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Publicado em 9 de fevereiro de 2026 às 16:31
A Câmara de Vitória vai realizar uma audiência pública no dia 26 de fevereiro, às 16 horas, para discutir a proposta de mudar nome da Avenida Dante Michelini para Governador Gerson Camata. A discussão ganhou força na última semana após o corpo de Dante Brito Michelini, neto do empresário que dá nome à via, ser encontrado decapitado em um sítio de Guarapari. >
Dantinho, como era conhecido, tinha 76 anos e foi um dos três acusados de raptar, estuprar e matar Araceli Cabrera Crespo, de 8 anos, em 1973. Embora tenha sido absolvido pela Justiça em 1991 por falta de provas, seu sobrenome permanece ligado à memória do crime e ao trecho que dá nome à orla de Camburi.>
A proposta de homenagear Camata foi feita pelo vereador Armandinho Fontoura (PL), por meio do projeto de lei 004/2026. Após a divulgação da iniciativa, centenas de pessoas se manifestaram nas redes sociais pedindo que, em vez do nome do ex-governador, a via ganhasse o nome da menina. >
Ao ser questionado por A Gazeta por que não colocar o nome de Avenida Araceli, Armandinho afirmou que a medida não seria legalmente possível, uma vez que o viaduto ao fim da via já recebeu o nome dela. >
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“Se fosse legalmente possível, eu gostaria que a avenida se chamasse Araceli, como forma de retratação histórica. Como isso não é viável, a mudança de nome já representa um avanço e, ao mesmo tempo, prestigia um importante governador do nosso Estado. Não pode haver dois logradouros públicos com o mesmo nome. Como não há nenhum com o do Governador Gerson Camata, identificamos que seria o ideal”, afirmou.>
O projeto de lei para mudar o nome da via estava pautado na sessão desta segunda-feira (9), mas foi retirado do regime de urgência, após Armandinho confirmar a audiência pública. O objetivo é ampliar o debate com os moradores da Capital sobre a proposta.>
“Esse é um tema que mexe com a história, com a memória e com os sentimentos da cidade. Quero que a sociedade participe, opine e seja ouvida antes de qualquer decisão”, declara.>
Durante o debate, o vereador também rebateu críticas feitas em plenário. “Tem que parar com essa demagogia. Eu gostaria que o nome da avenida fosse Araceli. Só que, lamentavelmente, em 2017 já fizeram uma homenagem. Não fizeram esse debate que nós estamos fazendo”, afirma.>
Armandinho ressalta que a proposta não trata do nome do acusado pelo crime. “Nós não estamos tratando do nome do possível assassino, mas do avô dele, que era um homem honrado, um homem que teve toda a contribuição para a construção da Dante Michelini, pois ele doou o terreno. Só que chamamos a atenção para isso porque é o mesmo nome”, argumenta.>
O vereador diz ainda que não houve iniciativa isolada para a escolha do novo nome proposto. “Nós não tiramos Gerson Camata da cartola. Nós apuramos e vimos que há um pedaço da Segunda Ponte, no município de Cariacica e Vila Velha, denominado Gerson Camata. No município de Vitória, não há nenhum logradouro público que homenageia esse grande homem”, pontua. >
Caso a proposta seja aprovada após a tramitação legislativa, as despesas com a confecção e instalação das novas placas ficarão a cargo do Poder Executivo Municipal, utilizando dotações orçamentárias próprias.>
Apesar da associação feita ao longo dos anos, o nome da avenida foi uma homenagem a Dante Michelini, empresário capixaba que foi avô de Dantinho e pai de Dante de Barros Michelini, também acusado e, posteriormente, absolvido pelo assassinato da menina. O patriarca não tinha nenhum outro sobrenome e passou a identificar a avenida da Capital porque foi o responsável em doar o terreno para a pavimentação. >
O empresário morreu em 13 de janeiro de 1965 — oito anos antes do crime que marcou o Estado — e, conforme registros da época, todo o comércio localizado ao longo do percurso feito pelo cortejo fúnebre, no Centro de Vitória, Vila Rubim e Santo Antônio, fechou as portas em reverência, porque Dante Michelini era um empresário de destaque no Espírito Santo.>
Dois anos mais tarde, em janeiro de 1967, a Prefeitura de Vitória sancionou um decreto da Câmara Municipal denominando Avenida Dante Michelini, o trecho da ponte "Prefeito Ceciliano Abel de Almeida" (ponte de Camburi) até o cais de Tubarão, antes chamado de Avenida Beira-Mar. Essa homenagem, na forma da Lei 1.701/67, foi concedida tanto porque o empresário teve relevância na economia capixaba quanto pelo fato de ter cedido parte de terrenos da orla, de sua propriedade, para que fosse feita a avenida.>
A homenagem, portanto, foi concedida seis anos antes de Araceli desaparecer, ser violentada e morta. Dessa maneira, não se pode afirmar que se tratou de um prêmio para Dante de Barros Michelini e seu filho, Dante Brito Michelini (Dantinho), acusados de envolvimento no crime.>
Além da avenida na orla de Camburi, o nome do empresário também batiza uma escola pública em Vila Velha: a Umef Dante Michelini, localizada no bairro Planalto.>
Em 2017, a Prefeitura de Vitória inaugurou o viaduto, no final da Dante Michelini, com um memorial dedicado à menina. A estrutura também foi nomeada como Viaduto Araceli Cabrera Crespo. >
Pouco depois, a Câmara Municipal publicou uma enquete no Facebook com a intenção de saber a opinião dos moradores da Capital sobre a mudança no nome da avenida. Somente no primeiro dia de consulta, mais de 700 pessoas se manifestarem e 93% votaram pela mudança.>
O ex-vereador Roberto Martins chegou a propor a realização de um plebiscito para alteração de denominações de vias públicas, como a da orla de Camburi. Contudo, no início de 2018, o ex-prefeito Luciano Rezende vetou o projeto e os vereadores mantiveram a decisão do Executivo.>
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