Há uma expressão que diz que “depressão é excesso de passado / estresse é excesso de presente / ansiedade é excesso de futuro”. O fato é que depressão, estresse e ansiedade são doenças comportamentais cada vez mais comuns e gravíssimas, podendo causar até mesmo mortes, como de fato já vem ocorrendo no mundo atual. A pandemia e, em consequência, o isolamento social e a crise econômica, provavelmente agravarão tal situação daqui pra frente durante longo tempo.
De fato, pesquisas recentes demonstraram o aumento nas vendas de remédios para insônia e antidepressivos nas farmácias brasileiras durante o confinamento. Além disso, o Google registrou que a palavra “insônia” foi a mais procurada nos meses de abril e maio. Quem dorme mal, tem um período diurno ruim, nervosismo e cansaço se tornam constantes, o que implicará num sono ruim, e assim num círculo vicioso.
Para compensar, falemos de outro fenômeno dos dias atuais, que é o maior interesse das pessoas pela meditação, bem como pelo mindfulness (ou atenção plena, em português). Em linhas gerais, pode-se dizer que não há grandes diferenças em ambas as técnicas, em seus objetivos; talvez o que as distancia seja mesmo a origem histórica, pois a meditação possui maior tradição, é mais longínqua que o mindfulness.
Na meditação, buscamos nos desconectar do mundo que nos cerca, concentrando-nos no presente e no nosso corpo, na nossa respiração. Há uma desaceleração da mente, o corpo relaxa, nos sentimos leves e renovados após alguns minutos meditando. No mindfulness, as pessoas tentam eliminar da mente tudo aquilo que fazemos de modo quase automático e que desvia a nossa atenção do que seria a principal tarefa a ser realizada, de tal modo que essa técnica tem sido adotada em muitos ambientes de trabalho, afinal se prevê melhores resultados laborais se nos distraímos menos.
Neste ponto, é importante ressaltar que estamos vivendo um período de enorme falta de concentração das pessoas, acostumadas cada vez mais com a imediatez das redes sociais, cujo resultado são indivíduos dispersos. Os exemplos são muitos: alunos que não conseguem prestar atenção nas falas dos professores; motoristas que não conseguem dirigir sem olhar ou falar ao celular; amigos numa mesa de restaurante que não conversam entre si, pois todos olham as mensagens que chegam...
É claro que todas estas ações encontram-se momentaneamente paralisadas por causa da pandemia, mas nada garante que a desconcentração não esteja ocorrendo no ambiente residencial durante o confinamento, e nem que retorne (talvez até mais intensa) tão logo possamos voltar às ruas, às salas de aulas, à vida pré-isolamento.
Até o momento em que tudo mudou em função da pandemia, podíamos dizer que o homem nunca gozou de tanto conforto e possibilidade de transformação socioeconômica, a despeito da enorme quantidade de pessoas pobres e desassistidas em todo o mundo. Excluindo, portanto, tais pessoas, para quem a necessidade mais urgente é o prato de comida diário, as demais, ou pelo menos a maioria delas, estão vivendo cada dia mais pressionadas por diversos fatores, sejam eles sociais, econômicos, culturais, laborais, e que podem resultar em depressão, estresse, ansiedade, insônia... e tudo isto apesar das benesses que a tecnologia e o conhecimento científico nos proporcionou.
Podemos dizer que a vida é feita de escolhas, oportunidades e acasos, e é deste caldeirão que temos que conduzir nossos destinos.
A meditação e o mindfulness, por exemplo, são estratégias simples e baratas, bastando apenas vontade para praticá-las. Requer um pouco de treino, mas nenhuma habilidade específica, somente o desejo de olhar para si próprio, deixando de lado, pelo menos durante um pequeno período ao longo do dia, as preocupações com o passado ou o futuro, as distrações do presente...
E por que é importante falarmos disso agora? Porque, como muitos já estão dizendo, não haverá o retorno ao normal como o conhecíamos antes. É provável que muitos de nós tenhamos enorme dificuldade em se ajustar às transformações do novo momento que se descortina. O trabalho remoto e o ensino a distância, se pode “cair como uma luva” para uns, pode ser extremamente árduo e angustiante para outros.
Então, mais do que a insônia, o desânimo e a prostração atuais serão os riscos de tais anomalias daqui pra frente. Afinal, o passado já não parece ter tanto sentido, não temos ideia de como será o futuro, e o presente tem sido assustador. Será preciso muito autocontrole, muita meditação, para lidar com todos esses desafios...