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Águia Branca: professor perdeu esposa, pai, irmã e tio para a Covid-19

Em apenas 15 dias, o professor Valdecir Lotério viu a família ser devastada pelo coronavírus; em casa, ele ficou apenas com os dois filhos pequenos. Município vive uma explosão de casos e mortes pela doença

Colatina / Rede Gazeta
Publicado em 08/04/2021 às 19h35
O professor Valdecir Lotério e os dois filhos pequenos.
O professor Valdecir Lotério e os dois filhos pequenos. Crédito: TV Gazeta Noroeste | Reprodução

Em Águia Branca, no Noroeste do Espírito Santo, não é difícil encontrar quem já perdeu um amigo, vizinho, ou familiar para a Covid-19. A cidade de 10 mil habitantes registrava até três mortes por mês causadas pelo coronavírus, mas no mês de março foram 25. Mais de 700% de aumento.

Entre esses casos, uma mesma família perdeu quatro pessoas em duas semanas. O professor Valdecir Lotério viu a morte da esposa, da irmã, do pai e de um tio. Em casa, ele ficou com os dois filhos pequenos.

Valdecir Lotério

Professor

"Era uma situação que eu não imaginava. Perder uma pessoa já é difícil, imagina então perder quatro pessoas em 15 dias . O que mais me dói são as crianças, que só perguntam pela mãe e às vezes pela pela tia"

Segundo Valdecir, o primeiro a morrer foi o tio, Augusto Lotério, com 63 anos de idade, em 14 de março. Seis dias depois, o pai, Osvaldo Lotério, de 80 anos, também não resistiu á Covid-19.

No dia 28 de março, Valdecir perdeu a irmã Elizangela Lotério, de 40 anos. Ela tinha atuado como secretária de Saúde e Educação na cidade. Dois dias depois, Jaqueline, esposa de Valdecir, morreu aos 41 anos.

EXPLOSÃO DE CASOS E MORTES POR COVID-19

A cidade de Águia Branca vive uma explosão nos números de Covid-19. O número de mortes em março é maior que a soma de todos os óbitos ocorridos pelo novo coronavírus nos meses anteriores desde a chegada da pandemia ao município em 2020.

De acordo com dados do Painel Covid, o número de óbitos por conta da Covid-19 registrados em março em Águia Branca é de 25. Somando as mortes pela doença de todos os meses anteriores, o número é de 15.

Dados Covid-19 - Águia Branca -
Número de óbitos confirmados em Águia Branca. Crédito: Painel Covid-19

Com esses índices, Águia Branca se destaca na lista de municípios com a maior mortalidade por Covid-19 a cada 10 mil habitantes no Estado, de acordo com dados de até o dia 31 de março. A taxa do município do Noroeste capixaba é de 38,42 óbitos/10 mil habitantes, mais que o dobro do índice estadual — que estava em 18,45 mortos pela doença a cada 10 mil habitantes até o dia 31 de março— como mostrou reportagem de A Gazeta publicada na última segunda-feira (5).

O cálculo da taxa considera o número de mortes pela doença e os habitantes de cada cidade, o que ajuda a avaliar o impacto destes óbitos em relação à população local. Foram utilizadas as informações do Painel Covid-19, ferramenta da Sesa que reúne as estatísticas estaduais relativas à doença.

TAXA DE MORTALIDADE POR 10 MIL HABITANTES

  1.  Águia Branca - 38,42 
  2. São José do Calçado - 34,14 
  3. Marataízes - 29,32 
  4. Presidente Kennedy - 29,16 
  5. Piúma - 26,30 
  6. Água Doce do Norte - 25,67 
  7. Jerônimo Monteiro - 25,28 
  8. Ibatiba - 24,60 
  9. Barra de São Francisco - 24,23
  10.  Itapemirim - 23,66

O QUE EXPLICA OS ALTOS ÍNDICES?

Segundo o secretário de Saúde do município, Marlos Anizesky Bergami, o crescimento nos índices se dá por diversos fatores. "Não dá para apontar um culpado. É um somatório. O relaxamento da população no fim de ano e período de carnaval, o relaxamento das medidas restritivas, as aglomerações e a presença da variante. A conta chegou", avalia.

Bergami afirma que desde o fim de fevereiro, o município começou a sentir uma pressão maior no sistema de saúde. "Chegamos a 40 atendimentos por dia, confirmando 15 desses casos como positivos. Às vezes, tínhamos aqui o paciente dentro da ambulância por uma hora aguardando atendimento. Hoje já diminuiu um pouco", afirma.

Águia Branca, Noroeste do ES
Cidade de Águia Branca. Crédito: Prefeitura de Águia Branca

Segundo o secretário, os índices mostraram que a população mais jovem passou a figurar entre as vidas perdidas. "Nós tivemos dois óbitos de pessoas na faixa dos 40, algo fora do padrão. Geralmente, os vitimados são mais idosos", destaca. Para tentar conter um colapso, Bergami afirma que o município decretou medidas mais restritivas que as impostas pelo Estado na quarentena e para os municípios em risco extremo e alto. "Com o lockdown geral e a antecipação dos feriados, conseguimos abaixar um pouco os índices. Hoje já estamos confirmando menos casos e atendendo menos pessoas", diz.

Além disso, a cidade de Águia Branca fica ao lado da Barra de São Francisco, sendo comum o trânsito de pessoas entre os dois municípios. A cidade vizinha foi apontada pela Sesa como um dos epicentros de uma nova variante mais contagiosa do coronavírus. A variante que também foi identificada em Águia Branca.

CORONAVÍRUS EM ÁGUIA BRANCA

Segundo dados do Painel Covid-19, mantido pela Sesa e atualizado nesta quinta-feira (8), Águia Branca registrou 1.733 casos confirmados da doença, 1.499 casos curados e 46 óbitos. A taxa de letalidade no município é de 2,7%, acima da taxa estadual que está em 2,0%.

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