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Lembranças

Cariê e o dom de transformar adversidades em ótimas histórias

Era fácil sentar diante de suas memórias e de sua visão sobre a vida, mesmo nos tropeços e nos maus momentos

Publicado em 11 de Abril de 2021 às 02:00

Públicado em 

11 abr 2021 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas
Cariê Lindenberg
Cariê Lindenberg, fundador da Rede Gazeta Crédito: Guinaldo Nicolaevisky
Foram muitas, e justíssimas, as homenagens a Carlos Fernando Lindenberg Filho por ocasião de sua partida. A generosidade dele, o espírito de artista, o fino trato, a simplicidade, a ética, a capacidade empreendedora, o talento para os negócios no campo e na cidade, os livros, a música… Uma característica boa depois da outra tomaram as páginas, aqui e nas redes sociais, ao longo da semana.
E sabem de uma coisa? Aposto que a reação de muitos de vocês foi parecida com a minha, a de sorrir, em plena concordância, diante do que disseram sobre Cariê.
Era fácil gostar de Cariê. Era fácil rir das histórias que ele contava, ouvir as lembranças minuciosas que ele tinha, vê-lo ir da música à política com a mesma riqueza de detalhes. Era fácil sentar diante das memórias dele e de sua visão sobre a vida, mesmo nos tropeços e nos maus momentos.
Era fácil estimar sua enorme capacidade de fazer graça dos infortúnios e sua alma boêmia, seu aguçado senso de justiça e as pitadas de ironia que acompanhavam o que dizia ou escrevia. Era fácil admirar o que ele fez como empresário, celebrar a liberdade que sempre deu aos jornalistas de sua casa. Era fácil aplaudir a retidão com que decidia as coisas em favor da verdade dos fatos.
Era leve entrevistá-lo, apesar da responsabilidade embutida no ato de entrevistar o dono do jornal. Era leve atender ao chamado dele nas tardes de sábado para os almoços musicais que atravessavam o pôr do sol, os instrumentos e microfones abertos a canjas e participações especiais e a vista bossa nova que havia no fundo.
Na contramão da maré exibicionista que domina o nosso tempo, Cariê tinha realmente muita coisa a dizer. Tinha também um modo muito dele de fazer isso, uma mistura azeitada de vocabulário erudito e ritmo com picardia e graça, tanto nas passagens célebres quanto nas prosaicas, fosse falando de Tom Jobim e Frank Sinatra, de um noivado frustrado, de uma torre de TV, uma serenata de amor ou os percalços da vida.
Aliás, Cariê tinha o dom de transformar adversidades em ótimas histórias.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Ana Laura Nahas

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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