Cada vez mais pressionado pelo avanço da Covid-19 no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) apareceu, nesta quarta-feira (10), em uma cena rara, usando máscara durante um evento no Palácio do Planalto. A mudança de postura aconteceu horas após o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticar as medidas adotadas pelo governo na pandemia de Covid-19, e defender o uso da proteção facial.
Desde os primeiros casos de contaminação, Bolsonaro tem minimizado o novo coronavírus, ignorando recomendações das autoridades de saúde, entre as quais o uso da máscara. A proteção facial é uma das principais formas de conter a disseminação da doença, mas se tornou um objeto de disputa política no Brasil.
Um exemplo disso é que, na última semana, uma comitiva do governo brasileiro saiu com destino a Israel. Em uma foto postada nas redes sociais, ninguém usava máscara em solo brasileiro. Contudo, ao chegar ao destino, a equipe mudou a postura e todos usavam a proteção. O filho 03 do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) foi questionado pela atitude. Em resposta, mandou as pessoas enfiarem o equipamento de proteção “no rabo”.
Na avaliação de cientistas políticos, a máscara ganhou um grande caráter ideológico. Ao negar o uso dela, as pessoas negam também a gravidade da pandemia, reforçando o discurso negacionista propagado por Bolsonaro.
IMPORTÂNCIA DO USO DE MÁSCARAS
Desde junho do ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o uso de máscaras para todas as pessoas que precisam sair de casa. Mas, com frequência e sem qualquer embasamento científico, o presidente da República levanta questionamentos sobre a efetividade do equipamento. O uso, no entanto, não é uma questão de opinião.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Infectologia, a máscara "é uma barreira mecânica e é uma reconhecida forma de prevenção contra o novo coronavírus". O próprio Ministério da Saúde reconhece que cobrir o nariz e a boca adequadamente com tecido é uma das ações mais importantes para reduzir a chance de contaminação.
Isso porque as máscaras formam uma espécie de barreira, dificultando a passagem de partículas que podem estar contaminadas. “A principal função da máscara é reduzir a chance de contágio, protegendo as mucosas da entrada do vírus", afirmou a epidemiologista Ethel Maciel em entrevista recente para A Gazeta.
Muitas pessoas, contudo, têm deixado de usar a máscara, ou usado de forma errada, como foi o caso de Eduardo Bolsonaro durante visita a Israel, onde ele foi obrigado a utilizar a proteção. O deputado apareceu em uma foto com o nariz para fora da máscara, o que é errado.
Casos assim, além do descumprimento de regras de isolamento social, fazem com que o número de casos continue aumentando e a população tenha a falsa sensação de que as medidas não funcionam, o que não é verdade. "O uso correto e disciplinado de máscaras poderia fazer despencar contágio", destaca o infectologista Lauro Ferreira Pinto, em artigo publicado em A Gazeta.
POR QUE A MÁSCARA FOI LEVADA A UM DEBATE IDEOLÓGICO?
A resistência na utilização da máscara ou o uso incorreto dela é visto pelo cientista político Marcelo Issa como parte de uma narrativa que despreza um conjunto de medidas, como o isolamento social, que refletem a gravidade da Covid-19. Para ele, por mais que usar a máscara seja um ato tão simples, não é possível separá-la do negacionismo da pandemia como um todo.
"A máscara se tornou um símbolo ideológico muito forte. Ao usá-la, você assume que a pandemia é grave e que ela existe, o que vai contra o discurso negacionista feito pelo presidente Jair Bolsonaro", avalia.
Issa vê uma influência do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump no comportamento de Bolsonaro. Trump, por muito tempo, também negou a pandemia e era resistente ao uso de máscaras, ainda que as autoridades de saúde recomendassem o uso.
"Vimos Bolsonaro agir muito a reboque do comportamento de Trump. Lá também houve a mesma postura por parte de um chefe de governo, e isso se conecta com uma parcela significativa de seguidores que os dois presidentes têm, que é formada por grupos afeitos a teorias da conspiração, cada vez mais propagadas na sociedade", comenta.
TEORIAS CONSPIRATÓRIAS E SENSO DE PERTENCIMENTO
O cientista político e professor do Insper Leandro Consentino também acredita que boa parte dos apoiadores de Bolsonaro que se recusa a usar máscara, acredita em teorias conspiratórias. Ele aponta ainda um senso de pertencimento a um grupo, que nega todas as medidas que vêm da ciência.
"Muitos desses seguidores de Bolsonaro estão imersos em redes sociais. Alguns acreditam que a mídia, as autoridades de saúde ou indivíduos que detêm poder na sociedade estão contando a história que querem, como se estivessem manipulando a gravidade da pandemia por interesses próprios e ocultos. É quase como se eles vivessem em um universo paralelo", declarou.
"Ao não usar máscara, Bolsonaro alimenta esse discurso e faz um aceno aos seus seguidores", completa.
MÁSCARAS DE ACRÍLICO
Há ainda um movimento daqueles que usam máscaras que não são recomendadas pelas autoridades de saúde, como as que são feitas de acrílico. São as conhecidas "máscaras transparentes". Durante a campanha eleitoral, muitos candidatos abusaram do uso deste modelo de equipamento, que não garante proteção, segundo infectologistas e epidemiologistas. "Não é nada confiável", adverte Ethel Maciel.
O prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), é um dos que ainda faz uso frequente das máscaras de acrílico. Para o cientista político Leandro Consentino, utilizar uma máscara de forma inadequada "passa uma ideia de desprezo pela gravidade da pandemia", principalmente em se tratando de um político.
"Por mais que não seja essa a intenção, passa uma ideia de que você não acredita que o vírus é tão forte assim, que não é importante se proteger."