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Ricardo Salles passou, mas é preciso ficar de olho na "boiada"

Ministro responsável por esfarelar o prestígio brasileiro nas discussões internacionais sobre o meio ambiente deixou a pasta, mas o negacionismo ambiental ainda deve pautar a área

Publicado em 28/06/2021 às 02h00
Ministro
O ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Aquino Salles, e o presidente da República, Jair Bolsonaro. Crédito: Marcos Correa/ PR

saída de Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente tem valor mais simbólico do que concreto, e mesmo que não represente uma guinada, já que seu sucessor parece se alinhar à política de desmonte ambiental do presidente Jair Bolsonaro, ela pode ao menos sinalizar uma reaproximação nas negociações ambientais internacionais, sobretudo com os Estados Unidos.  

Integrantes do governo americano já afirmam que o diálogo, interrompido em maio, quando Salles foi alvo de investigação da Polícia Federal por suposto favorecimento de empresários do setor madeireiro, pode ser retomado nas próximas semanas. Havia um desconforto dos EUA com a situação, superada agora que o novo chefe da pasta não é mais alguém sob suspeição judicial.

No cenário internacional, Ricardo Salles foi prodigioso no esfarelamento do prestígio brasileiro nas discussões sobre o tema. Um protagonismo que, quando bem aproveitado, colocou o Brasil na vanguarda do desenvolvimento sustentável. Afinal, trata-se do país que é guardião de importantes biomas, da Amazônia ao Pantanal. 

A atuação ecológica brasileira nas últimas décadas contribuiu para a construção da noção hoje dominante em todo o planeta: a geração de riquezas precisa estar obrigatoriamente conectada com mecanismos de proteção ambiental. Com compromissos firmados e metas a serem cumpridas.

O Ministério do Meio Ambiente, na gestão Bolsonaro, deixou de ser a casa das políticas de proteção ambiental para se tornar um facilitador de projetos que normalmente encontram impeditivos nas legislações ambientais, sob o pretexto de viabilizar o desenvolvimento.

Esse anacronismo é nocivo, pelo fato de as relações comerciais internacionais serem cada vez mais guiadas por protocolos ambientais. Ninguém quer pagar a conta da destruição da biodiversidade e do aquecimento global, então transparência e comprometimento são componentes indispensáveis para governos e empresas de todo o mundo.

O Ministério do Meio Ambiente, sob Salles, deixou de ser um esperado contrapeso para o desenvolvimentismo irresponsável para simplesmente se aliar a ele, sem nenhum tom crítico. As decisões precisam obrigatoriamente ser equilibradas, inclusive para promover a desburocratização da área. 

O que não significa cruzar os braços quando o desmatamento avança, batendo recordes de destruição. Ou adotar um discurso negacionista e debochado diante de dados, ignorando pesquisas e levantamentos que são a base para qualquer ação ou política pública para proteger os recursos naturais.

Salles foi um fantoche de Bolsonaro em uma área sensível que acabou sequestrada ideologicamente pelo bolsonarismo. O negacionismo ambiental antecipou o negacionismo pandêmico com suas teorias conspiratórias envolvendo o aquecimento global e os interesses internacionais. Em um governo que ignora os fatos e abraça os devaneios.

Salles tentou "passar a boiada", em suas próprias palavras, tentando aproveitar a comoção da pandemia para aprovar leis controversas na área ambiental. Joaquim Alvaro Pereira Leite, que desde setembro estava à frente da Secretaria da Amazônia e Serviços Ambientais, toma o seu lugar com o compromisso de mais transparência e ação, mas traz no currículo o peso  de ter sido conselheiro, entre 1996 e 2019, da Sociedade Rural Brasileira (SRB), uma importante fiadora da bancada ruralista no Congresso.

O mundo está de olho nas negligências ambientais do país, sobretudo os parceiros comerciais. Inclusive, no setor do agronegócio. O governo brasileiro tem a chance de começar a limpar sua imagem. Não se trata de uma questão meramente ambiental, é também econômica. O país precisa voltar a falar a língua internacional que ele mesmo ajudou a forjar: o planeta está em risco, e cada nação precisa fazer a sua parte para conter a degradação do meio ambiente. O Brasil precisa honrar o seu próprio legado.

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