Bolsonaro avança no populismo e Paulo Guedes vira artigo de decoração

Bolsonaro se arrisca a dar continuidade à dilapidação da Petrobras ao impor uma gestão equivocada como a dos governos petistas

Publicado em 23/02/2021 às 02h00
Governo
Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, em reunião no Ministério da Economia, em Brasília. Crédito: Edu Andrade/ Ascom/ ME

Para conquistar a confiança do mercado, o então candidato Jair Bolsonaro, notório estatista, passou por um batismo liberal formalizado com o embarque de Paulo Guedes no comando da equipe econômica, ainda durante a campanha de 2018. De heresia em heresia, Bolsonaro vem se distanciando da pregação que o levou ao Planalto e se aproxima do pecaminoso intervencionismo petista que ajudou a levar o país à bancarrota. As mudanças na Petrobras são a ponta de um iceberg, e se antevê mais uma catástrofe pela escolha errada de rota.

A imposição de um general para o comando da estatal é um flerte perigoso. Bolsonaro, ao assumir a guerra contra a política de preços dos combustíveis para afagar os caminhoneiros, escolhe o caminho simplista do populismo. E não é a primeira vez. Durante a paralisação da categoria, em 2018, o então pré-candidato se colocou ao lado dos descontentes, ciente do capital eleitoral naquele ano decisivo.

Com um discurso que propunha resolver as oscilações do preço do diesel na base da canetada, supunha que, na presidência, teria autoridade para resolver a questão em um passe de mágica, ignorando fatores intrincados como o preço do barril de petróleo no exterior, a flutuação do dólar e as demandas pelo produto.

O preço dos combustíveis foi protagonista naquela paralisação, dissolvido também na maioria das reivindicações. O movimento foi interrompido após o governo Temer propor medidas para acalmar os ânimos, entre elas a garantia de um subsídio para o óleo diesel. O imediatismo ficou patente, sem que pontos nevrálgicos da questão fossem tratados com a devida importância desde então.

fim do monopólio da Petrobras, questão central para um mercado mais competitivo, não conseguiu avançar como deveria. O resultado tem sido a estagnação produtiva e a perpetuação da insatisfação com a volatilidade dos preços. O arranjo necessário para fortalecer as cadeias produtivas e proteger o consumidor passa necessariamente por estratégias liberais, com mais empresas atuando no setor. 

A Petrobras,  controlada pela União, mas com capital aberto a milhares de investidores, muitos deles estrangeiros, tem um compromisso com a transparência. No dia 5 de fevereiro, o mercado foi surpreendido com a mudança da política de preços da Petrobras anunciada naquele dia, mas alterada já no primeiro semestre de 2020. No documento, a estatal admitiu que mudou a política de preços de trimestral para anual “estritamente para fins de gestão e diagnóstico interno”. 

A indicação do general da reserva Joaquim Silva e Luna para o posto do atual presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, que decidiu ficar até o fim do seu mandato na presidência, no dia 20 de março, causou os tremores esperados nesta segunda-feira (22), com as ações da Petrobras registrando um tombo de mais de 20%. É a maior queda percentual desde 9 de março de 2020, quando os papéis preferenciais despencaram 29,7% com a crise do novo coronavírus. A estatal acaba de perder quase R$ 100 bilhões em valor de mercado.

Ao sugerir intervenção na Petrobras, com bravatas anacrônicas como "o petróleo é nosso ou de um pequeno grupo?", o presidente acende o pavio das incertezas com a ameaças de não cumprir as regras do jogo. O resultado é a fuga de investidores, acentuando a perda de confiança no Brasil. É assim que emprego e renda vão embora, afetando a economia real, do dia a dia.

Bolsonaro se arrisca a dar continuidade à dilapidação da empresa ao impor uma gestão equivocada como a dos governos petistas. E o Espírito Santo não pode assistir a essa derrocada sem se impor, diante dos negócios da Petrobras no Estado. O impacto da má administração por aqui será inevitável.

A briga pública de Jair Bolsonaro sobre o comando da Petrobras se tornou uma questão autoritária, sobre quem manda mais, quando deveria adotar prudência. Mais do que isso, um compromisso por libertar a empresa das garras do Estado. O recado passado é o de que Paulo Guedes, aquele que já foi o superministro, transformou-se em artigo de decoração na Esplanada dos Ministérios, enquanto o governo que integra faz um retorno arriscado ao intervencionismo. Bolsonaro foi catequizado em um liberalismo de conveniências, que não suportou sua prepotência. A Petrobras ainda é um patrimônio brasileiro, não do presidente da República.

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