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Pandemia

Precisamos falar de política e de afetos mais do que nunca

Discutir política não demonstra desrespeito aos que se foram. É justo o oposto, dizer que a batalha continua

Publicado em 28 de Março de 2021 às 02:00

Públicado em 

28 mar 2021 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas
Pessoas discutindo
Precisamos discutir política, mais do que nunca Crédito: Shutterstock
Precisamos discutir política, mais do que nunca, exatamente porque estamos diante de 300 mil mortos. Há uma relação indissociável entre a política e as 300 mil vidas que perdemos na pandemia. Uma relação de causa e efeito que devia incomodar cada um de nós, profundamente, em especial os que estimulam a desinformação, negam os fatos e minimizam a tragédia em que estamos metidos.
Política significa muitas coisas, entre elas o exercício do poder e as atitudes de um governo em relação a determinados assuntos de interesse público. Desde os tempos de Aristóteles, a regra é clara. De um lado, a ética da política não pode ser diferente da ética da vida pessoal. De outro, a ética da responsabilidade deve levar em consideração as consequências das decisões e das atitudes do governante.
Assim, além de observar os princípios gerais de correção e justeza (não matar, não roubar, aquela história toda), o político deve mostrar ao povo que representa sua capacidade de defender o bem comum e o bem-estar de toda a sociedade, acima do simples exercício do poder, acima de tudo.
[É a regra, desde os tempos de Aristóteles].
Política, de fato, significa muitas coisas, entre elas a capacidade de mobilização e movimento, o cuidado com o que é público ou coletivo. Derivada do termo grego politikos, que designava os cidadãos que viviam na polis, a palavra política significa, de alguma forma, existir em conjunto.
Alguém já disse, com toda razão, que a política também tem uma dimensão afetiva. Sob este ponto de vista, fazer política pressupõe mobilizar afetos. Sua verdadeira tarefa, nesta ótica: reconstruir o cuidado, a delicadeza, a brandura, a consideração.
Se há alguma chance de suavizar a imensidão de perdas que experimentamos ao longo do último ano, é muito provável que ela passe pela reorganização dos afetos e do existir coletivo. Discutir política não demonstra desrespeito aos que se foram. É justo o oposto, dizer que a batalha continua, por nós e pela memória dos que perdemos.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Ana Laura Nahas

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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