Faz um ano que não vamos ao cinema. Um ano que suspendemos as sessões semanais seguidas de resenhas sem compromisso. Um ano sem rir baixinho para não atrapalhar o vizinho ao lado, sem procurar a cadeira mais longe do ar condicionado, sem balde de pipoca no colo, sem esperar os créditos para levantar. Um ano sem respirar o leve e poético cheiro de mofo da sala de projeção.
Faz um ano que o expediente e a rotina doméstica se misturam, mesmo com toda a disciplina possível. Um ano que não nos encontramos para almoçar na cozinha da firma. Um ano de reuniões remotas, de economia difícil, de desafios e turbulências. Um ano em que a esperança e o otimismo têm sido constantemente colocados à prova.
Faz um ano que não saio sem máscara. Um ano em que a tensão ronda as idas, vindas e voltas. Um ano de supermercado pela internet, de cafés suspensos, cervejas adiadas, de saudades postas na prateleira, de encontros e despedidas a distância.
Faz um ano que choramos as perdas sem muitos abraços, sem rituais. Um ano que as estatísticas nos assustam diariamente, um trágico recorde atrás do outro. Um ano desde que, oficialmente declarada a pandemia, o que não ruiu se transformou.
Por estas coincidências da vida, no dia em que a declaração formal da pandemia completou um ano, acordamos com a lembrança do centenário de Astor Piazzolla, o revolucionário músico argentino de tango, jazz e outras milongas más.
Nascido em Mar del Plata em 11 de março de 1921, o filho de seu Vicente e dona Asunta combinou tragédia e movimento, tristeza e sofisticação, uma música de dor intensa com uma pitadinha de esperança.
[Ufa!]
Piazzolla traduziu com perfeição a ideia de que o tango é um pensamento triste que se pode dançar. Como o audaz Manuel Bandeira nos ensinaria por outros meios, um tango é a única coisa que se pode fazer quando não há nada mais para ser feito.
Ouvir Piazzolla nos lembra que, apesar de tudo, nem tudo está perdido.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta