Esta última semana, na qual se comemorou o Dia dos Pais, e também alcançamos a trágica marca de 100 mil mortos pela Covid-19, nos dá a oportunidade de refletirmos sobre a seguinte questão: a de que não provemos do nada! Sempre há uma origem.
Antes, porém, falemos um pouco de arte, pois é algo capaz de iluminar a realidade, arrefecendo-a.
O Maneirismo é o período histórico-artístico no qual prevalecem as dúvidas do homem. Após o racionalismo que marca o Renascimento, houve forte reação ideológica da Igreja Católica que culminou nos excessos do Barroco, dramático, teatral, tentando fazer do homem um ser subserviente. Daí o Maneirismo e suas incertezas: a quem obedecer, a ciência ou à palavra divina?
A posição ambígua de Adão diante de Deus, no célebre afresco de Michelangelo, na Capela Sistina, revela a hesitação da crença humana. Não há convicção! Afinal, qual é a verdade?
Se hoje, visto de longe, os exageros barrocos, com suas curvas e contracurvas, nos emocionam, para aqueles que o viveram plenamente, só havia uma verdade, aquela determinada pela Igreja. Por outro lado, para os artistas do Maneirismo, sobrou sofrimento, ambiguidade, ainda que traduzido em uma produção artística fenomenal.
Pelo jeito, voltamos à era das incertezas, porém sem uma criação artística que “compensasse” a tragédia que estamos vivendo na atualidade.
Passado tanto tempo desde o ápice maneirista, a despeito de tanto avanço científico-tecnológico, de todo o conhecimento acumulado, ainda há quem ache que a natureza não serve pra nada, que só atravanca o desenvolvimento econômico (ou seria o enriquecimento oportunista de uns?), e, do mesmo modo, apesar de tantas evidências, encontramos muita gente (milhares, aliás) que duvida que existe uma pandemia aí fora, que mata, e já matou milhares, e que ainda continuará a matar.
De fato, fica difícil pro cidadão comum saber qual caminho seguir.
Ora, se para o próprio presidente da República é só uma gripezinha, se usar máscara é fraqueza de “masculinidade”, cabendo piadas preconceituosas, é razoável imaginar que muitos acabem, por indução, concordando com a visão negacionista, numa espécie de histeria coletiva.
Quer outra contradição? Se hoje no Brasil, quem diria, o maior inimigo do meio ambiente é o próprio ministro do Meio Ambiente, o que dizer daquelas pessoas que sempre acharam que mata é o mesmo que mato, e que só atrapalha?! E aí, pra ficar mais ambíguo e confuso ainda, o paladino defensor do nosso meio ambiente é o ministro de Economia...
No passado, até entende-se, acreditou-se que o desenvolvimento estava associado à conquista do território, que era preciso abrir novas fronteiras. Destruiu-se muito pela falta de entendimento do que é ecologia. Não havia preocupação em viver em harmonia com a natureza, que tudo nos provém.
Derrubava-se uma árvore frondosa com o intuito de obter madeira para construir casas, barcos, móveis, sem a preocupação de que um dia aquele tipo de árvore poderia não mais existir. O que de fato aconteceu, pois muitas espécies de árvores de madeira nobre foram extintas.
Até a pouco tempo, jogávamos porcaria no ar de modo indiscriminado, sem sabermos que isso iria provocar uma perigosa mudança climática, com derretimento das camadas de gelo polar, aumento do nível dos oceanos, possível desaparição de povoados costeiros, entre outras possíveis consequências desastrosas. Mas aí vieram pesquisas científicas, demonstrando os riscos ao meio ambiente e à vida humana caso continuemos agindo assim.
Então, por que há aqueles que agem como se nada disso importasse? Há diversas hipóteses, sendo difícil afirmar com exatidão onde começa o desprezo com a vida humana e com a natureza. A história nos mostra que se trata de algo cíclico, que o caráter vil sempre esteve presente ao longo do tempo, caminhando junto com a retidão, a bondade, a generosidade que, felizmente, encontra-se presente na maioria da espécie humana.
O momento é difícil, mas no fim de tudo prevalecerá a verdade. E nós, que ainda estamos aqui, que sobrevivemos, teremos o desafio de reconstruir o que muitos tentam, em vão, solapar, aniquilar. Vamos que vamos!