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Salário de presidente da Petrobras é só a ponta do iceberg

Ao reclamar da remuneração do presidente demissionário da estatal, Bolsonaro mostra, involuntariamente, quais deveriam ser as  prioridades de seu governo: a reforma administrativa e a agenda de privatizações

Publicado em 26/02/2021 às 02h04
Petrobras
Sede da Petrobras no Rio de Janeiro. Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Quando Jair Bolsonaro reclamou do salário do presidente demissionário da Petrobras, Roberto Castello Branco, o presidente da República chamou a atenção para as disparidades salariais no país. Esqueceu-se contudo de ressaltar que se trata de uma empresa de economia mista e de capital aberto, com peso internacional no setor de petróleo, que precisa dos executivos mais bem qualificados. Os proventos, portanto, precisam ser atraentes no mercado.

O mais correto é falar em remuneração, com a soma de salários fixos, bônus e benefícios. Após a provocação de Bolsonaro, a própria Petrobras soltou um comunicado no qual fez alguns esclarecimentos: "A remuneração total anual do presidente da Petrobras, incluindo o bônus, corresponde a 25% da remuneração total anual dos presidentes de outras empresas do mercado nacional de porte equivalente, considerando-se a faixa mediana de remuneração".

Reportagem do Estado de S. Paulo realizou um levantamento que permite algumas comparações. Roberto Castello Branco ganhou R$ 2,7 milhões em 2019, o que representaria um salário de 226 mil ao mês. No mesmo período,  o salário médio dos presidentes de companhias abertas que compõem o Ibovespa  foi de R$ 11,3 milhões, ou R$ 940 mil por mês. 

Com dados de um levantamento envolvendo 71 companhias, realizado pelo especialista em governança corporativa Renato Chaves, ex-diretor da Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil, a Petrobras ficou na 58º posição no ranking de maiores salários de presidentes de empresas.

Vale ressaltar que mudanças no modelo de remuneração dos executivos da Petrobras adotadas em 2019 passaram a atrelar o pagamento de salários ao resultado financeiro da companhia. Ganham mais se a empresa lucra mais, portanto.

Há muitas críticas aos salários médios pagos a executivos de alto escalão no país em função da desigualdade provocada dentro das próprias empresas. No mesmo levantamento, contudo, a Petrobras também se mostrou como uma das empresas com menores disparidades nesse quesito, com o presidente recebendo oito vezes mais do que o salário médio dos funcionários. Há casos em que a remuneração do CEO chega a ser 600 vezes maior do que a média de seus subordinados.

A questão dos baixos salários no país está totalmente associada aos caos estrutural. Um país com déficits educacionais históricos é incapaz de consolidar um mercado de trabalho pulsante, competitivo pela qualificação e não pela escassez de vagas, com remunerações mais altas. É algo que cabe a quem governa: promover as reformas estruturantes que permitam o crescimento econômico e a melhoria da educação.

Por outro lado, ironicamente Bolsonaro mostra preocupação com o contracheque do presidente da maior empresa do país e senta em cima da reforma administrativa, cuja principal meta deve ser o fim dos supersalários do funcionalismo, e da agenda de privatizações.

Levantamento do Ministério da Economia, divulgado no ano passado, mostrou que as estatais brasileiras pagam salários médios de até R$ 31,3 mil, sem contar as remunerações das diretorias executivas, que atingem em média até R$ 2,9 milhões por ano.

A indagação do presidente, se não fosse mais um de seus arroubos populistas, valeria como um questionamento que é o cerne da agenda liberal que o elegeu: o Estado brasileiro não pode mais se comprometer com gastos tão elevados. A resposta para isso é ele próprio que deve comandar. Falar em privatização, até mesmo da Petrobras, precisa deixar de ser um tabu. E reduzir as despesas com supersalários, inflados por um sem número de benefícios, deve ser o compromisso para um projeto de país mais justo.

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