Não podemos nos conformar com um mês das mulheres em que o machismo venceu

O sorriso de Dayse Barbosa estampado na foto passou a ser só a lembrança de uma vida que ainda tinha muito a oferecer a este mundo, como a de tantas outras mulheres que tiveram o mesmo destino

Publicado em 24/03/2026 às 01h00
Dayse Barbosa Mattos, comandante da Guarda Municipal de Vitória morta pelo namorado
Dayse Barbosa Mattos, comandante da Guarda Municipal de Vitória morta pelo namorado. Crédito: Instagram guardadevitoria_dayse

O mês nem chegou ao fim, e esta sentença já pode ser proferida sem erro: março foi de derrotas pesadas para as mulheres. Um mês em que o machismo e a misoginia saíram das sombras e se expuseram sem pudores: na emboscada de um estupro coletivo de uma adolescente que só foi noticiado neste mês e chocou o país, no estudante que usou Inteligência Artificial para forjar a nudez de uma adolescente de 14 anos e depois compartilhar as imagens na internet, na trend do TikTok que, em pleno 8 de março, incitava o ódio contra as mulheres, mostrando as mais diversas reações violentas de jovens ao "não" recebido delas.

Todos episódios em que o menosprezo pelas mulheres deram o comando, com diferentes degraus de violência que contribuem para colocá-las em um patamar de inferioridade, como objetos de posse, sem o direito de tomar decisões sobre a própria vida. Nessa escalada é que se caminha para a mais extrema das violências de gênero, o feminicídio. O que mostra que a criminalização da misoginia viria bem a calhar.

Mas nenhuma sensação de que as coisas estavam estranhas demais neste mês das mulheres poderia prever esta tragédia  tão simbólica, o assassinato de uma mulher de destaque na segurança pública capixaba, que escolheu o combate ao feminicídio como bandeira pessoal e profissional. A morte de Dayse Barbosa, a primeira mulher a comandar a Guarda Municipal de Vitória, não é diferente de nenhum dos quatro feminicídios que acontecem em média todo dia no país. Mas deixa um gosto ainda mais amargo, inclusive de desesperança. E é contra esse sentimento que toma conta que, como sociedade, devemos lutar. 

O engajamento dessa mulher precisa continuar servindo de exemplo para todos. Não pode haver mais tanta covardia, e os homens são cada vez mais exigidos nessa batalha, podando pela raiz as microviolências sofridas pelas mulheres quando são testemunhas delas. Com tantos casos envolvendo adolescentes, fica estridente a necessidade de uma revolução educacional e familiar, com políticas públicas consistentes, com foco na ação concreta, que interrompam esse ciclo infindável de violência. 

O exemplo de que é possível está bem perto de nós, quando nos lembramos que Vitória passou mais de 650 dias sem registro de feminicídio. Justamente a cidade da qual Dayse era uma guardiã. Mas não significa que não houve violência: as denúncias de lesões corporais, ameaças e perseguições contra mulheres cresceram no período. O que fez a diferença foi o aumento das denúncias: "Elas permitem a intervenção antes que a violência atinja seu ápice, com a morte", analisou Sueli Lima e Silva, titular da Promotoria de Justiça da Defesa da Mulher de Vitória, na coluna de Vilmara Fernandes, em janeiro passado.

O poder público, portanto, precisa garantir que as mulheres vítimas de tentativas de feminicídio recebam o suporte necessário para não entrarem na estatística. Em 2025, o Espírito Santo registrou queda no número de feminicídios, mas viu as tentativas crescerem.  É nesse ponto que entra todo o aparato jurídico, como a adoção de medidas protetivas, para garantir níveis mais altos de proteção.

O sorriso de Dayse Barbosa estampado na foto passou a ser só a lembrança de uma vida que ainda tinha muito a oferecer a este mundo, como a de tantas outras mulheres. Mais que a ironia de ser uma profissional que se colocava à frente nas trincheiras contra a violência de gênero, mais que a sensação de vulnerabilidade sentida por toda mulher neste momento, nossas mentes não podem ficar impregnadas de um sentimento de que não estamos conseguindo, como sociedade, encontrar um caminho. A memória de Dayse pede que continuemos lutando por um destino melhor para todas as mulheres. Não só em março, mas em todos os meses do ano.

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