Se a moeda regula a atividade econômica, o crédito é o elemento que movimenta a engrenagem. Ele fundamenta a formação de novos negócios, a aquisição de imóveis, a ampliação de indústrias, as inovações tecnológicas e até mesmo as despesas diárias. Apesar disso, o crédito frequentemente é percebido de maneira distorcida: ora como vilão responsável por crises, ora como solução mágica para todos os problemas. A realidade, no entanto, é mais complexa e mais interessante.
Joseph Schumpeter já afirmava que o crédito é a principal alavanca do progresso econômico. Para ele, não se limita apenas a antecipar o consumo, mas também a fomentar a capacidade produtiva futura. Essa perspectiva é corroborada por investigações do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, que evidenciam uma conexão direta entre sistemas de crédito bem estruturados e um crescimento econômico sustentável. Assim, o crédito não é intrinsecamente benéfico nem prejudicial. Ele é uma força poderosa e, como todo instrumento de grande potencial, requer prudência.
Crédito não é só dívida
No senso comum, crédito é frequentemente interpretado como um problema. O aumento da dívida, taxas de juros elevadas e a inadimplência dominam os noticiários diários. No entanto, essa visão moralista desconsidera a função produtiva do crédito. O Banco Central do Brasil enfatiza que o crédito é, em essência, a transferência de recursos ao longo do tempo: um indivíduo renuncia à liquidez presente em troca de um retorno futuro.
A diferença crucial está no uso do crédito. O crédito destinado a investimentos, como capital de giro, financiamento de equipamentos ou expansão de operações, tende a gerar receita futura. Por outro lado, o crédito consumista pode proporcionar alívio financeiro imediato, mas, se mal administrado, pode comprometer as finanças em um segundo momento. O FMI afirma, de maneira contundente, que economias que conseguem direcionar o crédito para iniciativas produtivas colhem benefícios mais sustentáveis em comparação àquelas que dependem exclusivamente do endividamento das famílias.
Como o crédito move a economia real
Na prática, o crédito está presente em quase todas as decisões econômicas significativas. Pequenas e médias empresas, que são responsáveis por uma quantidade substancial de empregos, dependem de capital para expandir as suas operações. A OCDE destaca que o acesso a recursos financeiros é um dos componentes cruciais que explicam por que algumas empresas conseguem inovar enquanto outras permanecem estagnadas.
O Banco Mundial reforça essa ideia ao demonstrar que países com sistemas financeiros mais robustos conseguem converter poupança em investimentos de maneira mais eficaz. Isso resulta em um aumento na criação de empregos, maior produtividade e rendimentos mais elevados. Desde o financiamento habitacional até o crédito agrícola, passando por linhas de crédito para inovação, o financiamento representa um elo entre o sistema financeiro e a economia real.
O papel dos bancos e do sistema financeiro
Aqui surge um ponto frequentemente mal compreendido. Muitos supõem que as instituições bancárias simplesmente transferem os recursos captados de seus depositantes. Mas a realidade é que os bancos criam crédito quando concedem empréstimos, ampliando a quantidade de dinheiro em circulação.
Essa função torna os bancos centrais cruciais para o funcionamento da economia. Hyman Minsky enfatizava que o sistema financeiro não atua apenas como um intermediário passivo, mas como um agente ativo, capaz de intensificar ciclos de crescimento e contração. Portanto, a regulação e a supervisão são fundamentais. O Sistema Financeiro Nacional foi estabelecido preponderantemente para equilibrar a promoção do crédito com a manutenção da estabilidade.
Crédito, risco e crises econômicas
A face negativa do crédito emerge em cenários de crescimento desregulado. A teoria da instabilidade financeira, proposta por Minsky, indica que períodos prolongados de crescimento econômico incentivam os agentes a explorar riscos crescentes. Quando a concessão de crédito avança sem um respaldo na economia real, podem surgir bolhas financeiras.
Relatórios do FMI e estudos do National Bureau of Economic Research (NBER) mostram que grandes crises, como a de 2008, foram precedidas por ciclos de concessão de crédito excessivo. Durante a pandemia, governos e bancos centrais ampliaram a disponibilidade de crédito com o objetivo de mitigar um colapso econômico. Essa abordagem surtiu efeito no curto prazo, mas resultou em altos níveis de endividamento, reacendendo o debate sobre sustentabilidade financeira.
Quem fica fora do acesso ao crédito?
Um dos aspectos mais subestimados na discussão é a exclusão financeira. O Banco Mundial estima que milhões de pequenos empreendedores ainda enfrentam barreiras significativas para obter financiamento formal. No Brasil, dados do Sebrae indicam que micro e pequenas empresas suportam taxas de juros mais elevadas e enfrentam maiores limitações, mesmo desempenhando um papel vital na economia.
A exclusão do crédito não é apenas injusta: é também ineficaz. Ela restringe o crescimento, diminui a concorrência e perpetua as desigualdades. Integrar um número maior de pessoas e empresas no sistema financeiro, seguindo critérios responsáveis, é uma agenda econômica de relevância equivalente à social.
Um gancho para o futuro
O crédito é, portanto, o motor invisível da economia: fundamental, impactante e arriscado quando administrado inadequadamente. Ele estabelece a ligação entre moeda, instituições financeiras e crescimento econômico, mas também expõe fragilidades do sistema financeiro tradicional.
E se houvesse uma forma de moeda que não dependesse de bancos? Essa questão, que parecia absurda há algumas décadas, ganhou relevância com a ascensão das criptomoedas. No próximo artigo, abordaremos se elas constituem uma verdadeira revolução monetária ou apenas mais um episódio na longa trajetória das finanças, e o que isso revela sobre o futuro do crédito e do sistema econômico.
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