O mês nem chegou ao fim, e esta sentença já pode ser proferida sem erro: março foi de derrotas pesadas para as mulheres. Um mês em que o machismo e a misoginia saíram das sombras e se expuseram sem pudores: na emboscada de um estupro coletivo de uma adolescente que só foi noticiado neste mês e chocou o país, no estudante que usou Inteligência Artificial para forjar a nudez de uma adolescente de 14 anos e depois compartilhar as imagens na internet, na trend do TikTok que, em pleno 8 de março, incitava o ódio contra as mulheres, mostrando as mais diversas reações violentas de jovens ao "não" recebido delas.
Todos episódios em que o menosprezo pelas mulheres deram o comando, com diferentes degraus de violência que contribuem para colocá-las em um patamar de inferioridade, como objetos de posse, sem o direito de tomar decisões sobre a própria vida. Nessa escalada é que se caminha para a mais extrema das violências de gênero, o feminicídio. O que mostra que a criminalização da misoginia viria bem a calhar.
Mas nenhuma sensação de que as coisas estavam estranhas demais neste mês das mulheres poderia prever esta tragédia tão simbólica, o assassinato de uma mulher de destaque na segurança pública capixaba, que escolheu o combate ao feminicídio como bandeira pessoal e profissional. A morte de Dayse Barbosa, a primeira mulher a comandar a Guarda Municipal de Vitória, não é diferente de nenhum dos quatro feminicídios que acontecem em média todo dia no país. Mas deixa um gosto ainda mais amargo, inclusive de desesperança. E é contra esse sentimento que toma conta que, como sociedade, devemos lutar.
O engajamento dessa mulher precisa continuar servindo de exemplo para todos. Não pode haver mais tanta covardia, e os homens são cada vez mais exigidos nessa batalha, podando pela raiz as microviolências sofridas pelas mulheres quando são testemunhas delas. Com tantos casos envolvendo adolescentes, fica estridente a necessidade de uma revolução educacional e familiar, com políticas públicas consistentes, com foco na ação concreta, que interrompam esse ciclo infindável de violência.
O exemplo de que é possível está bem perto de nós, quando nos lembramos que Vitória passou mais de 650 dias sem registro de feminicídio. Justamente a cidade da qual Dayse era uma guardiã. Mas não significa que não houve violência: as denúncias de lesões corporais, ameaças e perseguições contra mulheres cresceram no período. O que fez a diferença foi o aumento das denúncias: "Elas permitem a intervenção antes que a violência atinja seu ápice, com a morte", analisou Sueli Lima e Silva, titular da Promotoria de Justiça da Defesa da Mulher de Vitória, na coluna de Vilmara Fernandes, em janeiro passado.
O poder público, portanto, precisa garantir que as mulheres vítimas de tentativas de feminicídio recebam o suporte necessário para não entrarem na estatística. Em 2025, o Espírito Santo registrou queda no número de feminicídios, mas viu as tentativas crescerem. É nesse ponto que entra todo o aparato jurídico, como a adoção de medidas protetivas, para garantir níveis mais altos de proteção.
O sorriso de Dayse Barbosa estampado na foto passou a ser só a lembrança de uma vida que ainda tinha muito a oferecer a este mundo, como a de tantas outras mulheres. Mais que a ironia de ser uma profissional que se colocava à frente nas trincheiras contra a violência de gênero, mais que a sensação de vulnerabilidade sentida por toda mulher neste momento, nossas mentes não podem ficar impregnadas de um sentimento de que não estamos conseguindo, como sociedade, encontrar um caminho. A memória de Dayse pede que continuemos lutando por um destino melhor para todas as mulheres. Não só em março, mas em todos os meses do ano.
LEIA MAIS EDITORIAIS
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.