Em um evento promovido pela Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) na tarde desta quarta-feira (10), empresas pontuaram as ações que têm implementado para reduzir a emissão de poluentes. No debate, foram apontados desafios e oportunidades no processo de descarbonização das operações.
O 1º Encontro de Descarbonização foi realizado em parceria com o Ministério Público do Espírito Santo (MPES) e o governo do Estado, com a proposta de colocar em discussão as medidas necessárias para o Espírito Santo avançar na pauta climática com a participação daqueles que, em maior ou menor escala, também são emissores.
O primeiro painel "Descarbonização Industrial" contou com a participação de representantes das grandes indústrias com operações no Espírito Santo — ArcelorMittal, Samarco, Suzano e Vale.
O gerente de Meio Ambiente da Suzano, Márcio Caliari, observa que a empresa é de base florestal com matriz energética majoritariamente renovável e, no processo produtivo, é autossuficiente em energia, inclusive com excedente que é exportado.
"Nós temos várias oportunidades, mas o desafio é ter uma tecnologia que tenha escalabilidade e a viabilidade financeira para aumentarmos esse nível", frisa Caliari, pontuando ainda dificuldade com transporte em etapas do processo.
Diretor de Mudanças Climáticas e Descarbonização da Vale, Rodrigo Lauria ressalta que falar da redução de emissões é uma agenda de competitividade. "E isso dá um tom muito importante porque vai para o centro da companhia, para dentro da estratégia. É como uma oportunidade de negócios e toda oportunidade tem seus desafios."
Na mineradora, segundo ele, a pauta tem o apoio do nível mais alto da administração e toda a gestão entende em que ponto da estratégia a empresa se encontra, as metas a serem alcançadas e uma série de outros compromissos.
A companhia encerrou 2025 com 25% de redução da emissão de poluentes em relação ao ano-base (2017). Também atingiu 100% de energia elétrica renovável dois anos antes da meta, em 2023. "Conseguimos manter a intensidade de emissões do nosso produto a despeito de estar aumentando a produção", pontua.
Rodrigo Silveira, gerente geral de Metálicos da ArcelorMittal, atesta que o Espírito Santo é o Estado mais engajado do ponto de vista de assuntos climáticos, como os debatidos no encontro, envolvendo setor público e iniciativa privada. Para seguir avançando, ele enxerga mais pontos positivos que desafios, mas faz considerações sobre as duas vertentes.
"Falando da ArcelorMittal, a descarbonização é tratada de maneira muito séria. A utilização da sucata metálica para fazer um aço com menor pegada de carbono a gente vem desenvolvendo há bastante tempo", exemplifica.
Para Silveira, entretanto, é necessário avanço na cultura da sociedade de optar por "produtos verdes" ou de baixa pegada de carbono.
"Esse é um papel não só do poder público, mas as indústrias também podem fazer em conjunto para começar a criar essa cultura e fazer com que as pessoas entendam porque o produto de baixo carbono deve ser valorizado e, assim, valorizar toda a cadeia", defende.
"Um exemplo é que o Brasil exporta sucata metálica, que, para nós, não é mais considerado um insumo, mas uma alavanca do nosso projeto de descarbonização. Se não fôssemos um país que exportasse, teríamos muito mais desse insumo aqui para fazer produto verde. Então, acho que esse é um desafio", acrescenta.
A gerente geral de Novos Negócios e Estratégia da Samarco, Marina Dumont, focou nos desafios, entre os quais o financeiro.
"É o famoso 'quem paga a conta?' Acho essa parte muito relevante porque talvez a descarbonização precise, sim, de uma cadeia um pouco mais integrada nessa divisão de responsabilidades até que a gente seja uma indústria um pouco mais madura."
Marina também citou a parte regulatória porque, às vezes, uma empresa pode implantar projetos sem ainda ter muita certeza se estarão aderentes ao que a legislação vai estabelecer no longo prazo.
Por outro lado, a gerente destacou que a Samarco é uma empresa com matriz de energia limpa, hoje focada em hidrelétrica, mas num processo de diversificação de autoprodução voltada para a energia solar e eólica também.
Transição energética
Também esteve nesse debate Robson Monteiro, subsecretário de Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Seama). Ele já havia apresentado o Plano Estadual de Descarbonização, em que detalhou a estratégia de transição energética no Espírito Santo, e aproveitou para reforçar pontos da iniciativa.
Ele destacou que as mudanças climáticas já redefinem os fluxos econômicos globais e que a descarbonização deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se tornar um fator de competitividade, atração de investimentos e desenvolvimento industrial.
Monteiro avalia que a descarbonização no Estado é estruturalmente mais complexa e com maior custo que a média nacional. No entanto, segundo afirma, possui urgência máxima e um potencial de impacto massivo em escala global devido à base industrial pesada.
Para alcançar a meta de redução de – 27% das emissões até 2030, e zerar até 2050 –, ele aponta quatro zonas de intervenção. Uma delas dos setores de energia e indústria para os quais Monteiro defende fomento direto a renováveis (eólica, solar), hidrogênio verde, eficiência de matriz e processos limpos industriais.
A apresentação também evidenciou o papel estratégico da infraestrutura capixaba para a neoindustrialização verde. A combinação entre logística portuária consolidada, base industrial robusta, ambiente regulatório em evolução e governança voltada à sustentabilidade posiciona o Estado como plataforma competitiva para novos investimentos ligados à transição energética.
“O desafio agora é acelerar a implementação dos instrumentos regulatórios, ampliar as fontes de financiamento, buscando reduzir os riscos nas operações de crédito, e atrair capitais com maior disposição a investir na agenda de descarbonização”, sustenta o subsecretário.
Infraestrutura
A questão estrutural foi o centro da discussão no painel seguinte: "Infraestrutura, energia e economia circular". Head de Relações Institucionais da ES Gás, Alan Brito começou o debate ressaltando que a infraestrutura é crucial para alcançar o Net Zero (emissão líquida de gases do efeito estufa removida da atmosfera).
"Sem dutos, sem conexão direta do supridor de energia com o usuário, a gente não vai atingir o Net Zero, nem no Espírito Santo nem em nenhum outro lugar do mundo", adverte.
Mas Brito observa que o Estado tem uma particularidade, que é a cadeia completa do gás natural, com capacidade de escoamento, processamento e distribuição, e ainda um programa bem orquestrado pelo governo capixaba para fomentar o consumo e expandir a estrutura.
"Com um adendo, agora, que é o início da injeção de biometano na rede de distribuição. A ES Gás firmou seu primeiro contato com a Marca Ambiental transformar a estrutura de gás natural no Espírito Santo em uma de gás de carbono."
Brito acrescenta que, na visão da empresa, a infraestrutura de distribuição no papel de transição seja o elemento que vai conduzir a indústria capixaba até o Net Zero.
Diretor de Energias Renováveis na Marca Ambiental, Diogo Ribeiro pontua que o projeto de biometano da empresa hoje é uma das principais iniciais e se encaixa nos pilares de infraestrutura, energia e circularidade.
"Porque eu estou pegando o lixo que hoje é um emissor, quer dizer, é um agente de carbonização, de emissão de carbono, e estou usando como combustível para injetar na infraestrutura da ES Gás e atender às indústrias", exemplifica.
Gabriela Costa, diretora-executiva da Associação de Terminais Portuários Privados (ATP), reforça que a solução para o Net Zero passa pela infraestrutura e, em especial, pelo setor portuário. Para ela, são três eixos principais no segmento que podem ajudar na redução da emissão de poluente.
"O primeiro deles está muito muito ligado à descarbonização do terminal em si, que é a possibilidade de o terminal identificar quais são as possibilidades dentro das suas operações de deixar de gerar emissões, como utilização de biocombustíveis e eletrificação dos equipamentos. O segundo é que os terminais têm um papel muito importante de apoio à descarbonização da navegação porque vão viabilizar o abastecimento dessas embarcações. E, por fim, o terceiro papel é participação de forma ativa da produção de energia. Hoje, já há atividades muito avançadas na produção de hidrogênio verde", pontua.
O secretário estadual de Desenvolvimento, Rogério Salume, ressalta que a transição enérgica exige investimento pesado em infraestrutura, mas essa é uma medida que começa agora, com resultados de médio e longo prazos.
Ele citou como exemplo o financiamento da ES Gás que, por meio do programa ES Mais Gás, pretende expandir a rede de distribuição por todo o Espírito Santo. Hoje, a malha é de 660 quilômetros e a meta é chegar a 1,6 mil até 2030. "Então, o investimento em infraestrutura é necessário, essencial e indissociável desse programa", sustenta.
Fomento
O Encontro de Descarbonização ainda colocou em discussão o tema "Governança, Inovação e Fomento" em que um dos debatadores foi o diretor-presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes), Marcelo Barbosa Saintive.
Nesse contexto, ele observou que instituições como a que preside assumem papel estratégico. "Mais do que oferecer crédito, são indutoras do crescimento econômico, ajudando regiões a transformar potencial em desenvolvimento concreto e viabilizando projetos que o mercado tradicional ainda considera complexos ou de longo prazo."
No Espírito Santo, segundo afirma, esse movimento ganha força por meio da atuação do Bandes, que vem ampliando investimentos em inovação, modernização industrial, energias renováveis e fortalecimento das cadeias produtivas locais.
"O exemplo mais emblemático dessa agenda é o Fundo de Descarbonização estruturado pelo banco e lançado neste ano. A iniciativa, pioneira no Brasil, foi criada para financiar projetos ligados à economia de baixo carbono e nasceu com aporte inicial de R$ 500 milhões do Fundo Soberano do Espírito Santo (Funses), com potencial de mobilizar mais de R$ 1 bilhão em investimentos.”
Curso e parcerias
Antes dos debates, foi lançado o "Curso de Descarbonização do Setor Industrial com foco em Caputra e Armazenamento de Carbono", desenvolvimento pelo Senai do Espírito Santo em parceria como a unidade Cimatec, da Bahia.
A formação será realizada de forma online e em tempo real, com foco na capacitação de profissionais e lideranças da indústria para atuar em temas relacionados às mudanças climáticas, regulamentação ambiental, tecnologias de CCS, gestão ESG, sustentabilidade, conformidade ambiental e viabilidade econômica de projetos de descarbonização.
Também foi assinado um termo de cooperação entre Findes, governo do Estado e MPES, voltado ao fortalecimento da agenda de descarbonização da indústria capixaba.
“A descarbonização já deixou de ser uma pauta do futuro. Hoje, ela está diretamente ligada à competitividade, à inovação e à capacidade de inserção das empresas em mercados cada vez mais exigentes em relação à sustentabilidade. Por isso, essa agenda precisa ser encarada como uma estratégia de desenvolvimento para a indústria e para o Espírito Santo”, afirmou Paulo Baraona, presidente da Findes.
Para ele, não existe transição energética bem-sucedida sem uma indústria forte, competitiva e resiliente.
"Precisamos avançar na redução de emissões sem perder de vista a geração de empregos, a atração de investimentos e o fortalecimento da produção nacional. Esse desafio exige conhecimento, tecnologia, segurança regulatória e cooperação entre indústria e poder público, e a Findes está comprometida em construir esse caminho junto ao poder público e aos setores produtivos capixabas”, conclui.