por suposto esquema de corrupção
Saulinho da Academia (PDT), Cleber Lima Pereira (MDB); Wellington Alemão (Rede) e Teilton Valim (PDT), vereadores da Serra denunciados pelo MPES por suposto esquema de corrupção Crédito: CMS/ Divulgação
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MPES pede afastamento de 4 vereadores da Serra por suspeita de corrupção

O Ministério Público do Espírito Santo (MPES) denunciou quatro vereadores da Serra e solicitou à Justiça, na quarta-feira (13), o afastamento imediato do cargo por suspeita de corrupção. A denúncia do órgão ainda inclui dois ex-vereadores como suspostos integrantes de um esquema de propina, que chegaria a R$ 100 mil para os envolvidos, para aprovação de um projeto de lei encaminhado pela prefeitura em 2024.

Os indícios de crime são descritos pelo MP com base em um áudio de uma reunião entre os denunciados, em que eles teriam negociado vantagens indevidas (ouça abaixo): 

Os vereadores em exercício citados no requerimento são Saulinho da Academia (PDT), presidente da Câmara; Cleber Lima Pereira (MDB); Wellington Alemão (Rede); e Teilton Valim (PDT). Com exceção de Teilton, todos integram a Mesa Diretora da Casa. Os outros nomes citados na denúncia são dos ex-vereadores Luiz Carlos Moreira, presidente do MDB na Serra, e Aloísio Ferreira Santana,  que intermediariam interesses de um empresário para construção de uma clínica. A denúncia não cita o empresário envolvido no suposto esquema. 

O pedido de afastamento leva em conta indícios de corrupção passiva — crime que se caracteriza quando um agente público solicita, recebe ou aceita promessa de vantagem indevida em razão do cargo. Segundo a denúncia apresentada à Justiça, anexada ao requerimento, os parlamentares teriam solicitado e aceitado promessa de vantagem indevida no primeiro semestre de 2024. Já Moreira e Santana seriam os responsáveis pela promessa de pagamento.  

Para o MPES, o afastamento dos vereadores é necessário porque as condutas investigadas guardam relação direta com o exercício dos mandatos. Dessa forma, o pedido tem objetivo de prevenir que os parlamentares continuem a cometer irregularidades ou atrapalhem as investigações. 

Procurados por A Gazeta na tarde desta quinta-feira (14), Saulinho, Wellington Alemão, Clebinho e Teilton disseram que ainda não foram oficialmente notificados sobre o pedido. Moreira, que além de ex-vereador da Serra também é ex-deputado estadual, afirmou não ter sido informado sobre a denúncia. A reportagem tenta contato com Aloísio Santana. 

Ex-parlamentar é suspeito de participar de esquema de propina
Ex-vereador Aloísio Santana é denunciado em investigação do MPES Crédito: Reprodução

Entenda a denúncia

O caso gira em torno do Projeto de Lei nº 69/2024, enviado pelo então prefeito da Serra, Sérgio Vidigal (PDT), à Câmara, com o objetivo regularizar imóveis urbanos de propriedade do município. O foco do projeto era que pessoas com domínio últil de imóveis da prefeitura pudessem legalizar a posse. Embora não esteja implicado de nenhuma forma na denúncia, Vidigal também foi procurado por A Gazeta para se manifestar, mas não houve retorno até a publicação desta matéria.

Antes de ser aprovado, no entanto, o projeto recebeu duas emendas, inseridas por um dos parlamentares, que ampliavam a lista de imóveis que poderiam ser regularizados. 

Luiz Carlos Moreira é citado pelo MPES como um dos principais interessados no andamento da proposta, que chegou a ser conhecida como “Projeto do Moreira”. 

Ministério Público denunciou e pediu afastamento de vereadores
Ex-vereador Luiz Carlos Moreira é citado em de Crédito: Reprodução

O projeto começou a tramitar na Câmara em 7 de março de 2024. Em 27 de maio, o plenário aprovou, por 18 votos a 4, um pedido da prefeitura para que a matéria tramitasse em regime de urgência. Essa votação durou um minuto. No mesmo dia, o texto foi aprovado por 19 votos a 3, com uma abstenção, em votação que durou quatro minutos.

Já em 20 de junho de 2024, o próprio prefeito Vidigal enviou mensagem de veto ao projeto, alegando que as emendas anexadas ao texto estavam em desacordo com princípios constitucionais, como a separação de Poderes e a obrigatoriedade de licitação. Entre elas, estava uma emenda atribuída a Wellington Alemão, que, segundo o MPES, estaria ligada à suposta tentativa dos denunciados de obter vantagens indevidas.

Negociação foi gravada

Ainda conforme o MPES, a apresentação das emendas por Alemão, no mesmo dia da votação, teria despertado suspeitas dos outros vereadores. Em uma reunião horas antes da votação, gravada e usada como prova, os vereadores Saulinho e Cleber questionaram o colega sobre a alteração.

Nos áudios, segundo a denúncia, o grupo discute se deveria votar ou não o projeto e a emenda, manifestando insatisfação com a “vantagem ilícita oferecida”. Em um dos trechos, transcrito fielmente como fala o interlocutor, a voz atribuída a Cleber diz:

"Você chegou com uma 'emendazinha' aí e a gente tá sabendo o seguinte, e esse mesmo cara que você conversou, que iria dar uma situação para a galera aí, o cara recuou e você meteu uma emenda. Aí a gente quer saber o que que tem nessa emenda aí pros vereador votar não ter problema, mas é o miguelai (sic) cair pra todo mundo."

Cleber da Serrinha, de acordo com denúncia do MPES

Vereador

Para o MPES, a fala indica que Alemão teria negociado o recebimento de vantagem para ele mesmo ou para o grupo, e que havia interesse em que essa propina fosse dividida preferencialmente em dinheiro.

Ainda conforme a denúncia, Alemão, considerado o “porta-voz” do empresário Aloísio Santana, que oferecia o pagamento, explicou que a proposta inicial era de R$ 100 mil, mas que havia sido substituída por um terreno de 6.000 metros quadrados na Praia de Carapebus, também na Serra. Essa mudança teria desagradado os demais vereadores. Apesar disso, a emenda foi aprovada. 

Indícios de negociação em outros projetos

O Ministério Público do Estado do Espírito Santo afirma que o áudio, analisado pela Polícia Civil, além de registrar formas de recebimento da suposta vantagem ilícit na aprovação do projeto sobre regularização fundiária, também traz indícios de irregularidade na aprovação de outras matérias pela Câmara da Serra. 

"O conteúdo também aponta, segundo a apuração, tratativas semelhantes em outros projetos relevantes, como o Plano Diretor Municipal (PDM) e o Projeto de Lei nº 620/2025, sugerindo risco concreto de novas práticas criminosas", afirma o MPES.

O Projeto de Lei nº 620/2025, citado na nota do MPES, refere-se à "instituição de instrumentos de aplicação de política de desenvolvimento urbano no âmbito do Município da Serra". De autoria do atual prefeito, Weverson Meireles (PDT), a matéria foi enviada à Câmara em 15 de abril deste ano. A última tramitação ocorreu em 29 de maio, em que é sinalizado que o texto aguarda parecer da procuradoria da Casa.

A Prefeitura da Serra foi procurada, via assessoria de imprensa, para mais informações sobre a denúncia do MPES. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. 

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