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Aulas pela TV e por aplicativo: como está a aprendizagem na rede estadual?

Estratégias da Secretaria de Estado da Educação (Sedu) para manter atividades durante suspensão do estudo presencial, por conta da pandemia do novo coronavírus, têm pontos positivos e negativos

Publicado em 13/05/2020 às 06h00
Atualizado em 13/05/2020 às 06h00
Aulas pela TV aberta, com conteúdo para estudantes da rede estadual de ensino, tiveram início nesta quarta-feira (15)
Aulas pela TV aberta, com conteúdo para estudantes da rede estadual de ensino, tiveram início no dia 15 de abril. Crédito: Reprodução

Diante da falta de perspectiva para a retomada das aulas presenciais, a Secretaria de Estado da Educação (Sedu) definiu algumas estratégias para manter o vínculo com os alunos. Conteúdos pela TV e por aplicativo de celular estão disponíveis há quase um mês para os estudantes, mas será que estão contribuindo para a aprendizagem? Em meio à pandemia do novo coronavírus, e todas as dificuldades decorrentes da crise sanitária, não restam dúvidas que o impacto no ensino é inevitável. 

Diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes), Christovam Mendonça aponta que entre as queixas da categoria está a percepção de as aulas serem bastante metódicas, e com pouco espaço para interação. "Outro ponto que alguns professores me apresentaram é que o conteúdo da TV, que vem do Amazonas, é muito regionalizado. É claro que a gente já sabia que as realidades são diferentes, porém há questões bastante descabidas e até de problemas ideológicos", pontua o dirigente, porém sem exemplificar. 

Priscila de Oliveira Corrêa reúne dois desafios: é mãe de aluno da rede estadual e também atua como professora. Para ela, a iniciativa de oferecer aulas durante o período de suspensão das atividades presenciais é importante para que crianças e jovens não fiquem com tanto tempo ocioso. Ao mesmo tempo, a educadora avalia que muitos ainda não têm maturidade e a disciplina necessárias para estudar a distância, precisando de auxílio constante. 

'O virtual é muito difícil. Embora seja uma geração conectada, ainda não aprendeu a usar a tecnologia para o estudo. Pela TV, as aulas dependem 100% do aluno e da família, que nem sempre têm base boa para acompanhar e cobrar", observa. 

AJUDA DA FAMÍLIA É FUNDAMENTAL

Priscila diz que para o seu filho, por exemplo, ela precisou explicar como colocar os arquivos em nuvem (área em que se faz armazenamento de dados) para que pudesse reunir os conteúdos das aulas. "A tecnologia está aí, mas os alunos não foram preparados para isso. Pais e filhos não tiveram tempo hábil para aprender a mexer. Eu consigo ajudar meu filho, mas boa parte das famílias não."

Sob essa mesma perspectiva, Priscila também fala das dificuldades como professora. Mesmo com a experiência como tutora de Educação a Distância (EAD) na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), ela diz que a interação comum a suas aulas de Física está fazendo falta no processo de ensino-aprendizagem. "Minha aula não é reprodução de conteúdo; ela é preparada no relacionamento com o aluno. Coloco uma situação-problema e ele traz suas percepções. Gravar um vídeo é algo muito engessado", pontua.

As dificuldades encontradas por alunos já se refletem na adesão às aulas. Na primeira semana, Priscila conta que, na escola em que dá aulas na Serra, havia cerca de 60% de participação. A partir da segunda semana, já reduziu para menos de 50% e está em queda.

"Observo que muitos alunos não sabem nem por onde começar. O mais prejudicado é o que não desenvolveu essa habilidade da organização. Também tem o lado da família que, mesmo presencialmente, muitas vezes não acompanha. Por isso, nessas aulas, tento trabalhar também habilidades emocionais, como ter foco e não desanimar diante da circunstância em que vivemos."

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Estudantes sentem dificuldades. Falta concentração para estudar em casa. Crédito: janeb13/Pixabay

É PRECISO TER DISCIPLINA, MAS FALTA ESTÍMULO

Leonardo Lares tem dois filhos na rede pública: um, na municipal de Vitória, e outro na estadual. Ele ressalta que o acompanhamento da família é fundamental para que as perdas sejam menores neste momento. Todos os dias os meninos estudam de duas a três horas. "É claro que há momentos em que estão ali, diante da TV, com o controle do lado e têm vontade de trocar o canal porque, nas aulas, falta a interação. A escola  é o local em que há condição de interagir imediatamente, e a dúvida sanada ali, na hora. Meu filho que está no 1º ano também diz que tem conteúdo que viu na 7ª, 8ª série, e acaba faltando estímulo", comenta.

Por outro lado, Leonardo reconhece a importância das atividades propostas pela Sedu para que os alunos mantenham uma rotina de estudos. A maior preocupação, no entanto, é que esse período seja contabilizado como dias letivos. "O que está acontecendo agora não é culpa de ninguém. É uma pandemia e mais vale salvar vidas do que cumprir um calendário escolar. As atividades de agora são de reforço e, na minha opinião, não podem ser consideradas como aulas dadas", frisou.

Christovam Mendonça, por sua vez, ressalta que esse é justamente um ponto positivo das iniciativas do Estado: as aulas à distância não vão ser computadas como dias letivos sem antes uma avaliação da equipe pedagógica quando as atividades presenciais forem retomadas.

"Será feita uma avaliação junto a professores e pedagogos para ver se é possível aproveitar o que foi ensinado, ou se vai contar apenas como reforço. Se houve um resultado bom, se conseguiu atingir os objetivos. Essa vai ser uma realidade certamente diferente em cada região, inclusive em função do acesso às tecnologias. É tudo muito experimental e ninguém pode dizer que não vai dar certo. As dificuldades são hoje apresentadas e servem como termômetro para ir aprimorando. E, na avaliação final, se os gestores entenderem que foi positivo, que dá para substituir dias do calendário, vamos construir juntos o melhor caminho", defende o diretor do Sindiupes.

SECRETARIA DE EDUCAÇÃO SATISFEITA COM A ESTRATÉGIA

O secretário estadual da Educação, Vitor de Angelo, diz que, nesse quase um mês do programa EscoLar - a TV começou no dia 15 de abril e o aplicativo, uma semana depois - teve todo tipo de manifestação. Pessoas com dificuldades em usar a tecnologia, críticas e também muitos entusiastas da estratégia. 

"Tenho uma avaliação positiva, não só por ser gestor da pasta, mas porque tenho visto testemunho de diretores muito animados. É um desafio para todos e, na velocidade em que fizemos, algumas coisas vão sendo corrigidas e ajustadas no meio do caminho", argumenta.  

O professor Vitor Amorim de Angelo é o secretário de Estado da Educação
Secretário de educação, Vitor de Angelo avalia estratégia de forma positiva. Crédito: Carlos Alberto Silva

Vitor de Angelo diz que a fase atual é de monitoramento das atividades realizadas, a partir do qual será possível realizar eventuais ajustes, e também preparar uma equipe de professores do Estado que vai fazer vídeos para, aos poucos, substituir o conteúdo disponibilizado pelo governo do Amazonas. 

Essa é uma solução às críticas feitas em relação à produção do Norte do país. Um conjunto de 266 educadores apresentou propostas, entre as quais será feita a seleção daqueles que vão produzir as videoaulas locais. O secretário informou que não haverá condições de preparar conteúdo suficiente para substituir todo o material amazonense, mas que vai fazer uma substituição gradativa. A previsão é de começar ainda em maio.

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