Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 16:31
A medicina brasileira vive um momento de transformação acelerada. Inteligência artificial aplicada ao diagnóstico, novas ferramentas de gestão clínica, modelos híbridos de atendimento e discussões sobre qualidade assistencial dominam o debate público. No entanto, enquanto a prática médica evolui em sofisticação técnica, um aspecto estrutural da profissão permanece à margem das discussões: a organização da vida financeira em uma carreira cada vez mais fragmentada. >
A realidade do médico brasileiro hoje é, em grande medida, multicarreira. Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, apenas 33,3% dos profissionais em atividade possuíam emprego formal em 2023, uma queda significativa em relação a 2012, quando esse percentual era de 54%. Dos mais de 572 mil médicos no país, pouco mais de 190 mil mantêm vínculo formal de trabalho. A maioria atua de maneira pulverizada, combinando plantões em diferentes instituições, prestação de serviços como pessoa jurídica, consultório próprio, participação societária e contratos temporários. >
Essa multiplicidade de vínculos, embora amplie possibilidades profissionais, impõe uma complexidade financeira pouco debatida. Rendimentos provenientes de fontes distintas, prazos de pagamento variados, regimes tributários diferentes e obrigações fiscais distribuídas tornam a gestão financeira um desafio constante — só que um desafio velado. >
“Houve uma naturalização dessa fragmentação. Trabalhar em vários lugares virou sinônimo de expansão profissional, mas quase nunca se discute a infraestrutura necessária para sustentar essa dinâmica”, avalia Wilgo Cavalcante, CEO da Caveo, plataforma financeira da carreira médica. “Sem uma base organizada, a vida financeira passa a ser administrada como uma UTI permanente: tudo exige atenção imediata, pois o estado é crítico”, acrescenta. >
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Muito longe de trazer impactos apenas individuais, essa desestruturação financeira também afeta, em algum grau, o exercício da profissão . Não se trata de estabelecer relações simplistas entre organização financeira e prática clínica, mas de reconhecer que preocupação constante consome energia cognitiva, um recurso essencial na medicina. >
“Não estamos falando de desempenho técnico ou de qualidade assistencial de forma direta. Estamos falando de carga mental”, afirma Wilgo Cavalcante, que justifica: “Quando o profissional precisa lidar continuamente com incertezas sobre recebimentos, impostos e contratos, parte da sua atenção está ocupada por temas que deveriam estar estruturados”. >
Para se ter uma ideia de como essa pressão se manifesta na rotina, uma pesquisa da Caveo identificou que 69% dos profissionais se sentem sobrecarregados nos primeiros anos de carreira , especialmente pela dificuldade de conciliar plantões, estudos para residência, vida pessoal e decisões estruturantes, como abrir uma empresa ou definir caminhos de atuação. Além disso, seis em cada dez apontam a sobrecarga como um dos principais desafios da profissão. >
Mais do que carga horária, há uma sensação recorrente de improviso. Ainda conforme a pesquisa da Caveo, sete em cada dez médicos relatam dificuldades com temas como contabilidade, impostos e tributos. Quase metade avalia seu próprio conhecimento financeiro como baixo ou muito baixo, e 36,5% afirmam enfrentar problemas financeiros logo após a formação, justamente no momento de transição entre a faculdade e o mercado de trabalho. >
“Pode parecer que a falta de estrutura financeira atinge apenas o médico, mas ela também impacta o ambiente profissional”, alerta Wilgo Cavalcante, que acrescenta: “Um ritmo de tr a balho fragmentado, somado à insegurança sobre receitas, impostos e contratos, aumenta o nível de estresse e reduz a previsibilidade. E previsibilidade é um fator importante para planejamento de carreira, tomada de decisão e equilíbrio profissional”. >
A insegurança também se manifesta nas perspectivas futuras: cerca de 45% relatam dúvidas sobre como alcançar estabilidade financeira, citando falta de conteúdo confiável, ausência de mentoria e incertezas sobre remuneração, contratos e regimes de trabalho. Diante desse cenário, cresce a percepção de que a organização financeira não é um tema periférico, mas parte da própria estrutura da carreira médica. >
“Se a medicina avançou em tecnologia, protocolos e modelos de atendimento, é natural que a discussão sobre a base que sustenta essa carreira também amadureça”, afirma Wilgo Cavalcante. A organização financeira também deve fazer parte do trabalho na medicina. “É por isso que valorizamos tanto a nossa proposta de integrar receitas, vínculos e obrigações em uma visão consolidada. Organização financeira não é um tema periférico. Ela influencia decisões estratégicas, mobilidade profissional, capacidade de investimento e até o ritmo de trabalho que o médico escolhe ter ao longo da vida”, finaliza. >
Por Anna Oliveira >
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