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Marcus Vinicius Sant'Ana

A feijoada e outros rituais populares destinados a São Jorge e Ogum no ES

Na minha família, uma festa à base de feijão e cerveja acontece desde que me entendo por gente, no dia do santo

Publicado em 16 de Abril de 2026 às 04:21

Públicado em 

16 abr 2026 às 04:21
Marcus Vinicius Sant'Ana

Colunista

Marcus Vinicius Sant'Ana

Para sambistas, povo de terreiro, frequentadores da rua e demais devotos do santo guerreiro, o final de abril é um período muito sério. Tempo de muita reza e festa. Feijoada e hóstia. Samba e oração. Firmamos uma das mais pulsantes brasilidades ao cultuar São Jorge, o santo de guerra que baixou dos céus para comandar as batalhas cotidianas de um povo que o elegeu como general espiritual.


Para entender todo esse alvoroço, vamos começar explicando que Jorge nasceu na Capadócia, atual Turquia, no ano de 275 d.C. Filho de pais cristãos e cristão também, tornou-se militar romano ao mudar para a Palestina, atingindo altos cargos e chegando à guarda pessoal do imperador romano Diocleciano. 


A vida de Jorge começou a mudar quando, em 303 d.C., Diocleciano ordenou uma ampla perseguição aos cristãos em todo território do Império Romano. Segundo o imperador e sua cúpula política, a falta de devoção aos deuses romanos estava prejudicando a edificação de uma unidade do império. 


Segundo as narrativas disponíveis sobre sua vida, Jorge não se curvou à intolerância imperial, não negou sua fé e declarou publicamente sua devoção a Cristo. Dispensou as regalias advindas de sua alta patente militar e foi condenado. Alguns relatos discorrem que, na execução de sua punição, Jorge foi submetido a torturas terríveis como marteladas, ataques de animais e queimaduras. 


Resistiu a todas elas até ser degolado a mando do imperador em 23 de abril de 303 d.C., na Nicomédia. Após alguns relatos de milagres e intercessão em favor do próprio Império Romano em episódios militares, Jorge tornou-se santo, cruzou fronteiras, ganhou popularidade e, dentre várias nomenclaturas que recebeu por esse mundo, passou a ser chamado de São Jorge. Santo venerado em 23 de abril, data de sua morte. 


Imagem Edicase Brasil
São Jorge é inspiração para os fiéis por sua fidelidade a Cristo  Protasov AN | Shutterstock

Em terras brasileiras, São Jorge aportou, obviamente, com a colonização portuguesa, mas a devoção a ele se intensificou após a chegada da família real com suas solenidades de veneração ao santo, em 1808.


Aqui em solo brasileiro, terreno fértil para encruzilhadas e sincretismos, São Jorge encontrou um povo acostumado com batalhas cotidianas, impostas por uma estrutura desigual da nossa sociedade. Entrou para as falanges guerreiras que atuam na defesa deste povo e nelas conheceu divindades como os caboclos guerreiros, o orixá Ogum e o inquice Nkosi Mukumbi. 


Para muitos, eles tornaram-se uma coisa só; para outros, seguem sendo divindades diferentes, mas são irmãos em sacralidade. O que importa é que, como dito, eles ocupam as mesmas trincheiras, aquelas que são linha de frente na função de amenizar as lutas e dores de um povo que sofre diariamente.

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A maior simbologia atual de devoção a São Jorge se manifesta nas feijoadas. A provável razão disso está em um episódio ocorrido em Salvador, Bahia, nas primeiras décadas do século XX. 


Certa feita, o pai de santo Procópio de Ogunjá negou comida a uma pessoa em situação de rua que, faminta, adentrou seu terreiro pedindo alimento. A liderança religiosa se incomodou com a vestimenta maltrapilha do coitado. Mais tarde, durante uma cerimônia, Ogum, orixá sincretizado com São Jorge em algumas regiões, baixou em terra e advertiu pai Procópio pela atitude. 


A comida e a oferta dela aos demais é algo bastante sagrado nas doutrinas do candomblé. Como reparação, Ogum ordenou que Procópio oferecesse, anualmente, uma grande panelada de feijão - comida comumente ofertada ao orixá - aos pobres e necessitados da cidade. 


Apesar de colocarem o Espírito Santo como um vácuo na negritude emanada por Rio de Janeiro e Bahia, a prática da feijoada e outros rituais populares destinados a São Jorge e Ogum também chegaram às terras capixabas. 


Na minha família, uma festa à base de feijão e cerveja acontece desde que me entendo por gente, no dia do santo. Minha avó, devota ferrenha, afirma que seu pai já firmava sua fé em Jorge desde o século passado, obrigando-a sempre a pedir “benção para a lua”, onde a crença popular afirma ser a morada do santo. 


Recordo também que, pelas bandas de Jucutuquara, Mestre Ditão (falecido), Mestre Genivaldo, Mano Gim e outros baluartes da região organizavam, religiosamente, uma panela de feijão para os mais chegados todo 23 de abril. O falecido Edmar Cruz, um dos maiores sambistas que este Estado já viu, foi um dos fundadores da Feijoada dos Amigos de Jorge, uma festança daquelas que acontece anualmente pelas bandas da Glória, Vila Velha, hoje liderada por Jurandy Machado, também fundador do evento, devoto do santo e liderança cultural da cidade. 


A maior manifestação a Jorge e Ogum de nossa atualidade acontece na Escada da Piedade, no Centro de Vitória. O comando fica a cargo de uma turma festeira do território, encabeçada por Rozilene de Sá e que, neste ano de 2026, chega à sua décima quinta edição. 


Sempre no final de semana mais próximo do 23 de abril, uma grande gira festiva é feita nos degraus que dão acesso à Piedade, no final da Rua Sete, com direito à reza, samba, discursos e encenações, fincando toda negritude e sincretismos que emanam de nossas ruas e dando salvas às entidades guerreiras que guiam as batalhas do dia a dia. 


Existem, obviamente, aqueles que estranham. Como uma manifestação de fé pode acontecer na rua, à base de bebida, comida, festanças e outros elementos condenados por cânones religiosos? 


A resposta é clara, mas a faço em forma de convite. Venham às quadras, aos terreiros, aos botequins e às ruas. Fartem-se de feijão, cantem samba, molhem o bico. Nos atravessamentos que edificaram nosso Brasil, algumas explicações e certezas só são possíveis de extração quando se vive de fato. 


A sua proteção, meu São Jorge!

Marcus Vinicius Sant'Ana

É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano

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