A Bolsa brasileira vem marcando recordes nos últimos tempos. Em 2025, o Ibovespa – indicador que sintetiza o desempenho das ações mais negociadas – teve valorização de 34% e continua embalado, acumulando aproximadamente 19% de ganhos neste ano (até o pregão de 26 de fevereiro), na casa de 191 mil pontos, segundo dados da B3.
Curiosamente, essa caminhada do Ibovespa rivaliza com uma ideia comum: de que o mercado acionário precisa de juros baixos para se desenvolver. Em 2025, a Selic aumentou de 12,25% para 15%, patamar em que permanece desde meados do ano passado. Na prática, quem se manteve no CDI no último ano ganhou dinheiro. Mas, apesar da sua volatilidade e drawdowns, quem apostou na Bolsa, na média, levou a melhor.
Mas essa aparente contradição entre juros altos e aquecimento do mercado acionário merece ser examinada. Tipicamente, os juros elevados encarecem o valor presente dos fluxos futuros de caixa e apertam os resultados das empresas, pela razão óbvia de eles encarecerem o custo do capital. Dinheiro caro, operações mais justas, fatores que, no contexto de renda variável, são desfavoráveis ao preço das ações.
Todavia, a Bolsa refletiu não apenas fundamentos locais, como atratividade do preço de ações de algumas empresas, mas também o resultado de um remanejamento global de capitais, em que investidores estrangeiros desaportaram parte de seus recursos dos EUA para outros mercados, inclusive os emergentes, como o Brasil, em virtude do diferencial de juros e tensões geopolíticas. Somente em janeiro, estrangeiros ingressaram com R$ 26 bilhões no mercado de ações no Brasil.
O mercado é dinâmico e não linear, mas, nesse contexto, o investidor busca ler os sinais para se posicionar. Não há como prever se a Bolsa continuará batendo recordes e o fluxo futuro dirá se investidores a consideram barata, neutra ou cara. Mas, no ponto da política monetária, o último boletim Focus do Banco Central indica previsões dos agentes de mercado sobre um ciclo de baixa da Selic em 2026. A expectativa é que os juros terminem 2026 próximos de 12%, revelando um ambiente de retornos nominais na renda fixa (CDI) menos generosos.
É fato que projeções de juros nem sempre se concretizam no médio ou longo prazo. Igualmente, mercados tendem a antecipar expectativas e não há como saber ao certo se o movimento da bolsa até agora já reflete o cenário esperado para o restante do ano. Porém, caso se confirme uma Selic mais baixa em 2026, investidores precisarão se adaptar ou rever suas expectativas:
- Renda fixa tradicional (CDBs, LCAs, LCIs, fundos DI, títulos públicos referenciados ao CDI) entregará resultados nominalmente menores do que em 2025. Retornos reais dependerão do nível de inflação futura e análise posterior, mas a referência absoluta de 1% ao mês de muitos pode ser mais difícil de atingir, como efeito direto de compressão de retornos num ciclo de juros em baixa;
- Renda variável e diversificação, se vistas por alguns como algo exótico ou redundante com a Selic atual de 15%, podem ser encaradas como mecanismos de contrabalanço estrutural das carteiras. Ainda que o Ibovespa já esteja nas máximas e eventualmente corrija ou já tenha se antecipado a fatores futuros, vale refletir se há empresas que possam ter uma releitura de risco pelo mercado num ciclo de baixa de juros, ou mesmo setores que ainda estejam descontados ou que ainda se alavanquem conforme a dinâmica de cada segmento.
Claro, o risco fiscal brasileiro é induvidoso e merece ajuste. A sustentabilidade do controle da inflação, a volatilidade da renda variável, eventual compressão do prêmio de risco do Ibovespa no momento, além do cenário internacional de alta tensão, também são questões que trazem ruídos. A queda da Selic — se confirmada — também pode ser um indicativo de desaceleração econômica capaz de afetar o PIB e, consequentemente, o aquecimento do mercado. São variáveis complexas que jamais podem ser desconsideradas por quem investe.
Historicamente e comparativamente a outras economias, o Brasil opera com juros elevados. Mesmo que se confirme a queda da Selic nos próximos meses, o quanto de juros reais que o investidor recebe ainda dependerá do nível de inflação futuro, algo que pode ser suficiente para manter a atratividade da renda fixa. Mas, além desse ponto, a provocação para o investidor que ancora toda sua estratégia ao CDI é compreender que a transição para um ambiente de juros menores, mais que justificar um ajuste de sua carteira, é uma boa oportunidade para uma reflexão mais profunda sobre sua metodologia tradicional de alocação, quer dizer, o modo como enxerga e convive com o risco, o horizonte temporal de seus investimentos e o que deseja receber em troca.
Com juros menores, a diversificação — muito mais que uma palavra de manuais financeiros — é instrumento pragmático e até de resiliência, no sentido de que pode diluir riscos inesperados e permitir a exposição a resultados de diferentes fontes, de modo a contribuir para resultados eventualmente mais perenes que aqueles que dependem exclusivamente de juros altos.
Tudo é uma questão de perfil, mudança gradual e compreensão dos riscos envolvidos em toda e qualquer alocação, seja ela tática ou estratégica. Mas, para quem deseja construir patrimônio sem depender da sazonalidade dos ciclos econômicos ou da Selic nas alturas, o cenário convida à reflexão.
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