Ao longo desta série, observamos que a moeda é uma construção social fundamentada na confiança, enquanto o crédito atua como o motor invisível que impulsiona a economia. Neste terceiro e último capítulo, abordamos um tema que gera divergências, suscita paixões e provoca debates: as criptomoedas. Elas são, de fato, uma verdadeira transformação no conceito de dinheiro ou apenas mais uma ilusão financeira surgida em períodos de incerteza?
A resposta objetiva é: nem uma coisa, nem outra. As criptomoedas são um indicativo significativo de um fenômeno mais amplo — uma crise de confiança no sistema financeiro convencional — e, simultaneamente, representam um experimento tecnológico com um potencial autêntico, mas com limites bem definidos.
Por que surgiram as criptomoedas?
O Bitcoin foi criado em 2008, durante a mais severa crise financeira desde 1929. O colapso do sistema bancário nos Estados Unidos, os pacotes de resgate governamentais e a percepção de que as perdas foram socializadas enquanto os lucros permaneceram nas mãos de poucos minaram a confiança nas instituições financeiras. O próprio documento de fundação do Bitcoin, elaborado por Satoshi Nakamoto, propõe um sistema de pagamentos “peer-to-peer”, eliminando a necessidade de intermediários.
Estudos do FMI indicam que crises financeiras significativas frequentemente catalisam inovações monetárias. A tecnologia blockchain proporcionou a infraestrutura técnica para essa resposta: descentralização, transparência e resistência à censura. A promessa era clara: dinheiro sem bancos, sem governos e sem inflação arbitrária.
Criptomoeda é dinheiro?
Aqui começa a frustração de muitos entusiastas. Quando analisadas à luz das funções clássicas da moeda, as criptomoedas falham em pontos importantes. Elas desempenham um papel inadequado como meio de troca, devido a fatores como custos elevados, lentidão nas transações e alta volatilidade. Além disso, não são eficazes como unidade de conta, uma vez que os preços raramente são cotados em Bitcoin ou Ethereum. Sua maior eficácia é observada na função de reserva de valor, embora a instabilidade de preços ainda limite essa função.
O Banco de Compensações Internacionais (BIS) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) são categóricos ao afirmar que criptoativos tendem a se comportar mais como ativos financeiros especulativos do que como moedas verdadeiramente funcionais. O economista Paul Krugman já sinalizou que uma forma de dinheiro cujo valor pode reduzir em 20% em um único dia gera mais incerteza do que eficiência. Na prática, a maioria das pessoas recorre às criptomoedas não para quitar contas, mas para especular sobre sua valorização.
O impacto das criptos no crédito e nos bancos
O que torna a discussão mais intrigante é o aspecto do crédito. O crescimento das finanças descentralizadas (DeFi) evidencia que é viável estabelecer sistemas de empréstimo, garantias e liquidações sem a intermediação de instituições bancárias tradicionais. Relatórios do Banco de Compensações Internacionais (BIS) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) reconhecem que essas inovações aumentam a competitividade e forçam o sistema financeiro a se atualizar.
Entretanto, os riscos são igualmente significativos. Na ausência de regulamentação, garantias e com uma intensa assimetria de informação, o DeFi reproduz problemas históricos do sistema financeiro, como a alavancagem excessiva, crises de liquidez e colapsos em cadeia. Pesquisas do Federal Reserve indicam que muitos desses sistemas, em última análise, dependem de ativos tradicionais e de uma confiança que não é tão descentralizada quanto aparenta.
Inclusão financeira ou nova exclusão?
Um dos argumentos frequentemente defendidos em favor das criptomoedas é a possibilidade de inclusão financeira. De fato, qualquer indivíduo com um smartphone e conexão à internet pode estabelecer uma carteira digital. O Banco Mundial reconhece esse potencial, especialmente em nações com sistemas financeiros vulneráveis.
Entretanto, há um contraponto significativo. A complexidade técnica, a volatilidade acentuada e a disseminação de fraudes geram uma nova forma de exclusão. Relatórios da OCDE e do FMI destacam que investidores de pequeno porte são desproporcionalmente impactados por fraudes e colapsos de plataformas. O que inicialmente parecia uma democratização pode acabar se tornando uma transferência de risco para aqueles que menos compreendem o sistema.
O Estado reage: CBDCs e regulação
Frente a esse panorama, os governos não permaneceram inertes. Bancos centrais globalmente estão investigando ou já implementando moedas digitais oficiais, conhecidas como CBDCs. O BIS e o FMI consideram essas iniciativas como uma reação direta às criptomoedas não regulamentadas. No Brasil, o Drex simboliza esse esforço para modernizar o sistema financeiro, assegurando estabilidade, supervisão e confiança institucional.
A lógica é clara: integrar a eficiência tecnológica sem sacrificar a soberania monetária. O futuro das moedas emitidas pelo Estado tende a ser digital, mas não descentralizado nos moldes extremos sugeridos pelas criptomoedas.
Ruptura ou convivência?
Ao final, a evidência aponta para a convivência. Relatórios do BIS, do FMI e do Fórum Econômico Mundial demonstram que as criptomoedas provavelmente não substituirão as moedas fiduciárias, mas podem assumir papéis em nichos específicos, como ativos alternativos, instrumentos tecnológicos ou infraestrutura financeira complementar.
As criptomoedas não extinguiram os bancos, nem tornaram os Estados obsoletos. Contudo, deixaram uma mensagem clara: a confiança é essencial. Quando as instituições falham, alternativas emergem, mesmo que não sejam perfeitas.
Esta série começou com uma pergunta simples: o que é dinheiro? Terminamos com outra igualmente relevante: em quem confiamos para organizá-lo? O futuro do sistema financeiro não será totalmente descentralizado nem totalmente estatal. Ele será híbrido, moldado por tecnologia, regulação e, acima de tudo, pela capacidade de manter a confiança da sociedade.
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