Desde o nosso primeiro contato com a História, na escola, em casa ou em ambientes públicos, somos levados a interpretá-la a partir da ótica dos vencedores. Dos grandes homens, datas marcantes e grandes feitos que construíram uma sociedade estruturalmente desigual.
Pode não parecer, mas essa construção está presente em praticamente tudo que nos ronda, habitando o nosso cotidiano de forma muito mais intensa do que imaginamos.
Hoje venho falar sobre um objeto expositor dessa construção, bastante presente em meus escritos para este jornal e via importantíssima de entendimento histórico e social: as ruas!
As ruas podem ser interpretadas por dois vieses. O mais óbvio é a rua como um elemento físico, como local de passagem e compositor da malha urbana. O outro é a rua como um elemento simbólico e místico, que engloba diversas práticas, personagens e saberes que floresceram em becos, vielas e esquinas durante séculos de formação social.
Em ambos é possível usá-la como um objeto de entendimento da formação da nossa sociedade e, principalmente, do processo de exclusão social presente nessa formação.
A começar, muitos espaços urbanos que conhecemos hoje foram construídos sobre ações arbitrárias ou de gentrificação. A conhecidíssima Vila Rubim, por exemplo, teve parte de sua estrutura edificada sobre a antiga Cidade de Palha, um conglomerado de casas populares, cobertas de palha e berço de riquíssimas culturas.
A Cidade de Palha, por ser uma das referências de epicentro popular, teve sua morte física e simbólica decretada pelos ares de remodelação urbana e hoje está apenas em algumas páginas de poucos livros de história. Recentemente falei aqui das transformações ocorridas na Prainha de Vitória e na Curva da Jurema. Também são ótimos exemplos.
Saindo do físico e entrando no simbólico, a nomenclatura das principais ruas e avenidas das cidades é outro excelente signo para identificar tal método de estruturação e exclusão social das cidades.
Uma breve olhada sobre os nomes de ruas e avenidas é o suficiente para se certificar que a maioria deles segue a lógica de que, majoritariamente, a história foi construída apenas por membros da aristocracia, criando indiretamente a percepção de que ela, a cidade, os pertence.
Em Vitória, esse processo é ainda mais intrigante quando identificamos que muitos desses nomes são oriundos de um movimento de repaginação urbana que exaltava uma suposta modernização enquanto ocultava símbolos populares. Exemplo: a Rua da Várzea foi assim batizada pelo povo por causa das suas características físicas. O local era, de fato, uma várzea, ou seja, um terreno plano que margeia rios e córregos. Assim ela ficou carinhosamente conhecida na cidade e assim foi nomeada até 1872 quando, movida pela onda modernizadora, a cúpula política a renomeou como Rua Sete de Setembro, em homenagem à independência do Brasil.
Ao lado dela, estava a Rua do Reguinho, que a turma assim batizou em alusão a um pequeno córrego que descia da Fonte Grande e desaguava na prainha onde hoje está a praça Costa Pereira. O Reguinho teve que, forçadamente, dar lugar a Graciano Neves, médico e ex-governador do Espírito Santo.
Já a rua como um campo místico é resultado de resistência. Em uma sociedade que foi edificada sobre a síntese da desigualdade, foi em botequins, quintais, esquinas, quitandas, quadras de escolas de samba, terreiros de congo, terreiros de macumba e outros espaços marginalizados que as camadas mais baixas dessa estrutura criou saberes e tecnologias de sobrevivência e, assim, eles seguem como espaços físicos que transcendem a lógica mercadológica e urbana.
É óbvio que diante da crescente onda moralista e conservadora, que dialoga fortemente com a que venera resultados, cifras e rendimentos, esses espaços seguirão como antros de vagabundagem e ociosidade.
Quem os vive ou já viveu de forma intensa, porém, tem a antagônica certeza de que são ambientes propiciadores de difusão educativa, criação de saberes e formação cidadã. Potencialidades que foram adquiridas ao longo de décadas em que elementos básicos foram sistematicamente negados aos segmentos desfavorecidos da nossa sociedade.
Concluo — com a propriedade de quem as vive intensamente — que as ruas de nossa cidade abrigam e dão vida a uma legião de vitalidades fundamentais à existência de muitos.
Subalternizá-las, reduzi-las e silenciá-las é dar prosseguimento ao histórico projeto segregador. Batucar, cantar, dançar, passear…enfim, vivê-las é reforçá-las como símbolo de resistência.