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Da campanha ao governo: a postura de Bolsonaro sobre corrupção e economia

Temas defendidos como bandeiras na campanha, como o combate à corrupção e equilíbrio fiscal, têm encontrado outra realidade nas práticas do governo, mesmo que custem o enfraquecimento dos principais ministros

Publicado em 17/08/2020 às 12h41
Atualizado em 17/08/2020 às 13h36
Paulo Guedes e Jair Bolsonaro
Paulo Guedes e Jair Bolsonaro durante reunião do governo. Crédito: Marcos Corrêa/Fotos Públicas

Duas agendas essenciais para a eleição do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a pauta anticorrupção e as reformas na Economia – com o viés do liberalismo – têm percorrido um trajeto de perda de prioridade desde o início da gestão e, ao serem postas à prova, têm evidenciado que, na verdade, eram mais estratégias de campanha do que propriamente projetos, de acordo com especialistas consultados por A Gazeta

Chegando quase à metade do governo, Bolsonaro tem mostrado que sua postura quanto a esses temas, na prática, é diferente dos discursos feitos nos palanques e, principalmente, nas declarações polêmicas de campanha. Conforme o histórico do presidente, a postura de "idas e vindas" e de encampar bandeiras sem resultados práticos, não chega a ser uma novidade e sim uma conduta comum para que atingisse determinados objetivos, como o de se eleger e, agora, o de se reeleger. 

Demorou 16 meses para o governo Bolsonaro perder o ministro Sergio Moro (Justiça), um dos nomes que o ajudou a construir credibilidade com o eleitorado. A pauta anticorrupção contraria o desejo do presidente de proteger seus filhos de investigações da Polícia Federal. Por meses, o ex-juiz tornou-se alvo das demonstrações de poder do presidente, diante de sua insistência em implementar a agenda que o levou ao governo.

Agora, situação semelhante ocorre com o ministro da Economia, Paulo Guedes, considerado uma espécie de avalista do governo no mercado financeiro e na ala mais liberal do empresariado. Na última semana, a reação de Bolsonaro após baixas na equipe econômica revelou a forma como a agenda liberal é tratada pelo presidente nos bastidores, principalmente quanto às privatizações e a reforma administrativa. 

Guedes deixou de lado a postura adotada até agora, de tentar colocar "panos quentes" nos posicionamentos do presidente, pela primeira vez desde o anúncio de sua aliança com Bolsonaro, no fim de 2017, e pôs as cartas na mesa. O ministro deixou clara a resistência do Palácio do Planalto à liberalização da economia. Essa resistência é evidenciada pelo círculo político mais próximo de Bolsonaro, incluindo os núcleos militar e ideológico. 

Isso porque uma parte do governo defende a ampliação do número de obras públicas para ajudar a recuperação econômica pós-pandemia, lançando o programa de investimentos Pró-Brasil, e ainda um novo benefício à população de baixa renda, o "Renda Brasil', enquanto o grupo de Guedes resiste a sinalizações de que o governo possa "furar o teto" dos gastos públicos.

Até mesmo a volta da CMPF, que foi por décadas combatida por Bolsonaro, como parlamentar, voltou a ser cogitada e está em discussão na reforma tributária. O tributo é visto como uma solução para aumentar a arrecadação e permitir que o governo tenha entregas a apresentar nesta segunda metade do mandato. 

Os primeiros sinais do real posicionamento do presidente na economia já começaram a ser demonstrados na reforma da Previdência, quando Bolsonaro atuou para manter os privilégios dos militares e de outras categorias ligadas ao aparato de segurança do Estado.

Os atritos com a posição de Guedes demonstram que a pauta das privatizações e das reformas vai contra o corporativismo histórico do presidente. Além disso, a intenção agora é de abrir os cofres públicos para evitar um processo de impeachment e conquistar apoio à sua reeleição, evidenciando que aquela inesperada adesão ao liberalismo parece não ter passado mesmo de uma estratégia eleitoral para reduzir as resistências à sua candidatura.  

DO DISCURSO À PRÁTICA

Os interesses políticos de Bolsonaro também demonstraram estar descolados do discurso de campanha ao decidir empossar, em junho, o deputado Fabio Faria (PSD-RN) como ministro das Comunicações. A pasta, que estava sob o guarda-chuva do Ministério de Ciência e Tecnologia, de Marcos Pontes, foi desmembrada a pedido do presidente, passando a ser o 23º ministério. O movimento foi visto como parte da articulação política do governo com o Centrão, no Congresso. 

Na campanha eleitoral, e inclusive em seu plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2018, Bolsonaro afirmou que reduziria para 15 os ministérios, sob a justificativa de que um número elevado de pastas seria "ineficiente, não atendendo os legítimos interesses da nação".

Outro sinal dado ao Centrão foi na última quarta-feira (13), com a troca do  líder do governo na Câmara dos Deputados. Saiu o deputado Vitor Hugo (PSL-GO), e entrou o deputado Ricardo Barros (PP-PR), que foi ministro da Saúde de Michel Temer (MDB) e liderou a bancada governista nas gestões de Fernando Henrique (PSDB), Lula (PT) e Dilma Rousseff (PT). 

Essas foram algumas das concessões feitas pelo governo nos últimos meses para garantir apoio político e evitar um eventual processo de impeachment, já que o Centrão, que funciona como uma espécie de consórcio de partidos, reúne cerca de 200 dos 513 votos da Câmara. Bolsonaro, inclusive, já compôs partidos que são o cerne dessa ala no Parlamento, com passagens pelo PTB, PP e PSC.

ANÁLISE: AS PRIORIDADES

A postura de Bolsonaro de colocar para escanteio as agendas liberais e anticorrupção podem ser vistas como uma forma de ocultar a perda de poder que ele sofreu após eleito, na avaliação do doutor em Ciência Política Paulo Edgar Resende.

"Tudo isso visa atender a um interesse dele de permanecer no cargo. Ao ver fraqueza em seu projeto político, casos de corrupção à sua volta sendo desvendados, ele, como político que sempre adotou posicionamentos do 'baixo clero', viu que teria que ceder por questão de sobrevivência política. Assim, Bolsonaro vai mudando de casca, largando promessas pelo caminho, aliados, posições, para proteger os seus e alimentar o eleitorado fiel", afirma.

Ele acrescenta que o problema principal não é o fato de tomar medidas diferentes da campanha e, sim o de que essas posições não são adotadas por serem o melhor para a população; são, na verdade, pelo interesse de o presidente se manter no poder. "Esse tipo de postura, que não é do interesse de nenhum setor da população, mostra quem é ele, de perfil autoritário, que se apaixona pelo poder.  Ao ver o poder se esvaindo, ele passa a dar menos voz para a ala ideológica, e mais atenção para aqueles que podem dar sustentação para que termine o mandato."

O cientista político e professor da Ufes André Pereira analisa que este vaivém de opiniões nos posicionamentos econômicos e políticos mostra que essas não são as prioridades de Bolsonaro. "O que ele realmente se preocupa é com a pauta ideológica, com a proteção dos filhos, com a reeleição. Por isso não se define quanto a questões de fundo, deixa a cargo de ministros e políticos da equipe. No entanto, o preço que se paga é um conflito de forças internamente, em que não dá para saber para onde o governo vai", pontua.

O professor explica também que a extrema-direita do século XXI, na qual Bolsonaro se situa, em alguns momentos se posiciona à direita e, em outros, à esquerda, principalmente na economia e para políticas de Estado.

"A extrema-direita do século XX, do nazismo e fascismo, tinha uma concepção única e abrangente sobre o Estado corporativo. Já a extrema-direita atual não tem uma concepção ampla, só foca nas questões repressivas. Chega ao governo e, como tem que governar, vai fazendo alianças com grupos de outras concepções, da direita e da esquerda", destaca.

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