Assessor de Investimentos da Valor. Mestre em Direito e Procurador do Estado do Espírito Santo. Professor de Ética na pós-graduação da ESPGE

CRA, CRI e Debêntures: entenda o que são e quais os riscos

Esses títulos de crédito prometem retornos maiores que a renda fixa tradicional, mas não têm proteção do FGC e exigem atenção ao risco das empresas emissoras.

Vitória
Publicado em 13/03/2026 às 08h51

A cena tem se repetido nos últimos tempos: investidores olham suas carteiras e descobrem títulos que não sabem exatamente como funcionam. Episódios como a quebra de bancos e falências de grandes empresas costumam lançar luz sobre alguns comportamentos de investidores menos experientes, como buscar primeiro a melhor taxa e deixar a análise de risco para depois. O caso do Banco Master é o exemplo mais notório e já se arrasta há quatro meses.

Agora, chamam atenção os pedidos de recuperação extrajudicial da Raízen e do Grupo Pão de Açúcar. Junto deles, investidores de uma renda fixa mais complexa e que não tem cobertura do FGC: por meio de títulos de crédito privados, emprestaram dinheiro para essas empresas. Muitos se perguntam quando receberão seus créditos; outros questionam por que não escolheram devedores melhores; e alguns ainda não sabem o porquê desses papéis em suas carteiras. Este texto é dirigido especialmente a este último grupo.

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Quebras de bancos e falências de empresas frequentemente expõem decisões de investimento tomadas sem análise adequada de risco. Crédito: Pexels

CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio), CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários) e Debêntures são títulos de crédito privado usualmente transacionados por meio de plataformas de corretoras e bancos. Suas taxas altas e muitas vezes isentas de imposto de renda atraem investidores qualificados e que compreendem o que estão fazendo. Mas não é incomum ver esses papéis em carteiras de investidores que não sabem bem o que eles são.

Para entender onde entram esses títulos, vale lembrar que a renda fixa no Brasil é emitida basicamente por três tipos de devedores/tomadores de recursos: governos, bancos e empresas. Todos eles pegam dinheiro emprestado para devolver depois de certo tempo, com os acréscimos combinados de juros. Os títulos emitidos pelos governos são os títulos públicos (como o Tesouro Selic, Tesouro IPCA, etc.); os bancos emitem CDBs, LCAs, LCIs, Letras Financeiras e outros títulos; outras empresas tomam dinheiro emprestado de várias maneiras, dentre elas emitindo seus próprios títulos, como as debêntures, CRAs, CRIs, notas promissórias e outros.

Em todos esses casos, o risco, para quem empresta o dinheiro, é não recebê-lo de volta ao final do prazo. Mas esse risco é variado, em especial sob o prisma do emissor/devedor.

Quando se tem um título público, quer dizer, quando se empresta dinheiro para o governo federal, o risco de calote é reduzido, pois além de possuir grandes reservas financeiras e ser financiado por várias fontes, se estiver com o caixa apertado quando tiver que pagar sua dívida, o governo pode lançar mão de instrumentos de política econômica, aumentar impostos, etc., de modo a ampliar sua capacidade de financiamento.

Ao contrário, ao emprestar dinheiro para um banco (normalmente por meio de CDB, LCA, LCI, RDB ou poupança), caso a dívida não seja quitada, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) entra em cena para devolver até R$ 250 mil (ATENÇÃO: Letras Financeiras de bancos, Letras Imobiliárias Garantidas — LIG, notas promissórias, fundos de investimento e outros não são cobertos pelo FGC).

Mas e aqueles CRAs, CRIs e Debêntures da sua carteira? Normalmente, são bons instrumentos para dar um impulso na rentabilidade e trazer diversificação ao portfólio.

Suas taxas melhores são proporcionais ao risco embutido e à sua menor liquidez e, em alguns casos, aos incentivos tributários das operações que lhes dão lastro. Por isso, desde que usados com cautela, estão longe de ser uma armadilha ao investidor.

O ponto a considerar, contudo, é que esses títulos não contam com o modelo de proteção oferecido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Na prática, trata-se de mais um instrumento de dívida das empresas que os emitiram. Mesmo que parte desses títulos possa contar com garantia fiduciária ou real (como lastro em imóveis, safra, aluguéis e recebíveis), no caso de calote, falência ou simples atrasos motivados por problemas de caixa, o socorro dependerá de fatores muito mais complexos, como a estrutura da dívida, a liquidez dos ativos que lastreiam as operações e a posição do credor na lista de pagamentos, entre outros, que podem ser insuficientes para recuperar o capital investido.

Quer dizer, numa escala de risco da renda fixa, CRA, CRI e debêntures seriam títulos mais agressivos aos olhos de um investidor conservador e acostumado apenas à renda fixa tradicional de bancos, como CDBs, LCAs e LCIs. Não é raro que ofertas públicas desses títulos, inclusive, sejam reservadas apenas para investidores qualificados (que possuem mais de R$ 1 milhão investidos) ou profissionais (com mais de R$ 10 milhões).

Enquanto a empresa devedora possuir liquidez e uma estrutura de capital sólida, ou seja, tiver dinheiro em caixa para quitar suas obrigações, o risco permanece reduzido. No entanto, muitas vezes esses títulos são emitidos para vencimentos longos, tornando o fluxo financeiro da empresa sujeito a ciclos econômicos, regulatórios e de mercado imprevisíveis, o que exige do investidor uma análise mais criteriosa.

Outro ponto a observar é o nível de endividamento da empresa, que pode ter que buscar no mercado sucessivos empréstimos para quitar dívidas anteriores, num ciclo acumulativo como uma bola de neve, algo que pode se tornar insustentável. Num cenário de desconfiança sobre a empresa devedora, a saída antecipada desses papéis muitas vezes acaba inviabilizada pela baixa liquidez no mercado secundário ou pelo alto deságio em momentos de estresse de mercado, dificultando a venda do ativo antes de seu vencimento.

Em outras palavras, ao se emprestar dinheiro para uma empresa privada por meio de um CRA, CRI ou debênture, espera-se que ela tenha capacidade financeira para quitar suas dívidas. Caso contrário, o investidor pode enfrentar perdas relevantes ou recuperar apenas parte do que investiu.

Então, crédito privado pode ser uma boa oportunidade de diversificação e rentabilidade. Mas entender como avaliar esse investimento é crucial para que a experiência do investidor seja recompensada não apenas pela taxa de retorno, mas também esteja alinhada ao seu próprio perfil de risco, tornando o ato de investir mais maduro e consciente.

Em última análise, antes de investir em crédito privado, vale fazer uma pergunta simples: se a empresa tiver problemas financeiros, sei como e quando receberei meu dinheiro de volta?

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