Publicado em 22 de fevereiro de 2021 às 16:24
- Atualizado há 5 anos
Em pouco mais de dois anos de mandato, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) acumula interferências em órgãos e outras áreas ligadas ao governo, como a recente intervenção na Petrobras, com a indicação do general Joaquim Silva e Luna para o comando da estatal. Outros Poderes também não escampam dessas iniciativas do presidente. >
Sempre que é questionado sobre sua ingerência em decisões e processos, Bolsonaro repete a tática de reafirmar a sua própria autoridade, disparando frases como "quem manda sou eu" e "a minha caneta funciona". Também já disse não ser um "presidente banana".>
No episódio mais rumoroso até aqui, a suspeita de interferência na Polícia Federal levou o titular do Planalto a ser investigado em inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal). Em andamento, a apuração foi aberta após o ex-juiz Sergio Moro deixar o Ministério da Justiça e acusá-lo de ingerência política na corporação.>
Já com a substituição de Roberto Castello Branco por Silva e Luna na presidência da Petrobras, que depende de confirmação pelo conselho da companhia, Bolsonaro provocou reação imediata do mercado, por passar a mensagem de intromissão indevida do Executivo na empresa, o que suscitou comparações com os governos petistas.>
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"Não adianta a imprensa falar que eu intervi. Estão na mesma linha da questão da Polícia Federal, que eles não acharam nada de interferência minha no tocante à PF", disse ele em uma rede social no sábado (20).>
Nesta segunda-feira (22), o titular do Planalto afirmou que "ninguém vai interferir na política de preços" da Petrobras. "O que eu quero da Petrobras e exijo é transparência e previsibilidade, nada mais além disso.">
Veja episódios em que rompantes e decisões unilaterais de Bolsonaro nas esferas administrativa e política foram criticadas.>
Na sexta-feira (19), Bolsonaro anunciou em uma rede social que indicou o general Joaquim Silva e Luna para o comando da estatal no lugar de Roberto Castello Branco. A medida ocorreu em meio às críticas do presidente à política de preços da companhia e aos últimos reajustes nos combustíveis.>
Conforme publicou o jornal Folha de S.Paulo, no fim de semana a expectativa entre analistas e investidores era que as perdas para a empresa cheguem a R$ 100 bilhões. Já na noite de sexta, a Petrobras registrou R$ 28,2 bilhões em redução de valor de mercado no Brasil e outros R$ 30 bilhões com os papéis no exterior.>
Na manhã desta segunda, as ações preferenciais (mais negociadas) da Petrobras caíam 19,50%, a R$ 22,00 cada, e as ordinárias (com direito a voto), recuavam 19,55 %, a R$ 21,80.>
Um dia antes, Bolsonaro já havia avançado sobre a tomada de decisões da estatal. Ele informou que vai zerar os tributos federais incidentes sobre o óleo diesel durante dois meses, a partir de 1º de março, mas não explicou como o governo vai compensar a perda de receita no orçamento.>
O episódio reforçou as discussões sobre interferência do governo na empresa, o que já vinha impactando negativamente as ações.>
Em outro caso envolvendo a estatal, Bolsonaro defendeu publicamente em 2019 que a Petrobras rompesse contratos com o escritório de advocacia do presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz.>
O cancelamento dos contratos ocorreu dias após o chefe do Executivo ter atacado o advogado, cujo pai desapareceu durante a ditadura militar (1964-1985).>
Em 27 de abril de 2020, três dias depois de Sergio Moro pedir demissão do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o STF (Supremo Tribunal Federal) abriu apuração sobre a veracidade das acusações do ex-juiz.>
O inquérito investiga se Bolsonaro violou a autonomia da Polícia Federal. Segundo Moro, o titular do Planalto queria ter acesso a informações e relatórios confidenciais de inteligência da corporação.>
A gota d'água para o pedido de demissão de Moro foi a exoneração do então diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, publicada no Diário Oficial da União com a assinatura do então ministro e do presidente. Moro, entretanto, não assinou a medida formalmente nem foi avisado oficialmente pelo Palácio do Planalto de sua publicação.>
Em um dos últimos atos de 2020 antes do início do recesso, o ministro Alexandre de Moraes prorrogou o inquérito em curso no STF. A próxima etapa do caso na corte deverá ser o julgamento que discutirá se o presidente pode depor por escrito ou se deve ser ouvido pelos investigadores presencialmente.>
Em 2019, Bolsonaro também avançou sobre decisões internas da PF, ao se antecipar à corporação e anunciar a substituição do então superintendente do órgão no Rio de Janeiro, Ricardo Saadi. Um presidente da República tomar a dianteira em comunicados do tipo foi algo inédito.>
A instituição divulgou nota afirmando que Saadi seria substituído por Carlos Henrique Oliveira, mas Bolsonaro disse ter acertado previamente que o cargo seria ocupado pelo superintendente da PF no estado do Amazonas, Alexandre Silva Saraiva.>
Em 2019, ao indicar Augusto Aras para a PGR (Procuradoria-Geral da República), Bolsonaro desprezou a lista tríplice votada por procuradores da República e tradicionalmente levada em conta pelos presidentes da República desde 2003. Apesar de uma tradição, a opção pela lista tríplice não é obrigatória.>
Ele escolheu um nome que correu por fora, de perfil conservador e que buscou mostrar afinidade com suas ideias. A condução do processo foi chamada na época de retrocesso e sofreu críticas por sugerir risco à autonomia do Ministério Público.>
Um dos principais reparos à atuação de Aras é o de alinhamento aos interesses do presidente da República.>
Neste ano, o PGR disse ao STF que tem sido "zeloso na apuração de supostos ilícitos atribuídos ao chefe do Executivo" e que já abriu nove apurações para investigar condutas de Bolsonaro na pandemia.>
Disposto a eleger o líder do centrão, deputado Arthur Lira (PP-AL), para a presidência da Câmara dos Deputados -e colocar um potencial aliado no comando da Casa-, Bolsonaro admitiu intervenção do Poder Executivo na eleição do Legislativo e disse que, se Deus quisesse, iria influir na presidência da Casa.>
"Vamos, se Deus quiser, participar, influir na presidência da Câmara, com estes parlamentares, de modo que possamos ter um relacionamento pacífico e produtivo para o nosso Brasil", afirmou Bolsonaro dias antes de ser confirmada a vitória de Lira para o posto.>
Para fortalecer a candidatura do deputado, o governo prometeu cargos a congressistas e acenou com a liberação de recursos de emendas parlamentares em troca de apoio. O Planalto ofereceu até a recriação de ministérios para acomodar indicados do centrão.>
Bolsonaro chegou a determinar a demissão do presidente do Banco do Brasil, André Brandão, no início deste ano, mas foi convencido a recuar pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.>
O titular do Executivo ameaçou remover Brandão da direção do BB depois do anúncio de um plano de demissão voluntária e do encerramento de 361 unidades do banco. A medida de reestruturação, que irritou Bolsonaro, tinha o apoio de Guedes e de outros membros da equipe econômica.>
Brandão permanece no cargo e disse que houve um problema de comunicação.>
Em outro episódio envolvendo o BB, Bolsonaro mandou tirar do ar em 2019 uma campanha publicitária do banco dirigida ao público jovem com atores que representavam a diversidade racial e sexual. Ele também ordenou o afastamento do diretor de marketing da instituição, que aprovou as propagandas.>
"A linha mudou. A massa quer o quê? Respeito à família. Ninguém quer perseguir minoria nenhuma, nós não queremos que dinheiro público seja usado dessa maneira", disse Bolsonaro na época, afirmando que anúncios deveriam seguir a sua orientação.>
Por causa do ocorrido, o governo federal chegou a tomar a decisão de que empresas estatais deveriam submeter previamente à avaliação da Secom (Secretaria de Comunicação Social) campanhas de natureza mercadológica. Como a medida contraria a Lei das Estatais, o Planalto acabou recuando e desistindo da análise prévia obrigatória.>
Em fevereiro de 2020, Bolsonaro anunciou ter "implodido" o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), com a demissão da então presidente e de integrantes da diretoria do órgão. Ele nomeou um militar do Exército para o comando da instituição.>
As exonerações na autarquia federal, vinculada ao Ministério da Economia, foram decididas porque Bolsonaro estava insatisfeito com mudanças que envolveriam tacógrafos e provocaram, segundo ele, reclamações de motoristas e taxistas.>
Em diferentes momentos, Bolsonaro requisitou a AGU (Advocacia-Geral da União) para tarefas que podem ser consideradas uma extrapolação do escopo institucional do órgão.>
Entre as medidas que corroboram as críticas de uso da máquina pública e judicial para defesa de interesses pessoais, está a declaração feita por Bolsonaro neste mês de que acionou a AGU para tomar providências sobre a reclamação de que seguidores não estariam conseguindo postar fotos na página do presidente no Facebook.>
"Já liguei para a AGU para ver o que a gente pode fazer", disse. A Folha de S.Paulo revelou que Bolsonaro tem o recurso de envio de fotos por comentários desativado em seu perfil na rede social.>
O governo também usou a AGU para entrar com uma ação no STF contra a decisão do ministro Alexandre de Moraes de suspender contas de redes sociais de apoiadores do governo investigados em inquérito da corte.>
Em 2020, Bolsonaro desautorizou a AGU no episódio da posse do delegado Alexandre Ramagem no comando da Polícia Federal, barrada por Moraes. O presidente mandou o órgão recorrer da decisão do ministro, mesmo depois de a AGU divulgar uma nota informando que não contestaria o ato do STF.>
"É dever dela [AGU] recorrer", disse Bolsonaro. "Quem manda sou eu, e eu quero o Ramagem lá." A AGU impetrou o recurso, que acabou rejeitado pelo magistrado.>
O Ministério da Justiça foi mobilizado para entrar com um habeas corpus em favor do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, intimado pelo STF para explicar ataques feitos à corte por ele.>
A petição, assinada pelo ministro da Justiça, André Mendonça, foi considerada algo inusual, já que a tarefa, em tese, caberia à AGU ou a um advogado pessoal. Membros do governo disseram que enviar um documento com a assinatura de Mendonça foi uma maneira de dar um caráter político, e não técnico, à manifestação, em um momento no qual o Executivo estava em atrito com o Judiciário.>
Ainda na gestão do ex-juiz Sergio Moro na pasta, um dos primeiros focos de tensão do então ministro com o presidente da República se deu em torno da nomeação da especialista em segurança pública Ilona Szabó como suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, em 2019.>
Moro teve que recuar da escolha de Ilona após campanha de bolsonaristas nas redes sociais. Os apoiadores lembraram que ela, além de divergir de Bolsonaro em temas como armamento e política de drogas, havia se posicionado contra o então candidato na campanha eleitoral de 2018.>
O presidente confirmou publicamente em duas ocasiões ter pressionado o então auxiliar pela suspensão da nomeação. Ele afirmou que ela possui posicionamentos incompatíveis com o governo e disse que "não foi fácil conseguir" a saída por causa da resistência de Moro.>
O ex-ministro declarou em um depoimento à PF que a revogação do convite foi pedida por Bolsonaro e que ele relutou em aceitar a ordem, mas teve que ceder.>
Com a insatisfação de Bolsonaro diante do aumento do desmatamento na Amazônia, o presidente do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o físico Ricardo Galvão, responsável pela divulgação do dado, foi exonerado em 2019.>
Bolsonaro queria que as informações fossem discutidas previamente com o Palácio do Planalto antes de serem tornadas públicas.>
O presidente, dois dias após a decisão de exonerar Galvão, indicou em entrevista ter ordenado ao ministro Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) a demissão. "Está a cargo do ministro. Eu não peço, certas coisas eu mando", afirmou.>
Os sinais de interferência do Planalto na Receita Federal, sobretudo na unidade do Rio de Janeiro, começaram no primeiro ano do governo, em 2019. As pressões se referem principalmente à troca de servidores em postos de comando do órgão.>
Em meio a apurações que atingem autoridades e também familiares e pessoas próximas a Bolsonaro, um subsecretário-geral do posto fluminense chegou a ser substituído pelo governo em 2019 por se posicionar de forma contrária às intervenções.>
Questionado na época sobre as ingerências na Receita e na PF, o presidente da República afirmou: "Está interferindo? Ora, eu fui [eleito] presidente para interferir mesmo, se é isso que eles querem. Se é para ser um banana ou um poste dentro da Presidência, tô fora".>
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