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Saída de Teich

Médicos do ES criticam instabilidade no país: 'Indo para o fundo do poço'

Saída de ministro da Saúde traz instabilidade no comando da crise e gera insegurança para profissionais. Militarização da pasta também preocupa especialistas

Publicado em 15 de Maio de 2020 às 19:08

Redação de A Gazeta

Publicado em 

15 mai 2020 às 19:08
Nelson Teich durante apresentação pelo presidente Jair Bolsonaro como novo ministro da saúde em 16/04/2020
Nelson Teich durante apresentação pelo presidente Jair Bolsonaro: ele ficou menos de um mês no cargo Crédito: Marcello Casal/Agencia Brasil
nova saída de um ministro da Saúde durante a pandemia do novo coronavírus trouxe insegurança para a comunidade médica. É o que afirmam profissionais da área capixabas que estão lidando diariamente com as consequências da Covid-19. Para especialistas da Saúde, o pedido de demissão de Nelson Teich, nesta sexta-feira (15), é mais um sinal de que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não está ouvindo os pesquisadores para lidar com o vírus.
Um dos maiores embates com o ex-ministro era sobre a liberação do uso indiscriminado da cloroquina em pacientes com Covid-19, defendida por Bolsonaro. O medicamento já era usado por alguns médicos, mas o uso é avaliado caso a caso, em uma decisão tomada em conjunto pelo profissional e o paciente. Teich era contra a dosagem em quem sentia os primeiros sintomas da doença.
Para o infectologista Lauro Ferreira Pinto Neto, o uso, indiscriminado ou não da cloroquina, não vai tornar possível o retorno das pessoas aos seus trabalhos e ao convívio social.
"Há uma falsa questão sobre o uso da cloroquina. Os médicos podem continuar usando ao seu critério, explicando os riscos aos pacientes. Agora, ela não vai deter a pandemia, como não está detendo em nenhuma parte do mundo. Uso de cloroquina sem o isolamento social, com as pessoas interagindo, é preocupante. A troca de ministro é uma pena, pois precisamos do esforço de todos e não de disputa política. Essa situação leva o Brasil para o fundo do poço", afirma.
A infectologista Rúbia Miossi destaca que a comunidade médica está dividida quanto ao uso do medicamento. No entanto, a descontinuidade da gestão da Saúde em meio à crise e a dificuldade para o presidente em ouvir pesquisadores traz insegurança para os profissionais.
"Enquanto o presidente se relacionar com seus ministros como se eles fossem meros executores de sua vontade, sem levar em conta referências técnicas, veremos saídas de um após os outros e substituições que geram ainda mais insegurança. Seria hora do presidente ter pessoas que o aconselhem numa direção conciliatória e não na direção do 'falo o que der no pensamento na hora da raiva'", pontua.

MILITARES NO MINISTÉRIO

Professora de Direito, pós-doutora em Saúde Coletiva e doutora em Bioética, Elda Bussinger afirma que a passagem de Teich pelo ministério foi “insignificante”, já que, na prática, a pasta esteve desde a saída de seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta, sob o comando dos militares. Desde que assumiu, ele teve como seu secretário-executivo o general Eduardo Pazuello, que irá comandar interinamente o ministério e é cotado para ser efetivado no cargo.
"Ele foi um fantoche, cumpriu um papel simbólico. No entanto, ele sabe que não tinha como sustentar dentro da comunidade médica o posicionamento do presidente em relação à cloroquina e ao isolamento vertical. Ele sabia dos riscos. O que me preocupa é a militarização do ministério, principalmente porque eles vão seguir rigorosamente o que o presidente mandar. Os epidemiologistas, os especialistas em saúde coletiva, em crises pandêmicas, foram todos afastados. Estamos em uma crise política e sanitária sem precedente, indo em direção ao caos, perdendo uma parcela significativa da população", alerta.

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