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Bom senso é o suficiente para se descartar o uso do "kit Covid"

Medicamentos como a cloroquina não têm eficácia cientificamente comprovada e ainda podem estar relacionados a reações adversas e mortes. Não há razão alguma para se insistir na prescrição

Publicado em 09/04/2021 às 02h00
Cloroquina
Jair Bolsonaro exibe caixas de cloroquina durante sua live. Crédito: Reprodução

Um mês atrás, o município de Chapecó, em Santa Catarina, enfrentava uma disparada nas internações e mortes por Covid-19, o que obrigou o prefeito João Rodrigues a decretar o fechamento total do comércio. Com a melhora dos índices, o chefe do Executivo municipal escolheu desconsiderar os méritos do lockdown e eleger o "kit Covid" como o responsável pelos bons resultados na cidade. O êxito sem base científica atraiu o presidente Jair Bolsonaro, que viu nas informações distorcidas  a chance de continuar insistindo na defesa do tratamento precoce, medida comprovadamente sem eficácia. Na última quarta-feira (07), o presidente desembarcou na cidade para seguir com seu proselitismo.

A teimosia de Bolsonaro já seria danosa mesmo se a situação da pandemia no país fosse mais amena. Mas com os sucessivos recordes de óbitos e a projeção de quase cem mil mortes pela Covid-19 neste mês de abril realizada por pesquisadores da Universidade de Washington, é inaceitável que o Brasil siga sem um direcionamento sério para controlar essa catástrofe nacional, preferindo continuar apostando em uma panaceia, com o convencimento de uma parcela considerável da população ao uso de um coquetel de medicamentos que não têm respaldo científico na prevenção dos casos graves de Covid-19. E, pior, com riscos à saúde. 

Institucionalmente, contudo, o governo federal parece querer se resguardar. Desde janeiro, o Ministério da Saúde não entrega cloroquina e hidroxicloroquina a Estados e municípios, enquanto os gastos na produção vêm sendo questionados. No Espírito Santo, pelo menos seis prefeituras adotaram no ano passado o protocolo de uso desses medicamentos, inclusive Vitória, que entre todas as capitais brasileiras foi a que, proporcionalmente à população, recebeu a maior quantidade de cloroquina da pasta.  Mesmo assim, no fim do mês passado, Vitória registrava taxa de mortes por Covid 46% maior que a do país.

Reportagem do Estadão mostrou no fim de março que o uso do "kit Covid" levou cinco pacientes à fila do transplante de fígado em São Paulo e está sendo apontado como causa de ao menos três mortes por hepatite medicamentosa. No Espírito Santo, o médico Aberto Stein, cirurgião do aparelho digestivo e especialista em transplante de fígado do Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), em Vitória, afirmou a este jornal que  já teve pacientes que desenvolveram hepatite aguda grave em decorrência da medicação.

Os relatos de pacientes que supostamente se curaram após o uso da hidroxicloroquina ainda são especulações. Podem ser mera coincidência, visto que as pessoas também se curam da Covid-19 sem recorrer ao tratamento precoce. Um medicamento, para ter eficácia comprovada, passa por diferentes etapas de testes, amparadas por metodologia científica rigorosa. Não é o caso de nenhum dos medicamentos do "kit Covid".

Um indício de que o consumo desenfreado desses remédios off-label, ou seja, com prescrição distinta à descrita na bula, pode estar sendo nocivo desde o início da pandemia é o levantamento realizado pelo jornal O Globo com base no Painel de Notificações de Farmacovigilância, mantido pela Anvisa. Somente no caso da cloroquina, o aumento nas notificações por efeitos adversos foi de 558% em 2020, na comparação com o ano anterior.

Coincidência ou não, a cloroquina ocupava em 2019 a sétima posição na lista dos medicamentos responsáveis por notificações de efeitos adversos. No ano seguinte, o medicamento, indicado ao tratamento da malária e do lúpus, chegou à primeira posição. Justamente quando a cloroquina ganhou popularidade, endossada pelo bolsonarismo. Ao menos nove mortes foram notificadas, relacionadas à cloroquina e à hidroxicloroquina desde então.

A Anvisa esclarece que essas notificações representam “suspeitas” e nem todas são investigadas. E mesmo que estejam associados aos medicamentos, os efeitos adversos registrados podem ter relação com outras substâncias. Portanto, não é possível concluir a letalidade ou as complicações de saúde apenas por esses dados, mas eles apontam a existência de riscos que devem ser levados em consideração. 

A reportagem também adverte que o número de notificações de efeitos adversos entre 2019 e 2020 cresceu de forma geral, em referência a todos os medicamentos, na plataforma da Anvisa. Foram 8.587 registros em 2019 e 19.592 no ano seguinte, um crescimento de 128%. Mas o aumento relacionado estritamente a medicamentos como cloroquina e azitromicina é superior à média.

Cientistas e pesquisadores de todo o planeta empreendem um esforço sem precedentes em torno de um só objetivo, aplacar o novo coronavírus. As diversas vacinas que estão sendo aplicadas em todo o globo são um exemplo, desenvolvidas com uma rapidez surpreendente para os padrões conhecidos, mas sem abrir mão de testes para garantir a confiabilidade.

Até o momento, no campo dos remédios, a ciência não identificou nenhuma substância que comprovadamente possa evitar ou tratar precocemente a Covid-19. Há apenas medicamentos para complicações específicas da Covid-19 em pacientes já em tratamento.  No fim de março, a Associação Médica Brasileira passou a recomendar que o "kit Covid" seja banido. Até então, a entidade recomendava a autonomia do médico na prescrição.

Ainda não há um remédio que cure a doença. E a prevenção depende até agora  única e exclusivamente da vacina, que ainda não está disponível para todos, e do comportamento individual, com distanciamento social, uso de máscaras e higiene.

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