O avanço inexorável da
pandemia acendeu a luz vermelha no país. Ao reafirmar o óbvio, de forma técnica e pedagógica, a
Carta Aberta de empresários e economistas enunciou a equação: sem vacina e distanciamento, não se debela a pandemia; sem conter a pandemia, não haverá crescimento. Bingo. O difícil é o simples.
A Carta ainda acrescenta outra variável da equação: a precariedade do nosso sistema de proteção social. O auxílio emergencial é tido como essencial. Assim como um programa de proteção social que seja mais eficaz na redução da pobreza e da desigualdade. Sem o desenho e aprovação de um programa desta natureza, cuja proposta já tramita no
Congresso, é impossível um distanciamento social efetivo no
Brasil.
Os pobres e os invisíveis priorizam a sobrevivência em detrimento de seguir os protocolos da pandemia. A fome não pode esperar. Isto impede que se alcance taxa adequada de isolamento social. Aqui no
Espírito Santo, mesmo com a quarentena da última semana, chegou apenas perto dos 40%. O mínimo desejável é 50%. Assim, ao lado da emergência da vacina, é urgente redesenhar um programa de responsabilidade social para o Brasil, embrião de uma eventual opção da sociedade pela renda básica.
Pactuada esta agenda mínima – vacina, distanciamento, proteção social – é fundamental que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, incorpore os governadores aos encaminhamentos do Comitê Anti-Covid. São eles que estão na ponta do sistema. O senador Pacheco precisa usar com efetividade os poderes que são atribuídos ao Senado da República pelo Art. 52 da Constituição. O Senado pode assumir a liderança da resposta à sociedade. Sem a Federação e a Casa da Federação (o Senado), o Comitê vai enxugar gelo.
Estamos assistindo à mudança nas placas tectônicas da política nacional. O presidente Bolsonaro está acuado e isolado, atônito diante do recrudescimento das pressões da Sociedade, da Mídia, do Parlamento, do Mercado e da Federação. Sem contar o “fator Lula”, que colocou diante dele uma liderança experiente e especialista em linguagem popular e embates políticos. O jogo político agora é outro.
A catástrofe sanitária, o colapso da economia e a anomia social, prenúncios do barulho das ruas, acabaram gerando um vestígio de frente ampla no país. Esta é uma novidade política. Mas os atores políticos precisam ter inteligência política estratégica para distinguir a conjuntura política das eventuais tendências e preferências político-eleitorais para 2022. É preciso olhar a crise com espírito político de gestão de crise, e não com métricas eleitorais e demagogia.
Ao fim e ao cabo, o poder político advirá dos resultados da gestão da crise. O Brasil está nas mãos desta frente ampla. Agiremos como Nação ou como aglomerado de egos? A alavanca é o
Senado, os governadores e o mercado. Os fantasmas das mortes, da inflação, dos juros, do câmbio, do desemprego e da recessão rondam o Brasil. O piloto sumiu.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta