Apesar dos discursos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na contramão do que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras autoridades recomendam durante a pandemia de Covid-19, entidades de representação de médicos no Espírito Santo avaliam que o presidente da República, embora "cometa alguns erros em suas falas", não faz uma gestão ruim no combate ao novo coronavírus. Para eles, há certo exagero nas críticas ao chefe do Executivo.
Ainda de acordo com representantes dos médicos, o sentimento das entidades corresponde ao da maioria de seus associados, mas os próprios líderes desses grupos admitem certa divisão e polarização em discussões da categoria no WhatsApp, por exemplo. Nos ambientes acadêmicos, porém, professores afirmam que em instituições de ensino no Estado o consenso é que o presidente poderia, sim, ter adotado ações mais efetivas no combate à pandemia.
O presidente do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES), Celso Murad, é um dos que avaliam que o governo federal tem agido da maneira correta. Segundo ele, há polarização política na condução do tema e "excesso de protagonistas de outras áreas tratando sobre saúde", quando criticam o presidente. Murad afirma que a ruptura entre governadores e Bolsonaro divide armas para o combate à pandemia.
"De fato, o presidente exagerou em algumas manifestações, mas não acho correto individualizar responsabilidade. O que o Brasil está sofrendo não foge da média de mortes que os outros países também estão sofrendo. Eu acredito que o Supremo Tribunal Federal (STF) errou ao permitir que Estados tivessem autonomia para adotar restrições. Acredito que estaríamos em um quadro melhor se a responsabilidade tivesse se concentrado no Ministério da Saúde, que tem quadros técnicos com mais experiência do que muitas secretarias", opina.
No entanto, a média de mortes no país é superior a de outros países com população maior do que a do Brasil. Na última semana, o país chegou a liderar o ranking de mortes diárias, na quarta-feira (10), quando morreram 2.286 vítimas da Covid-19, de acordo com os dados da plataforma Worldometers, que compila informações de 219 países. Desde então, o país oscila entre o 1º e o 3º lugar no ranking do número de mortes diárias. Importante observar, ainda, que o Ministério da Saúde teve três titulares ao longo da pandemia. O atual, Eduado Pazuello, é um general do Exército sem experiência na área.
O STF determinou que Estados podem adotar medidas para conter o novo coronavírus, mas não impediu que o governo federal agisse.
O presidente do Sindicato dos Médicos do Espírito Santo (Simes), Otto Baptista, também considera que o governo federal está cumprindo seu papel e, apesar de Bolsonaro adotar discursos negacionistas, isso não é suficiente para influenciar no aumento do número de casos. Para ele, a maioria da população tem cumprido o isolamento social e utilizado máscaras.
"O que tem influenciado é o número alto de pessoas nos ônibus, se aglomerando, muitas delas sem utilizar a máscara. Isso não é papel do presidente fiscalizar. Isso é papel dos governadores, que podem organizar horários diferentes de entrada no trabalho pelas empresas e aumentar o número de ônibus. No meu condomínio, por exemplo, todo mundo utiliza máscara. Você se sente constrangido em não usar. Essas distorções comportamentais são mais recorrentes nas periferias, nos guetos, onde os bailes funks correm solto e ninguém faz nada", afirma.
O presidente da Associação Médica do Espírito Santo (Ames), Leonardo Lessa, aponta que o presidente dá alguns maus exemplos, mas lembra que opositores políticos de Bolsonaro, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), também fazem aparições sem usar máscara. Lula tirou a máscara para discursar na primeira entrevista coletiva após ter condenações anuladas, mas manteve distanciamento e utilizou a proteção facial nos demais momentos do evento. O petista aproveitou para criticar o governo federal e pedir para que a população não siga "decisão imbecil" do presidente da República e tome vacina.
"A saúde está contaminada com a disputa política, todo mundo se acha especialista, mas não podemos polarizar entre um lado ou outro. Pela associação, a gente busca o consenso, defendo a liberdade de receituários para os médicos, mas não podemos permitir a automedicação. Eu não acredito que médicos receitem ou deixam de receitar cloroquina ou qualquer outra coisa por motivos ideológicos", afirma.
REJEITADA PELA ANVISA, CLOROQUINA NÃO É DESCARTADA POR ENTIDADES DO ES
Em um dos pontos mais discutidos ao longo da crise, a eficácia ou não do "tratamento precoce" e de medicamentos como a cloroquina e a ivermectina, os representantes das três entidades capixabas defendem que o médico que decidir receitar a cloroquina deve ter sua decisão respeitada.
Eles seguem a orientação do Conselho Federal de Medicina (CFM), que não condena a prescrição do medicamento e defende a liberdade para o médico receitar a substância que achar mais adequada. Apesar de a própria instituição reconhecer que "não existem evidências robustas de alta qualidade que possibilitem a indicação de uma terapia farmacológica específica para a Covid-19".
Especialistas em infectologia e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reafirmaram que não existe tratamento precoce. O próprio presidente Jair Bolsonaro, após fazer propaganda do remédio sem eficácia, admitiu, em fevereiro de 2021, que o medicamento "pode ser um placebo".
Além dos efeitos colaterais como diarreia, náusea, dor abdominal, alterações cardiovasculares e neurológicas, o uso também pode causar uma falsa impressão de proteção e fazer com que as pessoas relaxem ao sair de casa, deixando de usar máscara e se aglomerando.
"Eu até entendo o médico que prescreve a cloroquina por pressão do paciente, achando que o remédio, por ter efeitos colaterais considerados de pequeno risco, pode não fazer mal. Só que faz. Temos assistido todos os dias a pessoas que tomam o remédio e vão para a rua sem máscara, que fazem festas e depois, infelizmente, adoecem", aponta o infectologista Lauro Ferreira Pinto Neto.
NO CÍRCULO ACADÊMICO, VISÃO DA ATUAÇÃO DO GOVERNO É OUTRA
A reportagem também procurou saber como professores dos cursos de Medicina oferecidos no Espírito Santo avaliam a gestão de Bolsonaro no combate à pandemia. Com receio de represálias e perseguições nas empresas em que atuam, eles preferiram não se identificar. Um deles conta que há quem defenda o presidente de maneira veemente nas cátedras das universidades, mas é uma minoria que está cada vez mais isolada.
"Evidentemente, a categoria médica aqui no Estado dá um apoio muito forte ao presidente. No início da pandemia, nos cursos, muitos deles defendiam Bolsonaro, ainda mantendo a postura que tiveram desde 2018. Houve muita discussão sobre o kit Covid (cloroquina, ivermectina e azitromicina), mas, com as evidências científicas, a defesa foi reduzindo bastante. São pessoas que ficaram isoladas", aponta um responsável pelo curso de Medicina em uma instituição de ensino capixaba.
Segundo o professor, nos grupos de médicos no WhatsApp, sempre há quem compartilhe artigos científicos indicando alguma eficácia da cloroquina, mas de instituições pouco reconhecidas e em métodos pouco convencionais. Entre os defensores mais radicais do medicamento, quando uma falha técnica é apontada, a discussão logo corre para a área política e quem critica é tachado de “esquerdopata”, “comunista”, entre outros termos, de forma pejorativa.
"É interessante porque eu não vejo, no geral, esse tema repercutindo entre os meus alunos. Quem provoca essas discussões, geralmente, são profissionais de especialidades que não têm nada a ver com a Covid, muitas vezes cirurgiões ou anestesistas, que têm seu objeto de pesquisa focado em outras áreas. Não tenho dúvidas que o posicionamento político tornou essa discussão, que é comum, mais agressiva e menos racional", alerta.
MÉDICO QUE HOMENAGEOU BOLSONARO EM OUTDOOR NÃO SE ARREPENDE
Em setembro do ano passado, um outdoor, instalado próximo à Terceira Ponte, em Vila Velha, chamou a atenção. Em nome de alguns alunos da turma de Medicina de 1978 da Ufes, o cartaz trazia uma mensagem de apoio a Bolsonaro. Na época, houve até alguns integrantes da turma que se manifestaram, gerando um incômodo entre os colegas.
Seis meses depois, um dos organizadores da ação, o médico Hélio Moraes reconhece que há erros cometidos pelo presidente e que ele poderia ter feito diferente na condução do combate à Covid, mas ressalta que não se arrepende de ter votado em Bolsonaro em 2018.
"Tem acertos e tem erros, mas acredito que os governadores estão errando muito mais, ao permitir ônibus lotados, aglomerações e festas acontecendo nas cidades. Isso não é culpa do presidente. Acho que Bolsonaro falhou ao deixar de usar máscara nos eventos. Fez mal ao titubear na hora de reservar a compra das vacinas. Poderíamos estar em um cenário melhor, sim. Mas, ainda assim, acho que ele tem reconhecido isso e está se empenhando na compra da vacina. Todos que assinaram o cartaz continuam apoiando", destaca.
Para Otto Baptista, do Simes, os médicos capixabas, em geral, são "extremamente politizados" e, tradicionalmente, costumam se posicionar quando são chamados a se manifestar.
"Quando milhares de pessoas atravessaram a Terceira Ponte em direção à Praça do Papa (em referência aos protestos pró-Lava Jato e a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff), tinha muitos médicos ali se manifestando. Não é questão de ir para um lado ou para outro, é questão de se se posicionar, querer o melhor para a sociedade. É uma herança profissional", conta.
Para o cientista político João Gualberto Vasconcellos, o apoio a Bolsonaro por parte de um número significativo de médicos é fruto de um sentimento antipetista, dos governos Lula e Dilma, quando foi adotado o programa Mais Médicos, em que profissionais cubanos foram recebidos no Brasil para trabalhar em comunidades afastadas.
A medida foi criticada pela categoria e houve ações em que os cubanos chegaram a ser recebidos com vaias em aeroportos. O programa foi criticado durante a campanha eleitoral, pelo então candidato Jair Bolsonaro. Após a vitória dele nas eleições, Cuba optou por encerrar a parceria.
"Foi um programa que teve uma forte rejeição entre os médicos brasileiros. Havia quem dizia absurdos, sugerindo que os médicos cubanos eram guerrilheiros que estavam vindo para o Brasil para entrar em conflitos. Houve muitas falhas nos programas, principalmente em relação à remuneração dos estrangeiros e a divisão do salário com o governo cubano, mas, por outro lado, também ajudou muito os municípios e comunidades mais pobres. Esse antipetismo por conta do programa organizou a classe médica e acabou se traduzindo no apoio a Bolsonaro", analisa.