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Carta para Cariê

"Uma notícia não é contra nem a favor, ela simplesmente informa". Você nos ensinou que o compromisso com os fatos é incontestável, uma lição da qual não nos esqueceremos

Publicado em 12/04/2021 às 02h00
Cariê
Cariê, diante da sede da Rede Gazeta, em 25/08/2008. Crédito: Edson Chagas

Todos os dias, quando A Gazeta se posiciona com firmeza contra tudo que fere o interesse público, é o seu legado que percorre estas linhas. A partir de agora, mesmo com a dor da sua ausência, saiba que vamos continuar a cumprir a nobre missão para seguir honrando a sua herança, na defesa da democracia.

É o momento de lembrar que a liberdade deste veículo para perseguir o fato e não se deixar turvar por suas versões foi conquistada pelo seu esforço, ainda nos primeiros anos à frente da empresa. Até a década de 1960, era uma praxe que a imprensa brasileira fosse comandada por grupos políticos e atendesse seus interesses. Mas você empreendeu um paciente, longo e exaustivo esforço para desvincular A Gazeta do Partido Social Democrático (PSD), ao qual pertencia ninguém menos que seu pai, ex-governador e figura proeminente no Estado. 

Foi com você, Cariê, que A Gazeta se tornou uma empresa de conduta imparcial e equilibrada. Sua visão foi vanguardista não apenas no Espírito Santo, mas em território nacional. O jornalismo se transformou. O jornalismo se profissionalizou. Seu pioneirismo foi responsável pela formação de cada geração de jornalistas que se seguiu. E cá estamos hoje.

Meio século depois, uma imprensa profissional livre é uma realidade, reconhecida como um dos sustentáculos da democracia. Você contribuiu de forma irrepreensível para essa consolidação. Nós, jornalistas profissionais do Espírito Santo, subimos aos ombros de um gigante. Nem sua conhecida modéstia seria capaz de negar essa grandeza.

Mesmo assim, ainda é preciso esforço paciente e diário na defesa dos princípios democráticos. Com a tempestade trazida pela desinformação, muitos ainda não compreendem o papel da imprensa. Não estamos em uma situação confortável, Cariê, você bem sabe disso. Vivemos um tempo de batalhas árduas e ininterruptas no jornalismo. Mas suas palavras dão um direcionamento aos incautos: "Uma notícia não é contra nem a favor, ela simplesmente informa". Você nos ensinou que o compromisso com os fatos é incontestável, uma lição da qual não nos esqueceremos.

Foi com você que A Gazeta, amadurecida, colocou-se fielmente ao lado do cidadão. "A imprensa é a janela pela qual a sociedade se observa, avalia a si própria e, principalmente, se capacita para julgar os atos das autoridades e demais pessoas influentes". Uma janela que você abriu no Espírito Santo e que jamais se fechará.

Foi forjada com esse espírito crítico que a Rede Gazeta, em seus diversos veículos, registrou os grupos de extermínio, denunciou organizações criminosas, acompanhou de perto rebeliões em presídios, apontou o poder do tráfico. Mas também testemunhou o Espírito Santo crescer e se desenvolver, com olhar propositivo. O projeto ES Século XXI, idealizado por você, é até hoje uma referência.

Não menos relevante para a consolidação de um jornalismo que conseguiu romper com as amarras político-partidárias foram a postura e a compostura com os poderes estabelecidos. Graças à sua sobriedade, Cariê, a verdade e o equilíbrio prevalecem até hoje na produção jornalística da Rede Gazeta para que o respeito ao público jamais escape. Como você disse: "A informação, quando correta, não merece dúvidas".

Com a liberdade de imprensa como estandarte, você não admitiu qualquer forma de censura, corrosiva aos valores democráticos em qualquer tempo: ontem, hoje ou amanhã. Sua proximidade com repórteres e editores e sua presença (marcante e nada protocolar) na Redação deram a você um lugar privilegiado de observação da prática jornalística. Você aprendeu e ensinou, na mesma medida. 

Desde a mudança de sede, passando por uma nova rotativa em cores e a criação da TV Gazeta, até a virada do jornal para um ambiente 100% digital, em 2019, você nunca foi avesso a mudanças. Ao contrário, visionário que sempre foi, antecipou-se a elas, dos linotipos aos smartphones. "Não se deve enfrentar o que é feito para aprimorar o que já existe", você disse, com sabedoria. Com você, A Gazeta não ficou parada no tempo.

Os contínuos investimentos em A Gazeta, empreendidos por você e reiterados por Café Lindenberg, seu filho e sucessor, interpretam a fé permanente no Espírito Santo e a compreensão de que não se pode ficar estático diante do tempo. "Só assim pode-se estar à altura dos novos tempos – esses novos tempos tão cheios de exigências materiais e morais. Tempos de prosperidade, mas também tempos de perplexidade. Tempos em que o homem cresce, mas talvez não se encontre, antes talvez se desencontre de maneira definitiva, se não houver entre nós alguns instrumentos de luz e coesão, como a imprensa".  Esse trecho de um discurso seu, de 1978, tão atual, continuará nos inspirando.

Faltam palavras para agradecer, mesmo que a gratidão transborde. A Rede Gazeta, e cada um de seus funcionários, tem a convicção de que seguirá à altura dos novos tempos, porque os velhos tempos, inspirados por você, a credenciam para os desafios que virão. Com um toque de inevitável saudade, sua herança continuará presente nestas linhas. Todos os dias.

Muito obrigado.

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