Graduado em Economia pela Ufes, com MBA em Gestão Financeira e Controladoria pela FGV e MBA em Digital Business pela USP. Atua há 15 anos no mercado financeiro e atualmente é diretor do Banestes.

Debêntures, CRIs e CRAs: chances em crédito privado em meio à incerteza fiscal

Com a Selic ainda em patamar elevado, debêntures, CRIs e CRAs oferecem rentabilidade atrativa, mas exigem análise cuidadosa de risco e liquidez

Vitória
Publicado em 27/01/2026 às 09h04

O atual cenário econômico brasileiro combina dois fatores: juros ainda elevados e um ambiente fiscal instável. Apesar de seguir em uma trajetória de declínio, a Selic continua em níveis historicamente altos, o que mantém os ativos de renda fixa como um componente fundamental na estratégia de proteção de capital dos investidores. Neste contexto, o crédito privado, que inclui debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), assume um papel de destaque, porém requer maior atenção e rigor na análise.

Em primeiro lugar, é crucial compreender o conceito envolvido. Ao optar pelo investimento em crédito privado, o investidor, na essência, realiza um empréstimo a empresas ou segmentos específicos da economia. As debêntures são utilizadas para financiar companhias de diversos segmentos; os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) alocam capital no setor imobiliário; enquanto os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) focam no agronegócio. Em retorno, o investidor obtém rendimentos ao longo do tempo, que podem estar vinculados ao CDI, à variação inflacionária ou a uma taxa de juros fixa.

Debêntures, CRIs e CRAs seguem como alternativas na renda fixa, desde que escolhidas com disciplina e cautela. Crédito: Imagem gerada pelo ChatGPT
Debêntures, CRIs e CRAs seguem como alternativas na renda fixa, desde que escolhidas com disciplina e cautela. Crédito: Imagem gerada pelo ChatGPT

Nos anos recentes, esse setor experimentou um crescimento significativo. Segundo a Anbima, 2025 se destacou como um ano histórico para emissões de debêntures, evidenciando tanto a necessidade das companhias em diversificar suas fontes de captação quanto o interesse dos investidores em buscar rendimentos mais altos. Essa tendência também indica uma transformação estrutural: as empresas estão mais integradas ao mercado de capitais.

O principal atrativo desses instrumentos financeiros reside em sua rentabilidade. Em diversas situações, estes oferecem taxas de juros superiores às dos títulos governamentais e aos produtos bancários convencionais. Além disso, uma parte desse segmento conta com isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas, como os CRIs, CRAs e debêntures incentivadas, o que potencializa de maneira significativa o retorno líquido. Em um contexto de restrições fiscais e debates acerca do aumento tributário, essa vantagem se tornou ainda mais valiosa, embora deva ser considerada uma condição não garantida a longo prazo.

Entretanto, um maior retorno está associado a níveis mais elevados de risco. Ao contrário de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) ou Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), esses instrumentos não são cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos. Isso implica que o investidor deve analisar detalhadamente quem está recebendo os recursos, como a transação foi elaborada e quais garantias são oferecidas. Eventos recentes demonstraram que até o mercado de renda fixa pode apresentar volatilidade diante de retiradas substanciais ou alterações abruptas nas previsões de taxas de juros.

Para o investidor comum, a lógica é simples: o crédito privado não deve ser considerado como um substituto para a reserva de emergência. Ele se justifica para metas de médio e longo prazo, quando o investidor pode manter o investimento até o vencimento. Também é crucial diversificar, entre emissores, setores e tipos de indexação, para mitigar riscos específicos.

Em um ano caracterizado por instabilidade fiscal, eleições iminentes e taxas de juros ainda elevadas, o mercado de crédito privado continua a apresentar oportunidades atraentes. Contudo, mais do que simplesmente buscar a maior taxa de retorno, o investidor deve focar em encontrar um equilíbrio entre rentabilidade, risco e liquidez. No segmento de renda fixa, assim como na vida real, a previsibilidade é valiosa, mas só funciona quando vem acompanhada de disciplina e análise.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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