A máscara transparente utilizada pelo prefeito de Vitória,
Lorenzo Pazolini (Republicanos), não tem nenhuma certificação de órgão oficial, admite a fabricante do equipamento, a Uni Máscaras. Portanto, o produto não garante a eficácia no combate ao novo coronavírus e às suas variantes mais agressivas.
“O nosso produto visa a proteção e inclusão e foi criado com isso em mente, mas não temos nenhuma certificação oficial”, afirma a empresa, em nota enviada à coluna. A Uni Máscaras admite também que consultou órgãos oficiais, como a
Anvisa, mas não obteve da agência de saúde uma resposta positiva. E até laboratórios particulares consultados pela fabricante não endossaram a máscara transparente.
“Contatamos a Anvisa para homologação da máscara, mas eles não têm diretrizes para máscaras transparentes e, portanto, não fornecem homologação e nem posicionamento quanto ao produto. Buscamos também a avaliação de laboratórios particulares, que nos deram a mesma resposta”, diz a Uni Máscaras.
A empresa afirma que consultou infectologistas, mas não obteve uma resposta oficial dos especialistas. “Conversamos com médicos infectologistas que, inclusive, usam a máscara, mas eles também não se posicionam oficialmente devido à sensibilidade e à incerteza do assunto hoje no mundo inteiro.”
Esses profissionais, cujos nomes não foram revelados, a fabricante diz que eles asseguraram apenas a eficácia da máscara para evitar que o usuário não propague partículas externas. “Não oficialmente, eles consideraram a máscara adequada para o seu fim que é evitar a propagação de partículas por parte do usuário para a parte externa da máscara. Inclusive a aba extra inferior foi observada como sendo eficiente contra a contaminação de superfícies”, destaca a nota.
A Uni Máscaras diz que “acredita” que sua máscara transparente é mais útil que as de panos, as mais comuns em uso pela população. “Acreditamos que a barreira física da máscara é mais eficaz do que a de pano/tecido por ser feita de um material 100% sólido e por ter fácil higienização. Sabemos que a máscara de pano diminui significativamente a sua eficácia após 3 horas de uso (por ficar umedecida) e que a sua higienização correta antes de reutilização inclui deixar a máscara de molho por 20 a 30 minutos em desinfetante.”
A coluna consultou a doutora em Epidemiologia
Ethel Maciel, uma das maiores autoridades do país na área. A professora, pesquisadora e cientista capixaba é enfática: a máscara usada pelo prefeito de Vitória e por outros políticos não previne a contaminação pela Covid.
“Não é nada confiável. Não protege nem ele e nem as pessoas à volta dele. Com as novas variantes a indicação é que passemos a usar máscaras mais filtrantes, do tipo PFF-2 ou N95. Como segunda opção, a cirúrgica”, alerta a especialista e colunista de A Gazeta.
Ethel até elogia a intenção de oferecer acessibilidade (o movimento dos lábios e a expressão facial do usuário ficam visíveis para todos), mas ela reitera que a máscara transparente não protege da contaminação pela Covid. “A máscara precisa ser ajustada. Uma máscara que tem ponto de entrada e saída de ar não serve para proteção contra agentes infecciosos. A ideia de acessibilidade é boa, mas infelizmente, não funciona para proteção do vírus.”
Para ela, os homens públicos, principalmente, devem dar o exemplo à população, ainda mais com as novas cepas do coronavírus surgindo. “Eu já usei uma máscara um pouco diferente dessa com mais ajuste e que visava a acessibilidade de pessoas surdas. Nesse momento, com as evidências que temos sobre as máscaras e principalmente com a emergências das novas variantes mais transmissíveis, as autoridades devem dar o exemplo”, recomenda a epidemiologista.
Aliás, Ethel pondera que nessa fase da pandemia, de altíssima contaminação, as máscaras que devem ser usadas são outras: “É preciso seguir a ciência e usar máscaras mais filtrantes, preferencialmente do tipo PFF-2. A Ciência evoluiu, já sabemos muito mais do que sabíamos no ano passado, e outros países estão distribuindo máscaras PFF-2 para sua população. Eu estou advogando para essas máscaras serem distribuídas no SUS. Enquanto não temos vacinas, isso salva vidas”, afirma.
O prefeito da Capital disse que tem duas máscaras, que são limpas em intervalos regulares com álcool. No site do fabricante, cada unidade custa R$ 62, fora o frete.
Pelo que se vê, talvez Lorenzo Pazolini, com o agravamento da pandemia, terá que mudar seu hábito e passar a utilizar máscaras mais eficazes contra a Covid. Para proteção deles e de todos à sua volta.