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Desafio da segurança pública não será vencido sem avanço social

Apesar do acertado aumento de operações repressivas, Espírito Santo ainda sofre as guerras do tráfico. Resta óbvio que não é possível construir a paz sem cidadania, sobretudo com educação e geração de renda

Publicado em 21/10/2020 às 06h02
Segurança - Policial militar
Trocas na Sesp e na PM conseguiram desacelerar escalada de homicídios, mas número ainda é alto. Crédito: Carlos Alberto Silva

Em meio à divulgação de pesquisas que apontam que uma das principais preocupações dos eleitores da Grande Vitória é com a violência, dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o medo é mais do que justificado. O Espírito Santo é o terceiro Estado do Brasil com maior aumento no número de mortes violentas, atrás apenas da Paraíba e do campeão Ceará, onde um motim da PM em março fez explodir o número de homicídios.

Foram 642 assassinatos nos seis primeiros meses deste ano no Estado, 18,5% a mais do que no mesmo período de 2019. Outros indicadores de criminalidade tiveram redução, como roubos e estupros, mas, como discorreu o especialista em segurança pública Henrique Herkenhoff, em coluna recente neste jornal, são estatísticas maquiadas pela elevada subnotificação. “Pesquisas de vitimação têm confirmado que cerca de 80% dos crimes patrimoniais jamais são comunicados às autoridades”, escreveu. No caso de assaltos, a queda na circulação de pessoas na quarentena também teve impacto.

O mesmo déficit nos dados oficiais acontece com com os casos de violência sexual, especialmente durante a pandemia, uma vez que não há a opção de registro de ocorrência online, já que o tipo de crime demanda exames presenciais. Mesmo assim, o Espírito Santo registrou 602 estupros de janeiro a junho, uma média de três casos por dia. E o número pode ser dez vezes maior, segundo pesquisadoras do tema.

Por esses motivos, homicídios são um termômetro mais calibrado para medir o nível de segurança. E esse termômetro indica piora do quadro. No acumulado até setembro, o Espírito Santo já contabilizou 833 assassinatos, enquanto no mesmo período de 2019 o número foi de 715. Após dois meses tenebrosos para o Estado — fevereiro, com 110 homicídios, e março, com 142, o maior banho de sangue desde a greve da PM, em 2017 — , trocas na Sesp e na PM até conseguiram desacelerar a escalada, mas dificilmente o Estado conseguirá bater a marca histórica de 2019, quando fechou o ano com menos de mil assassinatos.

Apesar do acertado aumento de operações repressivas em busca de homicidas e líderes de facções, mais de 1400 neste ano, o Estado, sobretudo a Grande Vitória, ainda sofre as guerras do tráfico, ainda assiste a chefões comandando negócios escusos de dentro dos presídios e ainda ouve as comunicações de criminosos por meio de fogos de artifício, mesmo após a criação de lei para refrear a compra do material.

Em sua faceta mais evidente, as brigas entre traficantes explodem em chacinas, como a da Ilha Doutor Américo de Oliveira, ou em execuções à luz do dia em avenidas movimentadas, como o ataque no Centro de Vitória, neste mês. O espetáculo de violência dos últimos dias talvez explique por que foram os eleitores mais ricos que se relevaram mais preocupados com a segurança pública na pesquisa do Ibope, colhida após os crimes.

Rotineira nas comunidades mais carentes, a violência cedeu lugar à apreensão com a saúde pública, nestes tempos de coronavírus, entre os mais pobres. Mas é nessa faixa social que está quem mais mata e quem mais morre. Em uma década, de 2008 a 2018, o Espírito Santo perdeu mais de 10 mil jovens assassinados, segundo o Atlas da Violência 2020, majoritariamente das periferias.

Não existe receita de bolo, mas resta óbvio que não é possível construir a paz sem cidadania, com educação e geração de renda. O desafio dos governantes para reduzir a violência será intensificado pelos efeitos da pandemia, entre eles o desemprego e a evasão escolar. O Espírito Santo tem feito um trabalho a contento na frente policial. É hora de reforçar o eixo social de programas como o Estado Presente, que tem entre seus planos ações culturais e profissionalizantes.

Nessa frente, as prefeituras têm grande potencial na redução dos índices de criminalidade, por sua capilaridade nas áreas de assistência social, saúde e educação. Às vésperas dos pleitos municipais, eleitores preocupados, com razão, com a segurança pública devem ficar atentos aos planos de governo dos candidatos. A violência não é um problema que se ataca sem uma estratégia holística, que despreze sua complexidade.

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