“Seria mais feliz sem o fardo de me preocupar com o que fica bem em mim... o fardo de ir comprar roupas... o fardo de pensar se o tipo de roupa que você usa te faz parecer certo tipo de pessoa... se todos esses fardos fossem eliminados, posso supor que eu seria mais feliz.” (Diário de uma garota normal, Phoebe Gloeckner)
Em tempos de sustentabilidade, a moda, dentro da própria moda, são (eram) os brechós e até mesmo o compartilhamento de roupas e acessórios, uma tendência impensável até há pouco tempo.
Isto era consequência de um novo modo de as pessoas enxergarem o planeta no qual vivemos. Uma situação que faria emergir uma nova sociedade, mais consciente, menos consumista, com maior desprendimento das coisas materiais.
Em paralelo, vieram outros serviços de compartilhamento, que vão desde bicicletas, patinetes, automóveis e até mesmo residências no modelo de hospedagem para turistas. É claro que a tecnologia atual de informação e comunicação via aplicativos possibilitou a disseminação da ideia do compartilhamento, facilitando seu uso por qualquer um que tenha um smartphone conectado à internet. Mas havia de fato uma nova mentalidade em curso e que, agora, no pós-pandemia, pode sofrer um revés.
E quanto aos livros, ou melhor, às bibliotecas públicas, afinal como garantir uma higienização eficiente dos livros a serem consultados, lidos, folheados? E aqui confesso que adoro pesquisar, passar horas numa boa biblioteca, como já tive a grata chance de fazer em várias ocasiões, pesquisando, estudando... O que será destes lugares de conhecimento a partir de agora? Ainda mais quando (quase) todos acham que basta ter um smartphone conectado à internet que o mundo de informação do Google nos daria conhecimento suficiente, o que de fato não é verdade.
Talvez se possa dizer agora, de novo, que a situação atual fará emergir uma nova sociedade, mais consciente, menos consumista, com maior desprendimento das coisas materiais. Mas aí se volta a uma etapa anterior no que se refere à possibilidade de dividirmos nossas coisas, sem querer possuí-las, mas de utilizá-las de modo coletivo, podendo haver um novo tipo de consumismo.
A questão do transporte público é uma das mais evidentes, pois estávamos justamente no momento de combater o transporte particular individualizado, em função de todas suas nefastas consequências para as saúdes humana e das cidades. Neste sentido, o risco do retorno ao desejo de cada um ter seu próprio carro ou moto é grande. Por outro lado, é também uma enorme oportunidade para a implementação do incentivo à mobilidade ativa, na qual as pessoas se deslocam a pé ou em bicicleta.
Planos como o de Paris, no qual se deseja criar a “cidade em 15 minutos” para que o cidadão tenha todos os serviços urbanos que necessita acessar (casa – trabalho – escola – supermercado – lazer etc) neste intervalo de tempo, permitindo a efetividade do deslocamento por meio da mobilidade ativa é oportuno no momento atual, apesar de sabermos que isso não pode ser aplicado a toda a população.
Além disso, mesmo algo assim demoraria um longo tempo até ser efetivado em termos de políticas públicas. E, enquanto isso, o que fazemos?
Voltemos ao caso dos livros, uma paixão pessoal. Ao longo dos anos, fui acumulando uma biblioteca razoavelmente volumosa, e da qual me orgulho. Mas que custa manter sem poeira, que ocupa um enorme espaço físico e me custou certo gasto econômico. Bom, também se poderia dizer que não foi gasto, mas um investimento não retornável.
Não obstante, já faz tempo que estamos cada vez mais fazendo uso da leitura nas telas de vidro de computadores, notebooks e celulares, o que só foi intensificado no período da quarentena. A despeito dos alertas médicos sobre possíveis problemas nos sistemas ocular e cerebral, já tornamos a leitura digital algo rotineiro.
Quem gosta de livro, também gosta do cheiro do papel, da arte da capa e até de colecionar marcador de livro! Só que, tal como 2 e 2 são 4, é fácil imaginar que para o leitor, o que importa mesmo é o conteúdo, o texto literário, e apesar de todas as perdas afetivas em relação ao cheiro do papel, à arte da capa e aos marcadores de livro, talvez tenha chegado a hora de adotar um livro eletrônico com todas suas vantagens e que não são poucas.
Ainda assim, fica a angústia quanto ao futuro das bibliotecas e do desprendimento que vinha viabilizando o compartilhamento da materialidade.