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Como Hortifruti 'foi de Americanas' e fechou duas lojas no ES

Como Hortifruti 'foi de Americanas' e fechou duas lojas no ES

Comprada pelo Grupo Americanas em 2021, rede chegou a ter mais de 70 lojas no Sudeste; operação é encerrada no Estado em meio a processo de venda dentro da recuperação judicial

Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 17:35

Loja do Hortifruti na Praia do Suá
Loja da Hortifruti na Praia do Suá fechou as portas em novembro do ano passado Crédito: Carlos Alberto Silva

O fechamento do Hortifruti na Praia da Costa, em Vila Velha, vai encerrar de vez as atividades da rede varejista no Espírito Santo, onde foi fundada. Em novembro do ano passado, houve o fim das atividades da loja da Praia do Suá, em Vitória, depois de décadas atendendo ao público. As operações continuam em mais de 60 unidades da rede, que se concentram agora no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em São Paulo, sob a bandeira Natural da Terra.

Mas o que levou a rede a encerrar os atendimentos no Espírito Santo, depois de expandir-se para a região Sudeste e virar uma varejista pioneira no Brasil com foco em frutas, legumes e verdura?

A explicação está no processo de reorganização das dívidas das Lojas Americanas, grupo que comprou a rede Hortifruti em 2021 por R$ 2,1 bilhões e, em 2023, revelou um rombo contábil bilionário que levou a rede a entrar em recuperação judicial.

Em agosto do ano passado, a Americanas S.A. informou ao mercado que iria retomar o processo para tentar vender a rede varejista, com prazo previsto até fevereiro deste ano. Nesse contexto, advogados explicam que o encerramento de unidades pode estar inserido em estratégia de reorganização voltada à maximização do valor de mercado no momento da venda.

“Em processos de reestruturação, é prática recorrente promover ajustes no portfólio para eliminar operações deficitárias, reduzir contingências futuras e tornar a estrutura mais enxuta e previsível. Essa reorganização pode melhorar indicadores financeiros consolidados e conferir maior segurança aos potenciais adquirentes durante a fase de auditoria e due diligence (processo de investigação prévia antes de fusões e aquisições)”, explica o advogado Marcelo Melo Rodrigues, sócio da Bergi Advocacia.

Em novembro, no fechamento da loja pioneira da Praia do Suá, a Hortifruti Natural da Terra justificou o encerramento das atividades por avaliar permanentemente o desempenho de cada unidade da rede a partir de diferentes indicadores, como hábitos de consumo, rentabilidade e demanda de compra.

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Loja da Hortifruti, da Praia da Costa, vai encerrar as atividades Crédito: Carlos Alberto Silva

Já o advogado Marco Tulio Ribeiro Fialho avalia que o principal motivo para o encerramento de atividades em unidades específicas — como no Espírito Santo e também no Rio de Janeiro — é a busca por rentabilidade. Nesse caso, a rede está sendo preparada para ser alienada e, para atrair compradores, precisa apresentar números robustos.

De acordo com Fialho, em casos como do Hortifruti, a gestão avalia quais lojas são deficitárias, possuem custos de aluguel elevados ou desempenho abaixo do esperado. "Imagina: você tem 10 lojas, aí duas dão prejuízo e consomem o lucro das outras oito. O que você faz? Você vende (ou fecha) as duas que dão prejuízo", exemplifica o advogado.

Essa limpeza operacional, segundo ele, visa melhorar o EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), que é o indicador geralmente utilizado pelo mercado para avaliar o preço de venda de empresas de varejo. Quanto maior o EBITDA, maior o valor de mercado que a Americanas pode obter pela rede.

Embora pertença à Americanas, o Hortifruti opera como uma Unidade Produtiva Isolada (UPI). Isso significa que a rede possui autonomia financeira e administrativa, com uma gestão totalmente separada do grupo principal. Essa estrutura, prevista na Lei de Falências, é fundamental para o processo de venda, pois garante uma "blindagem" ao comprador.

"Quem compra uma unidade independente e isolada tem a garantia de que as dívidas da Americanas não serão arrastadas para essa rede", explica Fialho. Sem esse isolamento, dificilmente haveria interessados no ativo, dado o alto endividamento da controladora. 

O advogado Marcelo Rodrigues lembra que a recuperação judicial não interrompe as atividades empresariais. O objetivo é justamente viabilizar a superação da crise econômico-financeira, preservando a empresa, sua função social e os empregos. Contudo, na prática, a companhia passa a operar sob maior restrição de liquidez e ambiente de controle financeiro mais rigoroso.

"No setor supermercadista, que trabalha com margens tradicionalmente estreitas e forte dependência de capital de giro, os efeitos costumam se refletir na revisão de contratos, na renegociação com fornecedores, na redução de despesas fixas e na reavaliação do portfólio de lojas. A estratégia empresarial tende a migrar de uma lógica de expansão para uma lógica de eficiência operacional e preservação de caixa", finaliza.

Procurada para comentar o assunto, a rede Hortifruti informou apenas que o plano de recuperação judicial prevê obrigação de conduzir um processo competitivo de vendas, mas não de vender.

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