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É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

O significado das 250 mil mortes por Covid-19 no Brasil

Se fizéssemos um minuto de silêncio por cada vítima, seriam 173 dias, 17 horas e 24 minutos sem dizer uma única palavra, nenhuma, nada

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 28/02/2021 às 02h00
Atualizado em 28/02/2021 às 02h01
Agente de saúde reage no hospital Getulio Vargas, em meio a surto de doença coronavírus (COVID-19) em Manaus, Brasil, em 14 de janeiro de 2021. REUTERS / Bruno Kelly ORG XMIT: GGGRJO05
De perto, as estatísticas têm história, nome, sobrenome e gente que chora cada partida. Crédito: REUTERS/ Bruno Kelly/Folhapress

Adoraria escrever um texto otimista para fechar o mês do espírito livre de Aquário, do samba que quase sempre se ouve, da inspiração modernista, de chegadas e uma história de carnaval em especial. Mas - realidade que se impõe - volto ao tema de seis meses atrás, e os números são ainda piores. Se em agosto era difícil compreender a dimensão das 100 mil mortes causadas pela Covid no Brasil, o que dizer de agora, quando os mortos somam 250 mil?

Se fizéssemos um minuto de silêncio por cada vítima, não seriam mais 70 dias, dois meses e 10 dias de recolhimento completo, mas 173 dias, 17 horas e 24 minutos sem dizer uma única palavra, nenhuma, nada. Quase meio ano quietos como os monges trapistas do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo e a tribo dos dogons no final da vida - quando acabam as palavras, a jornada deles também acaba.

Se contássemos por grandes bairros de Vitória, Jardim Camburi, Jardim da Penha, Praia do Canto, Maria Ortiz, Jabour, Goiabeiras, a Grande São Pedro e a Grande Maruípe inteiras simplesmente desapareceriam do mapa. Ou então metade de Vila Velha, como Bacurau, retirado da Geografia com tudo dentro, esquecido no meio do nada com seus afetos e desavenças, saudades e rancores, sonhos e desejos, memórias e projetos para amanhã.

Se a medida fosse o tamanho da área necessária para enterrar todos os que perderam a batalha para o coronavírus, segundo cálculos da BBC, precisaríamos de 10 Avenidas Paulistas.

É como se a pandemia tivesse matado três Maracanãs lotados em dia de Fla-Flu, os torcedores de uma rodada inteira do Campeonato Brasileiro com dez partidas ou duas vezes o público de uma noite de carnaval na Marquês de Sapucaí.

A pandemia dizimou no Brasil 80 vezes mais do que os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e quase seis vezes mais do que o total de pessoas assassinadas em todo o ano de 2020. A Gripe Espanhola deixou três vezes menos mortos, ao longo de um período de tempo duas vezes maior.

Definitivamente, não é fácil compreender a dimensão de um número imenso como 250 mil. Estatísticas, afinal, costumam ser frias e abstratas quando vistas de longe. De perto, ao contrário, elas têm história, nome, sobrenome e gente que chora cada partida. 250 mil homens e mulheres que podíamos ser eu, você, a vizinha, um amor da adolescência, um colega do trabalho, o dono da loja que adoramos, qualquer um de nós ou dos nossos queridos, qualquer um.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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