Se fizéssemos um minuto de silêncio por cada vítima, não seriam mais 70 dias, dois meses e 10 dias de recolhimento completo, mas 173 dias, 17 horas e 24 minutos sem dizer uma única palavra, nenhuma, nada. Quase meio ano quietos como os monges trapistas do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo e a tribo dos dogons no final da vida - quando acabam as palavras, a jornada deles também acaba.
Se contássemos por grandes bairros de Vitória, Jardim Camburi, Jardim da Penha, Praia do Canto, Maria Ortiz, Jabour, Goiabeiras, a Grande São Pedro e a Grande Maruípe inteiras simplesmente desapareceriam do mapa. Ou então metade de Vila Velha, como Bacurau, retirado da Geografia com tudo dentro, esquecido no meio do nada com seus afetos e desavenças, saudades e rancores, sonhos e desejos, memórias e projetos para amanhã.
Se a medida fosse o tamanho da área necessária para enterrar todos os que perderam a batalha para o coronavírus, segundo cálculos da BBC, precisaríamos de 10 Avenidas Paulistas.
É como se a pandemia tivesse matado três Maracanãs lotados em dia de Fla-Flu, os torcedores de uma rodada inteira do Campeonato Brasileiro com dez partidas ou duas vezes o público de uma noite de carnaval na Marquês de Sapucaí.
A pandemia dizimou no Brasil 80 vezes mais do que os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e quase seis vezes mais do que o total de pessoas assassinadas em todo o ano de 2020. A Gripe Espanhola deixou três vezes menos mortos, ao longo de um período de tempo duas vezes maior.
Definitivamente, não é fácil compreender a dimensão de um número imenso como 250 mil. Estatísticas, afinal, costumam ser frias e abstratas quando vistas de longe. De perto, ao contrário, elas têm história, nome, sobrenome e gente que chora cada partida. 250 mil homens e mulheres que podíamos ser eu, você, a vizinha, um amor da adolescência, um colega do trabalho, o dono da loja que adoramos, qualquer um de nós ou dos nossos queridos, qualquer um.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta