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Variante ômicron: família do ES na África do Sul vive incerteza de voo para o Brasil

O governo federal fechou a fronteira para seis países do continente africano sob a alegação de que é a medida necessária para conter o avanço da Covid

Tempo de leitura: 5min
Vitória
Publicado em 30/11/2021 às 12h54
O casal Danielly e José Anilton com os filhos Antonio e Valentina em passeio pela África do Sul
O casal Danielly e José Anilton com os filhos Antonio e Valentina em passeio pela África do Sul. Crédito: Acervo pesoal

Após quase dois anos longe da família devido à pandemia da Covid-19, o casal José Anilton Calegari Garcia e Danielly Magioni, que mora na África do Sul com os filhos Valentina e Antonio, havia planejado passar um mês em terras brasileiras. Passagem comprada para a próxima sexta-feira (3) com destino ao Espírito Santo e, de repente, ambos são surpreendidos com a possibilidade de não mais poderem embarcar. O motivo é a restrição imposta pelo governo federal, que fechou a fronteira para seis países africanos, sob a alegação de conter o avanço da nova variante do Sars-Cov-2 (coronavírus) identificada na África - a ômicron

Morando há pouco mais de quatro anos em Joanesburgo, capital sul-africana, após José Anilton ser transferido pela empresa em que trabalha, a família esteve pela última vez no Espírito Santo em janeiro de 2020, menos de dois meses antes de ser decretada a pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Desde então, não puderam voltar ao Brasil devido ao cenário epidemiológico, nem familiares foram visitá-los pelas mesmas circunstâncias. 

Agora que o casal está vacinado com duas doses, e as condições mostravam-se mais favoráveis à viagem, o anúncio das restrições do governo brasileiro foi um baque e a família está na expectativa por uma resolução da situação.

"Nosso voo está previsto para sexta-feira, dia 3. Ainda está confirmado porque compramos pela Ethiopian Airlines, já que desde o início da pandemia não temos mais voos diretos para o Brasil. Essa é a única companhia que ainda não cancelou os voos. Todas as outras já emitiram comunicados e fecharam seus países para a África do Sul, como Qatar e Emirados Árabes. Nossa volta está agendada para 2 de janeiro e nossa intenção é - ou era - passar as festas com a família no Brasil.  Mas, se formos, teremos de fazer quarentena de 14 dias. Todos os nossos amigos que iriam ao Brasil por outras companhias tiveram os voos cancelados", conta a jornalista Danielly.  

No Brasil, o ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, anunciou no fim de semana que seriam fechadas, a partir desta segunda-feira (29), as fronteiras aéreas para seis países africanos devido à ômicron. Além da África do Sul, a restrição afeta os passageiros oriundos de Botsuana, Eswatini, Lesoto, Namíbia e Zimbábue.

PAÍS ESTÁ SENDO INJUSTIÇADO, DIZ MORADORA

O governo sul-africano, observa Danielly, segue dizendo que o país está sendo punido por ter pesquisadores de ponta e ter descoberto primeiro essa variante. Muitos dizem que a ômicron se originou na África do Sul, mas ela ressalta que não há provas da origem dessa cepa.

"Apenas o país foi mais rápido em identificar a variante. O presidente discursou (no domingo, dia 28) dizendo que é um absurdo o que estão fazendo com os países africanos, o que eu concordo plenamente. Os casos aqui estão muito mais baixos do que de países da Europa. Então, por que o governo brasileiro apenas restringiu os voos de países africanos? Se isso não é discriminação, não sei o que é", desabafa. 

A jornalista faz ainda uma análise do contexto atual da pandemia e considera que o mundo só vai caminhar para resolver a crise sanitária quando houver o envolvimento das nações mais ricas no enfrentamento do problema também nos países pobres e em desenvolvimento.

"Em vez de os países mais ricos ajudarem na vacinação, eles boicotam e prejudicam ainda mais essas economias em desenvolvimento. A África do Sul tem vacinas suficientes, só que esbarra na população, que em grande parte não quer vacinar. E o presidente disse que vai começar a exigir vacina se o número não aumentar. Mas outros países africanos não têm vacina suficiente e nada é feito. Os mais ricos não entenderam que o mundo é globalizado e que de nada adianta vacinarem a própria população com três doses se os outros países não conseguem o mesmo", constata.

ISOLAMENTO DE PAÍSES NÃO É MELHOR ESTRATÉGIA

Pós-doutora em Epidemiologia e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)Ethel Maciel reforça essa avaliação e ainda ressalta a importância de outras estratégias em vez do isolamento de países africanos. 

"A África do Sul tem programa bem robusto de vigilância genômica e identificou primeiro. Mas foi um espaço de tempo curto entre eles terem identificado e outros países identificarem também. A origem (da nova variante) ninguém sabe. Só que a África identificou e mostrou, e está sendo isolada, punida por isso, enquanto vários outros países já estão com essa variante também", aponta Ethel. 

Para ela, mais eficaz que o isolamento, é ter sistemas de vigilância capazes de "testar, testar e testar", além da necessidade de manter a orientação à população sobre o uso de máscaras e o distanciamento social, evitando locais fechados e de aglomeração porque as recomendações que valem para as outras variantes do coronavírus se aplicam também à ômicron. 

"Enquanto não tivermos uma vacinação com mais de 80, 90% no mundo, teremos variantes. E muito possivelmente é um vírus que vai ficar entre nós, vai ter mutações, vamos precisar vacinar novamente", pontua.

Ethel Maciel defende que fundamental é ter um sistema de vigilância epidemiológica para testar, fazer sequenciamento genômico, identificar rápido e isolar as pessoas contaminadas pela variante e, assim, impedir a cadeia de transmissão.

Nas fronteiras do Brasil é ainda indispensável exigir a entrada apenas de pessoas vacinadas e com o PCR (exame de detecção da Covid) negativo, com teste feito até 72 horas antes do embarque para o país. "É isso que tem que ser feito e não isolar um país porque a variante pode vir de outro. Não adianta! O que tem que exigir é o esquema vacinal completo e o teste negativo", frisa. 

Na avaliação de Ethel, a ômicron, identificada na última quarta-feira (24), já circulava antes e os passageiros que desembarcaram no país em semanas anteriores podem ter trazido a variante para o Brasil. É muito difícil, ressalta ela, deter o ingresso em território brasileiro de uma cepa de alta transmissibilidade e, por essa razão, reafirma ser tão indispensável o sistema de vigilância para identificar e isolar rapidamente pessoas infectadas para, assim, diminuir a transmissão. 

Danielly Magioni, que ainda não sabe se a família poderá se reencontrar neste fim de ano, traduz o momento: "Nosso sentimento é de indignação com tudo isso. Achamos que toda essa proibição foi precipitada. E, é claro, pessoalmente ficamos arrasados porque já planejávamos essa viagem há um tempo. Nossos familiares também estão apreensivos. É claro que somos favoráveis a medidas para barrar um novo avanço da Covid, mas que isso seja feito de forma mais responsável."

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