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Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 10:17
Um estudo divulgado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) revela que Vitória está mais quente e mais chuvosa há mais de 60 anos. A confirmação de que a capital do Estado vive esse cenário climático há seis décadas foi consolidada a partir da análise de dados diários de temperatura do ar, precipitação e índices de extremos climáticos entre 1961 e 2023, com base em séries históricas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). >
Ainda conforme o trabalho publicado pela Ufes na quarta-feira (18), os resultados apontam um processo contínuo de aquecimento e de aumento no volume de chuvas no município capixaba ao longo desses 63 anos. >
O estudo "Mudanças climáticas observadas no município de Vitória (ES) entre 1961 e 2023" — elaborado pelo geógrafo Vagner Siqueira Filho como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Geografia — comparou dois períodos climatológicos (de 1961 a 1990 e de 1991 a 2023) para identificar mudanças no comportamento da temperatura e da chuva, bem como compreender seus impactos no contexto municipal. >
Segundo o autor da pesquisa, análises em âmbito global nem sempre capturam as especificidades locais, o que torna os estudos em menor escala fundamentais para o planejamento das cidades. >
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De acordo com o TCC, a temperatura máxima média anual aumentou cerca de 1°C em 63 anos, enquanto a mínima média subiu aproximadamente 1,3°C no mesmo período. O aumento mais expressivo teria ocorrido nas temperaturas mínimas, indicando noites progressivamente mais quentes na capital. >
Já a precipitação total anual apresentou crescimento de cerca de 445 milímetros ao longo de seis décadas, o que confirma, de acordo com a pesquisa publicada pela Ufes, a intensificação do regime de chuvas no município.>
Outro trecho do estudo aponta um aumento na frequência de eventos extremos, com chuvas intensas concentradas em curtos períodos — fator que eleva o risco de alagamentos e deslizamentos. Segundo Siqueira Filho, o perigo reside na concentração da precipitação, cujos impactos revelam uma clara desigualdade social.>
“Populações de bairros mais carentes estão mais suscetíveis a sofrer com os eventos extremos intensificados pelas mudanças climáticas. Enquanto isso, quem dispõe de maiores recursos econômicos e reside em bairros elitizados, apesar de também ser atingido, consegue minimizar os impactos e buscar alternativas de adaptação e resistência", afirma o autor da pesquisa.>
Apesar de a capital ter praias e ventilação natural que ajudam a aliviar o calor e a umidade, o crescimento rápido da cidade e a construção de muitos prédios altos podem criar as chamadas "ilhas de calor". Esse fenômeno torna o ambiente urbano muito mais quente do que o normal, gerando um ciclo de desconforto que prejudica o bem-estar de todos, revela o estudo.>
Siqueira Filho explica que essa oscilação no tempo afeta diretamente o dia a dia. >
Vagner Siqueira Filho
Geógrafo e autor da pesquisaComo solução para enfrentar o que define como "forno úmido", o especialista defende que a criação de áreas verdes e a manutenção de corredores de vento são fundamentais para gerar microclimas mais agradáveis.>
Orientador da pesquisa, o professor do Departamento de Geografia (DGeo) da Ufes Wesley Correa ressalta que o papel do geógrafo é analisar problemas sociais e sugerir soluções práticas e planejadas.>
Segundo ele, ao estudar como as mudanças climáticas afetam Vitória, a Geografia e a universidade ajudam a criar bases para políticas públicas essenciais à população. Entre as medidas sugeridas pelo especialista para melhorar a cidade estão a modernização da drenagem, o uso de pisos que absorvem a água (pavimentos permeáveis), a criação de bacias para segurar o excesso de chuva, o plantio de mais árvores e jardins de chuva, além da desocupação de áreas de risco.>
O estudo foi realizado dentro do Grupo de Pesquisa em Climatologia da Ufes (GPC), sob a coordenação de Correa. Para garantir a precisão dos dados, os pesquisadores utilizaram o RClimDex, uma ferramenta padrão internacional recomendada por especialistas da Organização Meteorológica Mundial para identificar mudanças no clima.>
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