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É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

Estatísticas nem sempre mostram a realidade dos problemas de segurança

Casos como subnotificação, supernotificação ou dificuldade de analisar variações em períodos curtos, especialmente nos crimes pouco numerosos, podem comprometer o entendimento da real situação

Publicado em 16/08/2020 às 05h00
Atualizado em 16/08/2020 às 05h01
Estatística: dados e números nem sempre mostram a realidade
Estatística: dados e números nem sempre mostram a realidade. Crédito: Pixabay

Embora lidar a fundo com estatísticas seja para profissionais altamente especializados, elas podem ser analisadas em diferentes níveis, e é bom que o cidadão saiba pelo menos o básico a respeito daquelas referentes à segurança pública.

Talvez o mais importante seja o fato de que a maior parte delas é pouco significativa, devido à elevada subnotificação. Pesquisas de vitimação têm confirmado que cerca de 80% dos crimes patrimoniais jamais são comunicados às autoridades. A maior parte dos boletins de ocorrência é feita para que a vítima possa receber o seguro, geralmente de um veículo, ou para se precaver do uso fraudulento de seus documentos.

Na verdade, os furtos e roubos e veículos sofrem com a supernotificação: primeiro o crime é comunicado ao Ciodes, depois registrado na delegacia de plantão ou do bairro, e depois a vítima procura a especializada, sendo comum, portanto, três “ocorrências” para o mesmo fato. Como as cifras ocultas são quatro vezes maiores que as registradas, variações na disposição da população em procurar a polícia podem facilmente criar falsas aumentos ou reduções. Por isso, os homicídios são o principal termômetro da violência.

Outro ponto é a dificuldade de analisar variações em períodos curtos, especialmente nos crimes pouco numerosos. Por exemplo, se há menos roubos e mais latrocínios em 2020, isso permite afirmar que as pessoas que se armaram estão reagindo e sendo mortas? Seria precipitado. Somente uma tendência sustentada por muito tempo permitiria dizer isso com razoável segurança. Por enquanto, não passa de uma teoria plausível.

Por outro lado, “crimes” não são uma categoria homogênea. Os homicídios podem cair ao mesmo tempo em que sobem os roubos. Fatores diversos influenciam cada espécie. Por exemplo, parece que a pandemia tornou os traficantes muito mais agressivos na cobrança de dívidas e disputa por pontos de venda, gerando uma crescente nos assassinatos. A Sesp realizou várias operações muito enérgicas e tudo indica que retomou o controle graças à sua ação severa.

Nesse caso específico, não houve outros fatores importantes, então é possível atribuir a maior parte desse resultado ao trabalho das polícias. Já os roubos a estabelecimentos comerciais certamente diminuíram em parte porque estavam fechados. Mesmo que fossem arrombados, esse delito iria para outra estatística. Neste caso, é difícil dizer quanto influenciou cada fator.

Em todo caso, a recente redução nos crimes patrimoniais, caso se sustente após a pandemia, será uma notícia muito boa, confirmando uma previsão feita aqui nesta coluna: agora que o ES está vencendo a violência homicida, criam-se as condições para o combate policial principalmente aos roubos, pois estes são os que mais traumatizam a população.

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