ASSINE
Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes e da ANDHEP

Devemos pensar em educação e ensino em época de pandemia

Mesmo com o acesso disponibilizado, o isolamento social dos estudantes vai levando à sua alienação da sociedade e do seu entorno, de modo que eles começam a esquecer as diferenças que permeiam a sociedade onde vivem

Publicado em 22/04/2020 às 05h00
Atualizado em 22/04/2020 às 05h03
Educação à distância
Educação à distância. Crédito: Divulgação

A educação no Brasil é garantida pela nossa Constituição como um direito fundamental do ser humano, sendo direito inalienável e irrenunciável garantido a todos no Brasil. Assim, não só cidadãos brasileiros, como também estrangeiros que estejam no país, têm direito ao ensino público gratuito.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, que regulamenta esse direito fundamental, sofreu várias alterações ao longo dos últimos anos, muitas delas visando a incluir e regulamentar a possibilidade de ensino à distância por meio da internet. Essa modalidade de ensino à distância é o que vem permitindo a continuidade de atividades letivas em escolas públicas e privadas, bem como nas universidades e faculdades nestes dias de pandemia. Mas será que essa é uma solução adequada?

O objetivo da educação como direito fundamental humano é juntar pessoas para pensar de forma crítica a sua realidade social, política e ambiental. Se a educação é unir pessoas para pensar juntas, ao separá-las e colocá-las à distância em frente a um computador, celular ou smart TV,  certamente serão interrompidos o contato físico, a troca de afetos e o intercâmbio intelectual entre os estudantes.

Essa falta de contato presencial não é facilmente substituída pelos mecanismos disponíveis em hoje em dia para a transmissão de informações via internet. A internet não transmite sensações, afetos, carinho, reconhecimento e compreensão que só podem ser demonstrados pelos educadores presencialmente.

A incapacidade do ensino à distância dar conta de uma educação integral do ser humano é tema que vem sendo debatido há algum tempo, mas a ganância de grupos econômicos que dominam o mercado do ensino privado no Brasil vinha espalhando a falácia de que a educação à distância serve para democratizar o ensino e permitir maior inclusão social. Ora, a primeira incorreção nessa tese está no fato de que milhares de pessoas não têm acesso à internet ou não têm um aparelho adequado para acessar às plataformas onde as aulas à distância são disponibilizadas.

E mais: mesmo com o acesso disponibilizado, o isolamento social dos estudantes vai levando à sua alienação da sociedade e do seu entorno, de modo que eles começam a esquecer as diferenças que permeiam a sociedade onde vivem. Ao estar em sala de aula, o estudante percebe que ao seu lado estão sentados negros, índios, brancos, pardos, mulheres, homens, gays, lésbicas, mulheres trans, homens trans, pobres, ricos, estrangeiros... enfim, uma diversidade que a sua tela de computador ou celular não dá conta de mostrar.

Ainda, é preciso considerar que as aulas virtuais são aulas gravadas por uma pessoa que sequer sabe ou tem conhecimento do seu público, não tem contato visual com os alunos e alunas, não percebe as suas angústias nos bancos escolares e universitários. O professor alheio à realidade dos seus alunos é o pior que pode existir. Como ensinar se ele não vê para quem está ensinando? Como gravar aulas e aulas em estúdios, sem sequer saber para quem ele está falando? Como falar com um aparelho e imaginar que ali estão seres humanos?

Brunela Vincenzi

Articulista

" A idolatria ao ensino à distância tem que acabar! Falar sozinho sem intervenção e debate provocado pela presença de estudantes em sala de aula é o mesmo que lecionar para um grupo de pessoas presas por correntes às suas carteiras, com as bocas amordaçadas e olhos vendados."

A idolatria ao ensino à distância tem que acabar! Não, não, não, mil vezes não, educar não é ficar em frente a uma câmera falando para pessoas que não são vistas, não são sentidas, nem percebidas. Falar sozinho sem intervenção e debate provocado pela presença de estudantes em sala de aula é o mesmo que lecionar para um grupo de pessoas presas por correntes às suas carteiras, com as bocas amordaçadas e olhos vendados.

Que pais, mestres, pedagogos e estudantes ecoem os princípios basilares do direito fundamental à educação em nosso país nestes dias de crise na saúde, e neguem-se a aceitar a educação virtual à distância. Exijam que a educação seja presencial, direta, com troca de afetos, com debates; e lembrem-se queremos formar seres humanos e não robôs. Vídeos, aulas gravadas repetidas infinitamente visam formar robôs, nós somos seres humanos e queremos educação para humanos!

É certo que não podemos exigir que as escolas e universidades retomem as aulas presenciais agora, pois é preciso respeitar as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e ficar em casa com as crianças, adolescentes e jovens até o fim da pandemia. Temos que aceitar que os tempos são diferentes e que eventualmente o tempo de isolamento social será mais um tempo de reflexão e vida familiar do que um tempo de horas aulas.

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.