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Cariê Lindenberg: defensor do jornalismo independente e da liberdade de imprensa

Fundador da Rede Gazeta lutou para implantar a isenção e independência como valores do jornalismo capixaba

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 06/04/2021 às 15h13
Café e Cariê Lindenberg observando a impressão de um exemplar do jornal A Gazeta em 1999
Café e Cariê Lindenberg observando a impressão de um exemplar do jornal A Gazeta em 1999. Crédito: Edson Chagas

Carlos Fernando Lindenberg Filho, o Cariê, que morreu nesta terça-feira (06) por complicações de uma pneumonia, teve uma trajetória marcante de compromisso com um jornalismo isento e independente. Desde que chegou para cuidar dos negócios da família na Rede Gazeta, em 1963, foi aos poucos questionando o jeito tradicional de fazer jornalismo, com o que chamava de "autocensura" e receio de perder anunciantes, e propondo, em troca, a independência editorial.

Cariê Lindenberg

11 de setembro de 2019, em entrevista publicada no último exemplar diário de jornal impresso de A Gazeta

"No jornalismo não cabe favor. Nem favor a favor e nem favor contra. O jornalismo tem que ser isento, tem que ser a transparência do que ocorre com a sociedade a que ele serve"

Formado em Direito em 1958, Cariê chegou ao jornal com o dever cumprido: estudou sobre ética jornalística e absorveu o que precisava para tentar mudar a forma como o jornal, na época, era feito. Logo que chegou à Rede, em 1963, a empresa ainda era vinculada a um partido político, o PSD. A independência política, portanto, não aconteceu no primeiro momento de sua chefia, mas isso não quer dizer que ele deixou os processos exatamente como estavam.

Em entrevistas, o fundador relatava um acontecimento que o marcou logo em seus primeiros dias de trabalho.  Houve um acidente que deixou mortos envolvendo um ônibus de uma empresa de transporte de passageiros, em Vitória, mas no dia seguinte o evento não foi noticiado em A Gazeta. Intrigado, Cariê foi à redação e perguntou o motivo da omissão e ouviu como resposta que a empresa era, na época, um dos anunciantes do jornal. Percebeu ali, então, que existia um outro "problema" a ser resolvido: a autocensura.

Cariê Lindenberg

11 de setembro de 2018, em entrevista ao Gazeta Online na comemoração de 90 anos da Rede Gazeta

"A autocensura é um negócio até pior que a censura porque a censura é explícita e você sabe o que pode e o que não pode fazer. A autocensura é indelével, fica a vida toda"

Foi tentando "aos poucos, lentamente e de maneira gradativa" mudar essas práticas na empresa. Além das inovações na prática jornalística, sua chegada trouxe mudanças nas áreas administrativa e financeira do grupo. Foi com ele que começaram a ser feitos, por exemplo, os orçamentos que regulavam entradas e saídas de dinheiro. Foi responsável, também, pela aquisição dos equipamentos mais tecnológicos para acelerar a impressão dos jornais anos mais tarde.

Cariê Lindenberg

09/09/2016, em entrevista a Leonel Ximenes nos 88 anos da Rede Gazeta

"Sou do tempo em que o jornal era quase que uma coisa artesanal. Tivemos que organizar a empresa, dar o nome do cargo a cada um dos funcionários, colocar a função de cada um, tirar da redação o vício – que eles não consideravam assim – de não informar nada de inconveniente sobre os nossos anunciantes importantes"

O "capixaba de coração" era firme ao dizer que "nunca pediu dinheiro ao governo" e, por isso, nunca teve dificuldades ao se relacionar com o poder político e econômico. O primeiro passo para marcar a independência de A Gazeta foi convidar Esdras Leonor, que era do jornal O Diário, veículo contrário ao PSD, para ser editorialista de política.

Cariê Lindenberg

11 de setembro de 2018, em entrevista ao Gazeta Online na comemoração de 90 anos da Rede Gazeta

"Houve a possibilidade de a gente caminhar para a isenção e a ponderação das verdades. Vi isso em vários jornais do Brasil e do mundo e também nos livros de ética jornalística. Absorvi isso com naturalidade e um desejo muito grande de colaborar "

Visionário, Cariê não queria que a mudança parasse no Espírito Santo. Para difundir a ideia, organizou em junho de 1973 um encontro entre os principais jornais do país para falar sobre inovações administrativas e uma melhor prática jornalística, que envolvia uma atuação isenta.

O momento foi visto como "uma grande abertura para a imprensa brasileira independente", como sintetizou Wenceslau Cunha, representante do jornal Diário de Minas.

Jornal A Gazeta de 1973 divulga os assuntos tratados por jornalistas de todo Brasil que se encontravam em Vitória
Jornal A Gazeta de 1973 divulga os assuntos tratados por jornalistas de todo o Brasil que se encontravam em Vitória. Crédito: Reprodução

Com o tempo, os valores da Rede Gazeta foram se desenhando de forma clara. O intuito, segundo Cariê, é o de ter equilíbrio e independência total, ser plausível com a comunidade e sempre ouvir todos os lados, para que todos tenham a chance de dar "sua versão" do que for levantado. 

Cariê Lindenberg

11 de setembro de 2018, em entrevista ao Gazeta Online na comemoração de 90 anos da Rede Gazeta

"Isso é imprescindível em um jornal: o equilíbrio das forças, a cooperação nas matérias e não publicar nada que não seja confirmado e testado. Cada vez mais é necessário que os jornais cuidem de não serem confundidos com picaretagem de jornalismo "

ABERTO AS MUDANÇAS E TRANSFORMAÇÕES

Ao longo de 91 anos a Rede Gazeta passou por muitas mudanças. O jornal impresso chegou ao fim e se estabeleceu, com a popularização da internet e da comunicação instantânea, a preferência da audiência pelas notícias na internet. Antes, Cariê assistiu ao surgimento da TV, que ameaçava o sucesso das empresas que apostavam no rádio.

Quem vive muitos anos, como Cariê e a Rede Gazeta, precisa se adequar e acompanhar as mudanças, prática que o fundador da empresa não teve dificuldade de executar ao longo do tempo que passou à frente da equipe. 

Cariê Lindenberg 

09/09/2016, em entrevista ao colunista Leonel Ximenes nos 88 anos da Rede Gazeta

"Contra a inteligência e contra a modernidade da ciência é impossível você lutar. Você não pode contestar nem atrapalhar (...) Tem é que se esmerar para fazer um bom produto e tentar conquistar mais (os leitores)."

Em 2019, quando A Gazeta chegou aos seus 90 anos, o fim da circulação do jornal impresso diário também foi encarado com tranquilidade por Cariê. Otimista, o fundador previa que o jornalismo on-line seria uma forma de ampliar a transparência e a credibilidade do jornal, além de conquistar ainda mais leitores. 

Cariê Lindenberg

29 de setembro de 2019, em entrevista veiculada na última edição diária impressa de A Gazeta

"Evidentemente que não é simples para mim, porque pessoas mais velhas, como eu, são viciadas em jornal. Vou sentir uma falta enorme dele. Mas já estou aprendendo como faço para acessar o on-line"

Escritor, músico e compositor, o fundador da Rede Gazeta trabalhou para que empresa chegasse aos 91 anos com credibilidade. Em todas as mudanças, fazia questão de manter o que era de fato importante.

Cariê Lindenberg

11 de setembro de 2019, em entrevista para o jornal A Gazeta em comemoração aos 91  anos da Rede Gazeta

"Nossa credibilidade, independência, isenção e seriedade não mudaram, mesmo com todas as transformações que vivemos e as que ainda virão"

Bacharel em Direito que dedicou longos anos de sua caminhada para aprimorar o jornalismo e difundir uma prática livre de interferências políticas e econômicas, Cariê Lindenberg faleceu na madrugada desta terça, aos 85 anos, por complicações de uma pneumonia. Sua dedicação ao jornalismo, como ele mesmo descreve, era também sua fonte de "alegria".

Cariê Lindenberg

Em entrevista publicada no último exemplar diário impresso de A Gazeta

"Me fascinei pelo jornalismo e pela convivência com jornalistas de forma que só fui ali, aos 30 e poucos anos, encontrar e ter mais alegria de trabalhar e de viver  "

Cariê Lindenberg no comando da Rede Gazeta

Café e Cariê Lindenberg observam máquinas em ação no parque gráfico do Jornal A Gazeta, em 1999
Café e Cariê Lindenberg observam máquinas em ação no parque gráfico do Jornal A Gazeta, em 1999 . Acervo A Gazeta
 Diretoria da Rede Gazeta recebe exemplares de Jornais históricos de A Gazeta, em 1987
Diretoria da Rede Gazeta recebe exemplares de Jornais históricos de A Gazeta, em 1987. Nestor Muller
Carlos Fernando Lindenberg Filho (Cariê) assina o contrato de compra da impressora de A Gazeta em 1996
13-10-1996 - Carlos Fernando Lindenberg Filho (Cariê) assinando o contrato de compra da impressora - Foto Gildo Loyola. Gildo Loyola
Carlos Fernando Lindenberg Filho (Cariê) recebe comenda no Palácio Anchieta, em 1979
Carlos Fernando Lindenberg Filho (Cariê) recebe comenda no Palácio Anchieta, em 1979. Acervo A Gazeta
Carlos Fernando Lindenberg Filho (Cariê) durante entrevista na TVE em 1996
12-085-1996 - Carlos Fernando Lindenberg Filho (Cariê) durante entrevist na TVE - Foto Carlos A. Silva-SECOM. Carlos Alberto Silva
Cariê (primeiro à esquerda) na Comissão O Espirito na Constituinte, reunida na Rede Gazeta em 1985
Cariê (primeiro à esquerda) na Comissão O Espirito na Constituinte, reunida na Rede Gazeta em 1985 . José A. Magnago / Arquivo AG
Cariê (primeiro à esquerda) na Comissão O Espirito na Constituinte, reunida na Rede Gazeta em 1985
Cariê (primeiro à esquerda) na Comissão O Espirito na Constituinte, reunida na Rede Gazeta em 1985
Cariê (primeiro à esquerda) na Comissão O Espirito na Constituinte, reunida na Rede Gazeta em 1985
Cariê (primeiro à esquerda) na Comissão O Espirito na Constituinte, reunida na Rede Gazeta em 1985
Cariê (primeiro à esquerda) na Comissão O Espirito na Constituinte, reunida na Rede Gazeta em 1985
Cariê (primeiro à esquerda) na Comissão O Espirito na Constituinte, reunida na Rede Gazeta em 1985

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