Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 21:10
Eram 2h da manhã quando um míssil caiu no seu apartamento.>
"A onda explosiva me atirou contra a parede", recorda Wilman González.>
Caído no chão, ele abriu os braços olhando para o céu e se despediu: "Deus, perdoe todos os meus pecados.">
Naquele momento, "senti que havia morrido", recorda ele. >
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Mas, momentos depois, González percebeu que tinha enterrada no rosto uma lasca de madeira que havia se soltado da porta.>
"Eu me levantei como pude e fui socorrer meus irmãos, que estavam aturdidos com o impacto", conta o eletricista de 54 anos à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).>
Ainda com a bochecha direita roxa, ele mal consegue acreditar no que aconteceu com ele e com sua família no último dia 3 de janeiro, quando as Forças Armadas norte-americanas atacaram a Venezuela, capturando o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores.>
González morava no Bloco 12, um antigo edifício localizado muito perto de uma importante base militar venezuelana, a Academia da Marinha Bolivariana, na cidade litorânea de Catia La Mar, a cerca de 35 km de Caracas.>
Habitado principalmente por pessoas de idade avançada em um bairro popular, o Bloco 12 — ou o que resta dele — agora é um símbolo de um dos maiores acontecimentos ocorridos na história recente da Venezuela: o bombardeio ordenado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.>
Trata-se de um dos edifícios civis atingidos pelo ataque, cujo alvo principal foram instalações militares e de comunicações.>
Enquanto Maduro permanece detido em uma prisão de Nova York, enfrentando acusações relacionadas ao narcoterrorismo, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, assumiu esta semana as rédeas do país, sob a tutela dos Estados Unidos.>
O ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, informou que a operação americana causou a morte de cerca de 100 pessoas, entre civis e militares.>
González é um dos sobreviventes. Mas sua tia Rosa, de 79 anos, dormia no quarto ao lado e não teve a mesma sorte.>
"Ela começou a gritar 'ai, que dor, que dor no braço'", relembra ele.>
"Havia uma máquina de lavar em cima dela. Uma máquina de lavar que, com o impacto, saiu voando e caiu em cima dela.">
O sobrinho conseguiu, com dificuldade, retirar a máquina e colocar a tia sentada em uma cadeira. Foi neste momento que Rosa disse que não conseguia respirar.>
Desesperados, os familiares levaram Rosa González para um hospital, onde recebeu atendimento de urgência. Mas, apesar de todos os esforços, era tarde demais.>
Com o caixão semiaberto para as pessoas se despedirem, dois dias depois do bombardeio, familiares e amigos velaram Rosa González em uma pequena capela de paredes brancas, em frente a um crucifixo.>
Wilman González, agora, mora na casa de um cunhado. Ele para em frente àquele que antes era o seu lar e olha para os escombros, sem conseguir explicação para o que aconteceu.>
"Veja como ficou... Não é justo, não é justo este destino", lamenta ele profundamente, enquanto aponta para os restos do Bloco 12.>
"A maior parte do projétil ficou no quarto da minha tia.">
Ele conta que o governo levou os restos do míssil americano. Mas o trauma da experiência permanece.>
"Estamos assustados, nunca estivemos em uma guerra", conta ele, desconsolado.>
"Senhores, não à guerra, não à guerra! Não precisamos da guerra, o que precisamos é comer e viver", grita González, com raiva, em frente ao edifício.>
Diante de seus olhos, estão apenas paredes demolidas, vidros quebrados, pedaços de objetos pessoais e os restos de uma vida que nunca voltará a ser como era antes.>
Seu vizinho Jorge Cardona, de 70 anos, estava na sala do seu apartamento quando caiu o míssil. Ele ouviu de repente um barulho, e logo veio o impacto.>
"Escutei a explosão e tudo saiu voando", relembra ele.>
Cardona foi atirado a um corredor. >
"A parede do vizinho veio para minha casa e arrancou móveis, levou tudo.">
Quando conseguiu reagir, ele começou a sacudir o pó e os escombros que haviam caído sobre seu corpo. Cardona vestiu uma calça rapidamente, colocou os sapatos e foi falar com os vizinhos.>
"Pensei que estivessem nos atacando, mas nunca achei que fossem me atacar", afirma ele.>
Cardona conta que o míssil "caiu no teto de cima, no corredor e passou pela janela do banheiro dos vizinhos.">
"Estamos vivos por milagre. Foi algo que se vive só uma vez na vida e só se vê nos filmes de Hollywood, quando o rapaz se salva.">
Jesús Linares tem 48 anos. Ele estava dormindo e foi acordado por um zumbido forte.>
Sua primeira suposição foi que poderiam ser fogos de artifício das comemorações de Ano Novo.>
Sua filha de 16 anos estava dormindo no mesmo quarto. Quando veio o impacto, ela perguntou: "Papai, o que está acontecendo?">
Ele respondeu: "Filha, estamos sendo invadidos.">
Naquele momento, ele a retirou da cama e, enquanto seguia a caminho do quarto de sua mãe, sentiu um novo zumbido. Era o míssil que atingiu o edifício, destruindo a entrada principal da casa.>
"A onda de expansão me atirou ao chão e senti que algo atingia minha cabeça", ele conta. >
"Quando me levantei, gritei para minha filha: 'Para o chão, jogue-se no chão!'">
Descalço, ele passou por cima de pedaços de vidro para procurar sapatos. >
Conseguiu empacotar um pouco de roupa para ele, sua filha e sua mãe, de 85 anos.>
Depois, entrou no apartamento da sua vizinha e a encontrou caída no chão, totalmente desorientada e com feridas no corpo.>
Coronel dos bombeiros com 28 anos de serviços prestados à instituição, Linares percebeu que a mulher precisava de ajuda imediata. >
E, com um lençol, improvisou uma bandagem na cabeça e outra na perna, para deter a hemorragia.>
Felizmente, sua mãe e sua filha sofreram apenas traumatismos leves.>
Recordando o que aconteceu naquela noite, ele conclui que havia aplicado automaticamente o protocolo usado em caso de terremoto. >
Isso permitiu que ele resgatasse sua vizinha com vida e se protegesse com sua família.>
Agora, Jesús Linares colabora nas tarefas de reconstrução do Bloco 12 e permanece alojado na casa de um parente, ao lado de sua filha e sua mãe. Sua expectativa é de voltar para casa.>
Embora esteja acostumado a lidar com situações difíceis, a queda do míssil no seu edifício deixou sequelas em Linares.>
Desde o ataque, ele se levanta todos os dias, perto das 2h da madrugada — o horário em que o míssil atingiu sua residência.>
Naquele horário, "volta o filme" e ele recorda o que viveu no dia em que os Estados Unidos atacaram a Venezuela, atingindo a cúpula do poder venezuelano, mas também o Bloco 12.>
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