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Como ficam investimentos no ES com retomada do petróleo na Venezuela

Como ficam investimentos no ES com retomada do petróleo na Venezuela

O Espírito Santo é o segundo maior produtor do Brasil e a perspectiva de recuperação da produção do país vizinho pode ter reflexos no Estado; entenda

Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 08:48

O futuro da Venezuela, após o ataque dos Estados Unidos e a captura do presidente Nicolás Maduro, ainda é cercado de incertezas, mas, além de questões sociais e políticas, o país chama a atenção por um aspecto econômico estratégico: a maior reserva comprovada de petróleo do mundo. Há, no horizonte, uma perspectiva de retomada da indústria petrolífera venezuelana, hoje com produção irrisória diante de sua capacidade, caso sejam realizados investimentos em infraestrutura.

Mas quais seriam as repercussões para outros produtores, como o Espírito Santo, que ocupa a segunda colocação no ranking nacional? Fuga de investimentos ou atração para novos negócios de energia renovável? 

As respostas não são simples, tampouco vão descortinar toda a complexidade da situação na Venezuela, e os impactos mundo afora, mas especialistas ouvidos por A Gazeta analisam o atual cenário e apresentam algumas projeções diante do que hoje é conhecido. 

Para o presidente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás (Abpip), Márcio Felix, embora a Venezuela tenha grandes reservas de petróleo, a falta de segurança jurídica e o histórico de perdas financeiras ainda afastam investidores estrangeiros.  

Nesse cenário, ele avalia que o Brasil mantém uma posição competitiva superior devido à sua estabilidade institucional, o que protege os investimentos previstos para o Espírito Santo, bem como projetos já estruturados. Ele lembra ainda que há resistência de algumas empresas como a Exxon para retornarem à Venezuela, visto que no passado já tiveram prejuízo no país.

A professora Camilla Nogueira, do Departamento de Economia da Ufes, acredita que, no curto prazo, as ações realizadas pelos Estados Unidos no mar do Caribe tendem a gerar mais incertezas no mercado internacional do petróleo, podendo, inclusive, reduzir a oferta e pressionar os preços para cima.   

Captured Venezuelan President Nicolas Maduro is escorted the Daniel Patrick Moynihan United States Courthouse in Manhattan
Nicolás Maduro foi capturado após ataque dos Estados Unidos à Venezuela Crédito: REUTERS/Adam Gray

Outro cenário possível, se a produção venezuelana aumentar e, consequentemente, o preço do barril diminuir, é a redução dos custos do combustível doméstico. Nesse caso, analisa Camilla, alguns investimentos em petróleo e gás poderiam ser desestimulados em outras regiões produtoras. 

"Mas, no caso do Espírito Santo, esse impacto tende a ser limitado no curto prazo, pensando nesse cenário de recuperação venezuelana. E vou te dizer o porquê. O Estado vem registrando crescimento dos investimentos em petróleo e gás, impulsionados pelas expectativas em torno do pré-sal. Existem diversos projetos já em execução, ampliação de plataformas, desenvolvimento de campos novos, diversas estruturas associadas. Então, tudo isso tende a seguir adiante."

O abalo a essa configuração atual da indústria petrolífera no Espírito Santo só é cogitado diante de um choque muito intenso e persistente, diz Camilla. Isso porque, além dos projetos já em execução, o Estado tem uma carteira robusta de investimentos, anunciados no setor até 2030, que envolve dezenas de bilhões de reais. 

"Então, para que a Venezuela retirasse investimento do Espírito Santo, seria necessário oferecer um retorno ajustado ao risco mais atrativo. E, mesmo com mudanças recentes que estão se configurando agora, o risco político e jurídico venezuelano permanece elevado, considerando todas essas ingerências dos Estados Unidos no país, que são absolutamente imprevisíveis, e que torna essa comparação entre o mercado venezuelano e o mercado capixaba longe de ser simples."

Para Camilla, portanto, no curto prazo, o impacto no Espírito Santo tende a ser de baixo a moderado e, para o médio e o longo prazo, deve ser analisado com cautela, considerando todo o grau de incerteza do momento.

O economista-chefe da Apex Partners, Arilton Teixeira, traz ainda outro fator que não se pode ignorar: o tempo que será necessário para reconstruir a indústria do petróleo na Venezuela, a ponto de os investimentos repercutirem no Espírito Santo ou em outro centro produtor. Ele lembra que o país produzia, na década de 1970, cerca de 3,5 milhões de barris por dia. Hoje, apesar das grandes reservas, a produção é de cerca de 600 mil/dia. 

"É possível voltar a produzir? Sim, mas num cenário de mais de longo prazo", analisa Arilton, apostando que, com a retomada da indústria petrolífera na Venezuela, há mais benefícios do que perdas em vista, com redução de custos no cotidiano das pessoas, devido ao barateamento de combustíveis, e, consequentemente, aumento de renda. "O que temos de pensar agora é como se chega lá", completa. 

Além da necessária normalização institucional no país, Arilton Teixeira prevê a necessidade de grande investimento na infraestrutura, com recuperação de oleodutos e portos, e ainda na identificação de poços de exploração e produção. 

Indústria venezuelana

Para explicar esse contexto, Camilla Nogueira pontua que a PDVSA — estatal venezuelana do segmento petrolífero — enfrenta há algum tempo problemas de infraestrutura, hoje severamente comprometida como resultado do baixo investimento ao longo dos anos devido à crise econômica do país, mas, sobretudo, pelas sanções internacionais impostas à Venezuela.

"Entre as medidas mais relevantes dessas sanções estão as restrições financeiras que impedem o Estado venezuelano e a PDVSA, que é empresa pública, de captarem recursos, financiamentos nos mercados internacionais. Então, essas restrições dificultam o financiamento público e impedem, em grande medida, a importação de insumos básicos e de bens de capital, que garantiriam a conformação da indústria petrolífera do país", pontua. 

Então, segundo Camilla, é nesse  cenário que é preciso compreender a atual reestruturação da produção de petróleo na Venezuela, cenário em que as sanções foram usadas como instrumento de pressão geopolítica, considerando que se trata de um país periférico, subdesenvolvido e altamente dependente do petróleo como commodity. 

Camilla destaca que os Estados Unidos têm interesse estratégico no petróleo venezuelano, fato que, para ela, ajuda a explicar a escalada das tensões.

"O petróleo venezuelano é pesado, ácido, é um tipo de óleo essencial para determinadas cadeias de refino, sobretudo para produção de diesel, asfalto, combustíveis industriais. É uma energia muito essencial para a estrutura industrial e, particularmente, relevante para os Estados Unidos", pontua a professora da Ufes, acrescentando que há uma escassez global desse tipo de petróleo. 

Em termos estratégicos, Camilla diz que a recuperação da produção venezuelana interessa muito aos Estados Unidos, tanto para garantir o abastecimento interno, quanto para abrir novas oportunidades de investimentos e lucro para as empresas norte-americanas.

Energia renovável

Se o setor de petróleo e gás no Espírito Santo carrega uma incógnita em relação aos possíveis impactos decorrentes da produção na Venezuela, o território capixaba poderia se tornar mais atrativo para investimentos em energia renovável? Questionada sobre a capacidade do Estado de se desenvolver nessa área, a professora Camilla Nogueira pontua que o Espírito Santo é pioneiro em projetos de energia limpa, o que pode lhe conferir uma margem para direcionar investimentos no médio e longo prazos.

"Esse movimento, no entanto, depende muito mais de fatores como regulação, licenciamento ambiental, capacidade de conexão entre diferentes setores, contratos de compra de energia, política industrial — fundamental considerando o cenário de desindustrialização no Brasil. São fatores muito mais relevantes e determinantes do que propriamente a retomada da produção de petróleo na Venezuela nessas condições absolutamente instáveis do ponto de vista da geopolítica e das ingerências dos Estados Unidos."

Já Márcio Felix lembra que a competitividade das energias renováveis, como solar, eólica e hidrogênio, está ligada ao valor do barril de petróleo no mercado internacional. Segundo ele, quando está abaixo de US$ 60, considerado barato, as energias renováveis perdem competitividade e projetos podem perder a viabilidade econômica. Quando está acima de US$ 80 o cenário se inverte e outras fontes de energia tornam-se mais competitivas em relação ao combustível fóssil.

Arilton Teixeira mostra-se mais cético com o segmento. Para ele, a energia renovável, particularmente a eólica e a solar, tem custo muito elevado, não é competitiva sem subsídio governamental e não é confiável. "A gente ainda não consegue estocar vento e vai ter dia que não tem sol. Então, hoje não é viável", avalia.

Em sua avaliação, a única energia limpa confiável é a nuclear, mas que, segundo afirma o economista, ainda sofre preconceito no Brasil devido à preocupação com o risco de acidentes.

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